Língua, civilização e cultura
* Por
Celso Cunha
A língua é um conjunto
de sinais que exprimem idéias, sistema de ações e meio pelo qual uma dada
sociedade concebe e expressa o mundo que a cerca, é a utilização social da
faculdade da linguagem. Criação da sociedade, não pode ser imutável; ao
contrário, tem de viver em perpétua evolução, paralela à do organismo social
que a criou.
Em sua história, o
indivíduo desempenha papel modesto. É, porém, na execução individual que a
língua se concretiza. E, como cada indivíduo tem em si um ideal lingüístico,
procura extrair do sistema idiomático de que se serve as formas de enunciado
que melhor lhe exprimam o gosto e o pensamento. Essa escolha é sempre uma
operação artística. É a fala individual, o estilo, o próprio indivíduo a
expressar suas alegrias e suas angústias. Alguns, melhor dotados, conseguem
captar a frescura lírica ou o calor épico do quotidiano, a vibração da época,
transpô-los em caracteres e fazê-los reviver pelos tempos em fora. Por isso a
obra de arte é intangível.
"Contra a Arte,
ó! Morte, em vão teu ódio exerces!"1 disse o poeta. Mas, por expressarem
os ideais artísticos da época, soaria falso um Virgílio quinhentista ou um
Camões novecentista, e, porque foram grandes e porque foram gênios, certamente
eles seriam os autores, se em outros séculos vivessem, não da Eneida e de Os
Lusíadas, mas de poemas muito diversos no espírito e na forma.
Além disso, o passado
é sempre fragmentário. Jamais o podemos reconstituir em suas minúcias, pois,
como lembra Goethe, do que foi feito ou dito, uma ínfima parte foi escrita; do
que foi escrito, uma ínfima parte foi conservada.
É, assim, um erro ver
o presente com os olhos do passado, como o é o inverso, examinar épocas antigas
com preconceitos modernos. Ao historiador é necessária certa dose de
despersonalização, deve ele seguir o conselho de Anatole France e ser, por
estranho desdobramento, homem antigo e homem moderno, e viver sobre dois planos
diferentes. Mas aos nossos historiadores da língua e da literatura - não há
injúria em dizer-se - falta de regra esta elementar capacidade dramática: não
conseguem despegar-se de velhos e cansados processos, e, temerosos da vida
perigosa sobre planos distintos, procuram fundi-los, para sua comodidade, num
só. É a tragicomédia do historicismo, a que se refere Leo Spitzer, "que
parte para a conquista da verdade histórica 'objetiva' e traz apenas, como
fruto da pilhagem, uma indigesta moles viscosa do subjetivismo do historiador,
que, decapitando as épocas históricas e desconhecendo-lhes a forma mentis,
relaciona tudo, exceto os a priori da própria época".
Um conhecido fato,
narrado por Adolfo Mussafia, demonstra a que exageros pode chegar o
historicismo inverso, que vigorou, com preponderância, em fins do século
passado, quando Hermann Paul enfaticamente afirmava não haver outro estudo
científico da língua senão o histórico.
Mandara Mussafia um
examinando à pedra e pedira-lhe que escrevesse em francês a frase:
"O Imperador
chamou Rolando."
O jovem prontamente
redigiu:
"Lu emperere at
apelet Rollant."
- Muito bem! -
redargüiu. - Escreva agora em francês moderno.
A resposta foi também
pronta.
- Ah! senhor
professor, o francês moderno ainda não aprendemos...2
Em verdade, nenhuma
atividade exige mais, e mais tem padecido dessa visão sincrônica dos fatos do
que a filologia. Explicam-se fenômenos antigos à luz de documentação moderna,
estabelecem-se relações várias, sem levar em conta as divergências de tempo e
de espaço, a cronologia e a geografia do fato lingüístico-literário.
O mais grave, no
entanto, o que está a matar o estudo do idioma em nossas escolas,
principalmente nas primárias e médias, é que todo o ensino se faz na base do
certo e do errado, do que é e do que não é vernáculo.
É natural que se
evitem os erros, isto é, as formas lingüísticas que transgridem a norma
coletiva ou que são inadequadas a determinada função, mas não se deve nem se
pode agir no caso com demasiado rigor, pois, como salienta Frei, a maioria das
incorreções servem geralmente para prevenir e reparar os déficits da linguagem
correta. Melhor que os filólogos, os escritores sentem isso, e fazem até da
impropriedade uso consciente, empregando-a como recurso de estilo de rara
expressividade. E aqueles de linguagem predominantemente afetiva são os que
mais fogem aos padrões coercitivos.
Evitem-se os erros, os
erros verdadeiros. Mas para isso só há o remédio já preconizado por Jespersen:
"Nada de listas nem de regras, repita-se o bom muitas e muitas
vezes."3
Convenhamos, porém,
nesta preliminar: o "bom" só pode ser assim considerado se for
sentido como tal, e só pode ser sentido dentro de uma norma exeqüível, ou seja,
de que participe o locutor.
Abandonemos, pois,
esse ensino inoperante de regras e exceções. Estudemos a língua. Que não se
repita em nosso ensino o que se conta de um professor dinamarquês, que, tendo
perguntado a um aluno qual o gênero do substantivo francês mort - e
acrescentando, em seguida, por quê? -, obteve a resposta: "porque vem do
latim mors, que é feminino"; com o que não se satisfez e corrigiu assim:
"nada disso, é porque é exceção".4
Sejamos mais clementes
com os estrangerismos, mesmo porque não podemos evitá-los, pois nos vêm com os
progressos da civilização - a palavra a acompanhar a coisa, indicando-lhe a
origem.
Com relação ao
exagerado purismo, devemos ter presentes algumas advertências de Ortega y
Gasset, que bem merecem um comentário particular.
Em suas meditações
sobre a língua e o estilo, Ortega que, com Unamuno e toda a geração espanhola
de 98, combateu o casticismo esclerosante, coloca a questão em seu justo lugar:
"Escritor
casticista", diz ele, "significa em meu léxico uma forma de desonra
literária, quero dizer, é uma das muitas maneiras, das infinitas maneiras entre
as que um poeta pode escolher para não sê-lo."5
E acrescenta:
"Um eu poderoso
não perde tempo em temores de ser absorvido por outro; antes, pelo contrário,
está seguro de ser ele o absorvente. Dotado de forte apetite, acode aonde haja
alguma matéria assimilável. Deste modo aumenta sem cessar, transforma-se e se
enriquece."
Investindo contra a
ininterrupta tradição do imperativo casticista, encarecido por muitos como
elemento mantenedor da própria espiritualidade nacional, adverte:
"Preocupar-se
tanto com a própria personalidade equivale a reconhecer que esta não é
suficiente, que não se basta a si própria, que pelo menos necessita de tutela.
Mas o casticismo é o
gesto fanfarrão que a debilidade faz para não ser conhecida."
E justifica: "O
castiço, precisamente porque significa o espontâneo, a profunda e inapreensível
substância de uma raça, não pode converter-se em uma norma. As normas são
sempre abstrações, rígidas fórmulas provisórias que não podem aspirar a incluir
as ilimitadas possibilidades do ser. Por amor à Espanha (leia-se Brasil e Portugal)
de hoje e de amanhã, não nos queiram reduzir à Espanha (leia-se Brasil e
Portugal) de um século ou de dois séculos que passaram! A psicologia de uma
raça deve entender-se como uma fluência dinâmica sempre variável, jamais
conclusa."
"Um escritor purista
é, pois, um escritor que se atém a formas de poesia inventadas por outros
artistas de seu país; o que quer dizer que é um imitador, não um poeta."
Em outra ocasião, ao
falar da pusilanimidade do tradutor que, em vez de descumprir os dogmas
gramaticais, encerra o escritor traduzido na prisão da linguagem convencional,
diz:
"Escrever bem
consiste em fazer continuamente pequenas erosões na gramática, no uso
estabelecido, na norma vigente da língua. É um ato de rebeldia permanente
contra o contorno social, uma subversão. Escrever bem implica certo denodo
radical."6
Há, porém, outro
aspecto no purismo, e aí para Ortega está o seu maior perigo: o casticismo é
arcaizante. O espírito é força, vida, invenção, criação, e a memória é inércia,
peso da alma, matéria espiritual. Por isso, conclui:
"O arcaísmo é a
forma de produção literária e científica que escolhe um povo quando sua vida
decai e se orienta para a morte. É certo que do passado, canteiro maternal, hão
de extrair-se os materiais para o novo, mas o arcaísmo consistir precisamente
em reter o passado galvanizando-o, dotando-o de uma falsa atualidade e
vigência."7
"O homem inatural
que caminha pela existência graças a um impulso que fica atrás dele não pode
ter tampouco sensibilidade para a atualidade circundante. É um espectro para
quem tudo é espectro."
