A austeridade deu a vitória ao Brexit
* Por
Bruno Lima Rocha
O resultado do
referendo do Reino Unido quanto à saída ou não da União Europeia (EU) trouxe à
tona tensões domésticas e continentais. Podemos afirmar que tal resultado, com
estreita margem de 52% pelo Brexit derrotando 48% dos britânicos optando por
permanecer, é uma conjunção de múltiplos fatores, mas que no âmbito político
doméstico marca um perigoso fortalecimento à direita do Partido Conservador.
Quando o primeiro-ministro demissionário, o conservador David Cameron, convoca
o plebiscito, seu gabinete trabalha com a equivocada estimativa de vitória da
permanência na EU, reforçando também suas condições de governabilidade. O
resultado foi justo o oposto.
A partir do final da
década de 70 do século 20, a começar pela Frente Nacional (NF), passando pelo
Partido Nacional Britânico (BNP) e reforçada essa identidade com os realistas
do Ulster (Irlanda do Norte), o sentimento xenófobo no Reino Unido vem sendo
reforçado à medida que esta sociedade vai ficando mais pluriétnica. Fazendo uma
campanha baseada no egoísmo econômico, o Partido pela Independência do Reino
Unido (Ukip) conseguiu galvanizar essas escolhas, também acumulando o
sentimento contra imigrantes comunitários, refugiados e a islamofobia.
A manipulação de
identidades das agrupações à direita dos conservadores foi ao encontro da crise
dos refugiados, da hegemonia geoeconômica alemã e o modelo de austeridade
imposto pelo ordoliberalismo alemão através das instituições da troica
europeia: Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário
Internacional. O líder do Ukip, Nigel Farage, explicitamente responsabiliza os
acordos de integração pela perda dos padrões de vida britânicos e defende a
reserva de mercado de trabalho para sua cidadania. Desta forma, aplica a
solução xenófoba para a crise imposta pela austeridade comandada pelo sistema
financeiro e corporações transnacionais, capturando o imaginário da força de
trabalho pouco qualificada. A EU paga o preço pela retirada de direitos sociais
e vê a direita xenófoba hegemonizar o discurso eurocético. Eis a chance da
fragmentação do bloco.
*
Jornalista e cientista político
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