Negra Blumenau
* Por
Magali Moser
Esta boneca se chama
Quitana. Em novembro de 2007 eu e a repórter fotográfica Rafaela Martins a
conhecemos durante a produção da série de reportagens Negra Blumenau, sobre as
influências afrodescendentes na “loira Blumenau”, publicada no Jornal de Santa
Catarina no mesmo período. Ela morava com os pais na Rua Pedro Krauss Sênior,
conhecida como “Beco das Cabras”, no Vorstadt. Quitana perdeu a casa na
tragédia de 2008 e nosso último contato foi num abrigo, logo após a catástrofe.
Não sabemos do paradeiro dela, mas não esquecemos: Ela sonhava conhecer o mar.
Ontem à noite lembramos dela e de outras pessoas especiais e esquecidas pela
história oficial que encontramos no caminho durante este trabalho marcante. A
convite de Lenilso Silva, do Movimento Cisne Negro Blumenau, tivemos a honra de
participar com a exposição Negra Blumenau, da abertura das atividades do mês da
Consciência Negra na cidade. A exposição fica aberta a visitação pública até o
fim deste mês no Mausoléu Dr Blumenau. Abaixo, o texto da apresentação da
exposição.
Há uma outra Blumenau
além da marcada pelas raízes alemãs, de gente galega, pele e olhos claros. A
frase que serviu para abrir a série de reportagens Negra Blumenau, publicada em
2007, no Jornal de Santa Catarina, permanece com sentido inalterado.
Especialmente depois das tentativas de reforçar a identidade de algo que não pode
ser hegemônico, com campanhas como Blumenau: Alemanha Sem Passaporte e o Brasil
de Alma alemã. Localizada numa das regiões consideradas mais desenvolvidas do
Estado – o Vale do Itajaí, a cidade se tornou símbolo de “um Brasil que deu
certo”, associado frequentemente às tradições, cultura e traços europeus. É
como se fosse um fragmento da Alemanha no Brasil, a exemplo da maneira como
aparece citada em diferentes narrativas por diversos agentes na literatura,
publicidade, história oficial e na imprensa.
“É um outro país
dentro do Brasil”, dizem os turistas entusiasmados. “Trata-se da Europa
brasileira”, sustenta o discurso turístico. “Bem-vindos ao Vale Europeu”,
saúdam as placas indicativas às margens das rodovias. A pujança econômica,
assim como a força produtiva e a capacidade empreendedora da cidade também
aparecem em reforço a este discurso. A exaltação da germanidade em Blumenau
ganha força e visibilidade. Apaga e silencia os outros traços que ajudam a
formar a sua diversidade.
Negra Blumenau nasceu
de uma inquietação diante da maneira como a cidade é representada na imprensa.
A série de reportagens foi publicada de 20 a 24 de novembro por ocasião da
passagem do Dia da Consciência Negra. No trabalho, mostramos (eu e a fotógrafa
Rafaela Martins) que antes mesmo da chegada dos 17 imigrantes alemães à Foz do
Ribeirão da Velha, escravos africanos ocupavam a então colônia e foram
responsáveis pela construção dos primeiros pilares que deram origem à
estrutura.
A versão oficial sobre
a questão nos livros didáticos costuma esconder o espinhoso tema da escravidão
no Vale do Itajaí. Os historiadores Marlon Salomon e André Voigt apresentam uma
estatística de que em torno de 800 escravos viveram no Vale do Itajaí às
vésperas da abolição. A afirmação é baseada em documento produzido pela Junta
de Classificação de Escravos de Itajaí. Oficialmente Dr Blumenau era contra o
comércio de escravos na colônia, no entanto, em carta ele confessa a
contratação de três escravos incumbidos de iniciar os trabalhos na colônia.
Em 2007, quando
sugerimos um olhar sobre a condição do negro em Blumenau, uma reação
especialmente nos surpreendeu. Na redação, ouvimos o questionamento de um
colega jornalista: “Mas há negros em Blumenau?”. Não se tratava de uma
brincadeira de mau gosto. Ele realmente falava sério e deixava transparecer a
necessidade urgente de tratar o tema. Se houve resistências, as manifestações
de apoio e incentivo também vieram. De todas as partes. Até da Alemanha, de
onde nos escreveu uma leitora emocionada com o que viu. A série foi agraciada
com a Comenda Zumbi dos Palmares, pela Câmara de Vereadores de Blumenau. Quando
foi publicada, os negros somavam 17 mil em Blumenau. Sabemos que hoje o número
é superior.
O convite para
integrar com a série as atividades do mês da Consciência Negra nos honra, mas
também nos entristece. Sim. Saber que em oito anos não houve nenhuma outra
iniciativa que contemplasse com profundidade os negros na imprensa local é
motivo de tristeza e preocupação. Acreditamos que a imprensa tem um papel
fundamental não só na promoção da igualdade racial mas também no combate ao
racismo no Brasil.
(Texto publicado em 20
de novembro de 2015).
*
Jornalista
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