Não é outro o
pensamento de Dámaso Alonso, quando escreve:
"Para conhecer a
sensibilidade de um homem pergunto-lhe primeiro pela arte que se está criando
em volta dele. Porque creio que quem não participa da compreensão da arte de
sua época dificilmente compreenderá a antiga. Quer isto dizer que duvido muito
de um crítico literário (e de um filólogo, acrescentamos nós) se o vejo dar as
costas à poesia viva, manante."8
Presenciamos hoje, no
Brasil, uma arte nova desenvolver-se em torno de nós, vemos consolidar-se a
idéia dos iluminados de 1922 - a antecipação do verdadeiro artista à sua época
-, vemos tudo isso e sentimos o contraste entre uns poucos que procuram
utilizar os recursos intocados do idioma e a massa opressiva dos que saem dos
nossos colégios sabedores de uma língua que não funciona, prisioneiros de uma
gramática que é um código de impedimentos ao uso dos meios expressivos de que
nos servimos na fala corrente. E o curso médio é, por excelência, um curso de
formação e, como tal, deve formar o aluno para a vida que vai realmente viver.
E não é só a língua
que nos ensinam para bem falar e escrever que se apresenta assim dissociada da
realidade do tempo. A chamada gramática histórica, que a muitos, no 2o ciclo do
ginásio e nas Faculdades de Filosofia, serve de enganosa erudição, de regra
nada traz de história, de conteúdo cultural de outras épocas. Não passa em
geral de fatos desconexos, de leis evolutivas inexoráveis.
É, pois,
imprescindível mudar tal estado de coisas e juntar nossas vozes àquelas que
clamam contra este ensino inútil.
Preliminarmente,
cumpre-nos mostrar que a literatura brasileira atual é extremamente rica e
talvez tenha, como em nenhuma outra época, possibilidades de projeção
universal. É sobre os seus textos que se deve fundar o ensino do idioma no
curso médio, principalmente nas primeiras séries.
"Nenhuma época se
equivoca esteticamente." Os gramáticos em geral e os nossos em particular
infelizmente não entendem assim, e procuram contrariar uma das características
da espécie que tem "uma constituição futurista", que caminha para a
frente, não contra a tradição, mas incorporando-se, para seguir além dela.
Com essas
considerações, não pretendemos, como poderá parecer a espíritos desavisados,
propor a anarquia lingüística, mas sim aconselhar que se resguarde a unidade
substancial da língua, estudando-a como ela é, e não como alguns supõem ou
desejam que deva ser. Por isso, não vemos razão para um teorismo abusivo,
fundado em conceitos duvidosos, nem tampouco para uma prática, baseada em
processos analíticos, que decompõem a tal ponto a expressão sintética que a
fazem irreconhecível, qual a Mosca azul do conhecido poema de Machado de Assis.
Seu refulgir mais
parecia um sonho; dissecada pelo poleá, perdeu, no entanto, aquela
"Visão fantástica
e sutil,"
e sucumbiu
"Rota, baixa,
nojenta, vil."
Examinemos tão-somente
a expressão realizada. Não queiramos repor o que os autores desejaram omitir.
Não completemos aquilo a que nada falta, o que está perfeito e concluso.
A língua de nossos
dias reflete a civilização atual, rápida no enunciado, em virtude da própria
rapidez vertiginosa do desenvolvimento material, científico e técnico:
processos acrossêmicos, reduções às iniciais de longos títulos, interferências
de vocabulários técnicos, intercomunicação de linguagens especiais, tudo
vulgarizado imediatamente pelo jornal, pelo rádio, pela televisão. Impossível
ao estudioso do idioma manter a quimera do purismo lingüístico, querer forçar a
jovens, que pertencem aos mais diversos grupos sociais, um padrão idiomático
dissociado da vida, mosaico de formas e construções de épocas várias,
encanecidas ou mortas pelo tempo.
A petrificação
lingüística é a morte do idioma. A linguagem é, por excelência, uma atividade
do espírito, e a vida espiritual consiste em um progresso constante.
