O
que é a caverna de Platão? Pare de teimar em errar!
* Por
Paulo Ghiraldelli Jr.
O mito da caverna ou
alegoria da caverna não faz nenhum estudante aprender a teoria das formas de
Platão.
Platão mesmo disse:
filósofos vivem a filosofia, quem não é filósofo, e nunca será, que fique então
com um prêmio-consolação, uma alusão à vida do filósofo, ou seja, contente-se
com a conversa sobre a caverna. É isso que está na obra A República. Vários
professores se esquecem de que se trata de um recurso didático. (E pior ainda é
quando acham que Saramago entendeu o caso!)
Além desse problema,
há ainda outro. Alguns professores, não contentes com o fato da própria
alegoria já ser uma alegoria, querem “atualizá-la”. Fazendo isso, não raro,
induzem ainda mais a erros. Um dos casos mais frequentes é o de tornar a
alegoria da caverna um simples similar do que ocorre na TV. Isso até pode ser
feito, mas não como explicação do mito, e sim como uma construção a mais,
paralela. Uma construção a mais, e desnecessária.
A teoria das formas de
Platão diz que há um mundo inteligível, de essências existentes, e um mundo
sensível, claro, também existente. (1) Ou seja, ambos os mundos têm status
ontológico. Eles existem, e não dependem de nós, ainda que, para nominá-los,
utilizemos expressões que são atinentes a nós, ou seja, o que é atingido pelo
intelecto e o que é atingido pelos sentidos. Essa forma de falar não pode nos
enganar, não devemos agir de modo moderno e pressupor aí uma subjetividade, uma
instância humana, e então traduzir o mundo inteligível como sendo o dos
conceitos e o mundo sensível como sendo o do corpo. Platão não pensa assim. Ele
não trabalha com a noção de sujeito e muito menos com a noção de sujeito
acoplada ao homem como indivíduo. Aliás, essa uma das grandes diferenças entre
o pensamento antigo e o pensamento moderno. Como Sloterdijk diz: na modernidade
o homem passa a ser o indivíduo e este se imagina mais real que tudo que o
rodeia. Platão está fora disso (mais detalhes sobre a alma em Platão: Sócrates:
pensador e educador. São Paulo: Cortez, 2015).
Desse modo, quando
falamos da produção de imagens no fundo da caverna, ou da produção de imagens
na tela da TV, para simular o que é da ordem sensível e não da ordem
inteligível, caso não tenhamos explicado antes para o estudante que o problema
inicial não é o da ilusão ou, modernamente, o da ideologia, de nada adianta.
Caso ele absorva a narrativa, seja a da alegoria da caverna quanto a do exemplo
da TV, segundo um esquema em que há um homem individual que tem de resolver
coisas por meio só do intelecto que pensa conceitos em sua cabeça, e que este
homem é o que tem no olho do seu rosto, do seu corpo, a visão das coisas, então
tudo estará perdido. Platão, eu insisto, não trabalha no esquema moderno da
relação sujeito-objeto.
Mas o exemplo da TV é
pior que o exemplo da caverna. Platão ainda é o melhor didata de sua própria
filosofia. A caverna é do âmbito cósmico. Ela é, digamos, o mundo. Ninguém a
preparou para ser enganadora, ela apenas é como é. O mundo é como é. Além do
mais, os homens que carregam objetos cuja sombra é projetada na parede da
caverna não estão ali como homens enganadores, mas como elementos da própria
caverna, ou seja, dados cósmicos. Quando se substitui a caverna pela TV,
aparecem os produtores de imagens, ou seja, os homens da mídia, como os que
produzem “meras imagens” e, então, como intencionalmente enganadores. Não há
isso em Platão! Assim, o exemplo da TV joga para um tipo de teoria da
conspiração ou, no melhor dos casos, para uma teoria da ideologia, no sentido
moderno, o que também, não raro, induz a erro (não é lugar aqui de desenvolver
algo sobre ideologia, já feito em outros textos e livros).
Quando Platão dá
outros exemplos que não o da caverna, as coisas melhoram. Ele mostra um dedo e,
em seguida, mostra outro dedo e diz: o primeiro dedo é grande (tem uma
grandeza), o segundo dedo é grande (tem uma grandeza, com outro tamanho, mas é
uma grandeza), e então eu tenho dois “grandes”, mas cadê o terceiro? Cadê o
Grande, o grande que dá a origem (causa) e existência (sentido) ao grande que
está no primeiro dedo e ao grande que está no segundo dedo? Cadê o grande
não-sensível, e sim inteligível? Essa é a pergunta. O filósofo sabe onde o
Grande está. Sabe de seu mundo. O não-filósofo não sabe e nunca saberá. Então,
para ele ter a ideia do que é ficar só no grande sensível, se faz a alusão ao
que é ser enganado quando se fica só no sensível por meio do engano de quem
fica só nas imagens.
Essa é a ilusão
metafísica. Fica-se no grande dos dedos, e não se acha o Grande, o que está
entre os dedos, em algum lugar – tem que estar (!). Essa ilusão metafísica é
uma ilusão meta-física, para além da física. Na física, no sensível, temos a
grande de um dedo e de outro. Essa ilusão é da vida, do mundo, da condição da
Terra e do homem. Não uma ilusão perceptiva ou uma ilusão criada por outros
homens. Mesmo o filósofo, que adentra o mundo inteligível para contactar com o
Grande, ainda assim, uma vez vivo, está neste mundo aqui, onde o grande existe
(se manifesta) como grande de um dedo e grande de outro dedo.
Em Platão, ainda não
se fala o que irá se falar a partir de Aristóteles, do Grande como um
universal, como um conceito, e os “grandes” dos dedos como o objeto empírico do
conceito – os dedos grandes. Muito menos se estaria a falar, como também não é
o caso de Aristóteles, de um sujeito individual que detém conceitos e que vê
fora deles, para serem apanhados e conceituados, os objetos empíricos. Em
outras palavras: não é o homem que causa o erro metafísico, a ilusão
metafísica, ela é da condição da vida no cosmos, no mundo, não de uma exclusiva
condição humana. Errar não é humano – essa é a lição de Platão. Para o homem
comum, que não é filósofo, não há o que se preocupar, pensa Platão, ainda que,
para Sócrates, seria muito bom que cidadãos atenienses soubessem sim do que
estavam falando.
É mais fácil explicar
isso tudo por meio da alegoria da caverna que por meio da TV. Ainda que, cá
entre nós, em ambos os casos, não raro, ensinamos errado a Teoria da Formas.
Percebeu agora? Ou ainda não?
(1) Um terceiro é
apresentado no Timeu, que é khora, o elemento – receptáculo – de transição entre
o inteligível que é responsável pelo sensível.
PS 1: Algumas pessoas
me escrevem dizendo que às vezes falo de alguém, que está errando em filosofia,
e que depois não aponto o erro. Não é verdade. Aponto o erro e, não raro, dou
nomes aos bois. Só que não fico só fazendo isso na vida, tá? Então, se digo
algo como “fulano de tal está falando coisa errada”, ora, o leitor que
investigue. Nesse texto de hoje, mostro um erro comum de muitas pessoas que
falam na mídia, jornalistas, professores de filosofia etc. Agora, leitor, é com
você, tá? Trabalhe um pouco também. E não venha chorar no meu blog quando
descobre que o tal professor ou jornalista que você lê está fazendo coisa
errada. Chore sozinho, para você e por você. E então, após enxugar as lágrimas,
saia dessa, para de ler o errado porra!
*
Filósofo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário