Chuva e melancolia
A chuva tem o poder mágico de despertar
melancolia nas pessoas. Nossas emoções ficam aguçadas, receptivas, tensas. É
verdade que são cinzentas, são gris como o próprio céu nublado. Mas são mais
intensas, mais prolongadas, mais profundas. O tempo úmido facilita a
introspecção e faz com que as reminiscências sejam mais vivas, mais presentes e
mais abundantes, em especial quando estamos sós e sem muito ou nada que fazer.
Pelo menos no meu caso, ocorre dessa maneira. O homem é um ser meteorológico.
Talvez esse comportamento, essa influência climática, se deva à mudança na
pressão atmosférica. Não posso garantir que seja por isso. Não sei explicar a
razão.
Gosto de escrever em dias chuvosos, com
a água simulando uma suave canção de ninar ao escorrer mansamente pela calha.
Meu poder de concentração torna-se maior. As palavras, frases, sentenças e
períodos alinham-se com maior facilidade e coerência. E em geral, com um certo
tom de tristeza indefinida, vaga, sem razão objetiva. Aprecio particularmente a
chuva mansa, persistente, contínua, que dura horas consecutivas, em especial
nos finais de semana, quando não tenho compromissos fora de casa e posso me
entregar modorrentamente aos meus textos.
Mesmo a caminho do serviço, o cenário
molhado das casas, das árvores e das ruas tem sobre mim um efeito sedativo,
calmante, apaziguador. Evito de conversar com o motorista do veículo que me
conduz nessas ocasiões. E o faço não apenas para não lhe desviar a atenção,
pois com as pistas escorregadias o risco de acidentes se torna maior, mas para
poder meditar, para auscultar as minhas emoções e conversar comigo mesmo. Meu
senso de observação fica mais aguçado. Olho pessoas atravessando, apressadas,
guarda-chuvas nas mãos, as movimentadas avenidas campineiras. O que será que
lhes vai pela alma? , questiono. Talvez nada. Talvez muito. Talvez tudo... Uma
estudante parada em um ponto de ônibus leva um banho de água suja e lama à
passagem de um carro junto à sarjeta onde há enxurrada. Percebe-se que o gesto
foi proposital. Palavrões são ditos pela pedestre. Riso de zombaria do
motorista.
Mas prefiro, mesmo, o calor e a
familiaridade do meu gabinete de trabalho. Minhas estantes de livros, que
considero o maior tesouro que possuo. Meus quadros na parede, cada um com seu
valor e sua história sentimental. A máquina de escrever ao canto, sobre a
escrivaninha, pois ainda não consegui dinheiro suficiente para a aquisição de
um micro. Os arquivos de aço repletos de páginas de jornal que produzi, quer com
textos meus, assinados (artigos, crônicas, ensaios e até contos), quer com
minhas edições. Este é o meu mundo, o meu paraíso, o meu universo, onde me
sinto rei e experimento até um arremedo de felicidade.
Fico rememorando um sem-número de
poemas e de canções inspirados pela chuva. O poeta J. G. de Araújo Jorge (muito
lido nos anos 50 e 60), tem uns versos magistrais a respeito. Do Carlos
Drummond de Andrade não conheço nenhum, mas deve ter algum. Quanto às
composições de música popular (brasileira ou não) sobre o tema, há tantas que dariam para
preencher vários programas de rádio e ainda sobrariam algumas por tocar. Aliás,
quando eu era radialista, na "Rádio ABC" de Santo André, no início da década de 60, fiz uma seleção
desse tipo, com grande sucesso entre os ouvintes.
Casualmente, encontro a cópia de um
poema de Fernando Gregh, traduzido por Guilherme de Almeida, intitulado
"Chove", no meio de um livro, que é uma preciosidade. Leiam e
certamente me darão razão:
"Chove.
A
vidraça chora.
O
vento põe no parque um soluço de outono.
Range
uma porta e bate, e parece que implora
numa
voz de abandono.
Chove.
Dir-se-ia
que milhões de alfinetes acertam
nos
vidros frios
e
se espetam.
Chove.
A
vidraça chora.
O
céu esconde a última nesga azul, que existe,
sob
um manto cinzento e móvel.
Chove.
A
vida é triste.
---
que importa!
Ulule
o vento, bata a porta
e
tombe a chuva!
Que
importa!
Tenho
nos olhos um clarão que nada turva,
tenho
na vida um céu azul e imóvel;
tenho
na alma um jardim ondulante de palmas
balançado
em pleno anil por brisas calmas:
e
eu penso nela.
Chove...
---
a vida é bela!".
Lindo, concordam?! Melancolia... Dor de
cotovelo... Ternura... É poesia pura...
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
O norte de Minas está sem chuvas regulares há quase seis anos. Deve ser por isso que se ri mais e se produz menos em termos literários por aqui.
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