"Toda a
verdadeira intuição ou representação", lembra Croce, "é em suma
expressão. Aquilo que não se objetiva em uma expressão não é intuição ou
representação, mas sensação e naturalidade. O espírito só intui fazendo,
formando, exprimindo."9
É claro que se podem
opor - e têm sido opostos - argumentos sérios ao paralelismo da linguagem e do
pensamento, concebido de forma absoluta por que fazem alguns, como Humboldt,
Steinthal, Wundt, Cassirer e Vossler, que, afirmando a perfeita adequação entre
a forma fonética da linguagem e o pensamento, ambicionam reconstituir todas as
oposições psíquicas sobre a expressão lingüística. Mas o fato é que não podemos
tirar as nossas ilações senão da expressão. Não podemos sair, em nossas
análises críticas, dos limites da expressão. Neste sentido, exagera Bertoni,
"pode-se afirmar que a língua é o próprio pensamento: isto é, o corpo, não
a veste do pensamento".10
Há por aí uma geração
nova, desiludida dos falsos profetas, dos "archissuppôts de la
langue", dos que se comprazem em fabricar palavras que não vivem, dos que
procuram evitar a entrada de vocábulos das línguas de civilização atuais - e,
em nome de um purismo soi-disant eterno, só admitem a pilhagem ao latim e ao
grego.
Ela um dia terá a sua
hora. E, porque acreditamos nos destinos do Brasil, estamos certo de que a
verdade científica predominará ao fim.
Dia virá em que os
diversos aspectos do nosso opulento e harmonioso idioma serão examinados de
forma concreta, em que questões de fato venham a ser estudadas como tais e em
que disporemos de meios para isso.
O estudo da língua
considerada como fato puro e objeto de análise descritiva, realizado à base de
métodos rigorosos e com a ajuda de um instrumental que é hoje complexíssimo e
que, por si só, já constitui uma especialização, ou mesmo um largo campo de
especializações, conduz ao atesouramento de uma riqueza nunca para desprezar,
bem que julguem muitos o contrário.
E também aqui reveste
a filologia, pelos fins que demanda, uma importância que não é puramente
lingüística. Trabalhando sobre amostras da língua escrita ou da língua oral,
analisando a expressão de grupos metropolitanos ou de populações campesinas, o
objeto do filólogo está em descrever, analisar e caracterizar não somente a
língua, mas o fato cultural de que ela é a expressão.
Desde Schuchardt e
Meringèr, com a doutrina das Wörter und Sachen, aos mais modernos atlas
lingüísticos, aspira a filologia ao conhecimento do homem, que estuda em sua
expressão, reconstituindo-o em seu meio, em seu tempo, em seu mundo psíquico,
em suas ações.
O mesmo para as
atividades relativas à língua escrita: a edição de textos, por exemplo, que a
tantos entre nós tem parecido - por força do que infelizmente se vê de nossa
realidade - obra mecânica e de exigências puramente materiais é das tarefas
mais graves da filologia.
[...]
1. Augusto dos Anjos,
Eu, 1912, pág. 66.
2. Citado por Serafim
da Silva Neto, Manual de filologia portuguesa, 2ª ed., Rio de Janeiro, 1957,
pág. XIII.
3. Cf. Otto Jespersen,
How to Teach a Foreign Language, translated from the Danish original by Sophia
Yhlen-Oslen Bertelsen, M. A., twelfth Impression, 1961, pág. 124. Depois de
criticar os diversos conceitos de correto e incorreto, do ponto de vista
lingüístico, Jespersen chega à conclusão de que é correto o exigido pela
comunidade lingüística a que se pertence. Ou, como diz em outra obra:
"falar correto significa o falar que a comunidade espera, e erro na
linguagem equivale a desvios desta norma, sem relação alguma com o valor
interno das palavras ou formas" (Humanidad, nación, individuo desde el
punto de vista lingüístico, traduzido por Fernando Vela, Buenos Aires, 1947,
pág. 178).
4. Referido por
Jespersen (cf. How to Teach a Foreign Language, pág. 125).
5. El Espectador,
Madrid, 1950, pág. 250 e segs.
6. Miseria y esplendor
de la traducción, in "Obras Completas", I, 4ª ed., Madrid, 1958, pág.
434.
7. Problemas
culturales, in "Obras Completas," I, 4ª ed., Madrid, 1957, pág. 550.
8. In Dámaso Alonso y
José M. Blecua, Antología de la poesía española. Poesía de tipo tradicional,
Madrid, 1956, pág. IX.
9. Estetica come
scienza dell'espressione e linguistica generale, sesta edizione riveduta, Bari,
1928, pág. 11.
10. Giulio Bertoni,
Introduzione alla filologia, Modena, 1941, pág. 10. Quanto ao pensamento
lingüístico de Bertoni, leia-se a análise crítica de Giovanni Nencioni,
Idealismo e realismo nella scienza del linguaggio, Firenze, 1946, especialmente
págs. 17-26.
(Uma política do
idioma, 1965).
*
Professor, filólogo e ensaísta, membro da Academia Brasileira de Letras.
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