Alô, telemarketing
* Por
Aleilton Fonseca
Tem cabimento uma
coisa dessas? A pessoa está em casa lendo seu jornal, ou assistindo à TV, ou
lavando os pratos, ou revendo o álbum de fotografia, ou apenas tirando um
cochilo, então o telefone toca. Ao atender, com a maior boa vontade, depara-se
com a voz impostada e a simpatia simulada da moça do telemarketing,
especializada no uso gratuito de gerúndios.
– Bom dia, eu poderia
estar falando com o Seu Fulano de Tal?
Se você é o Fulano de
Tal, basta proferir uma única palavra, e pronto! Está fisgado. Ela, com um
festivo tom de conversa, diz que o banco tal aprovou para você um mágico
cartão, com facilidades encantadoras, crédito pré-aprovado de alguns mil reais
e patati e patatá, etc e coisa e tal. E tenta completar assim o golpe de
sedução:
– O senhor vai poder
estar retirando um empréstimo de 5 mil reais...
Certa vez, alvejado
por essa artilharia pesada, contra-ataquei na hora.
– Moça, eu não preciso
de empréstimo. Ao contrário, posso até emprestar esse valor ou mais ao seu
banco, quer? – esnobei um pouco para ver se ela se tocava e desistia de “estar
me aporrinhando” tanto.
Ela não se tocou, ou
se fez de desentendida. Passou a discorrer sobre as maravilhas do cartão, dos
rentáveis fundos, do seguro, do fundo de aposentadoria. E enumerou diversas
formas de sequestrar o meu pobre dinheirinho da minha conta corrente.
– Basta o senhor estar
confirmando seus dados, e o cartão estará sendo enviado para o seu endereço
automaticamente...
– Não... não quero...,
não... não estou interessado...
– ... e o senhor poderá
estar dispondo de nosso atendimento especial em sua casa...
– Não, não estou
interessado... – eu insistia, mas ela parecia surda.
– ... vou estar
agendando uma visita do nosso consultor para...
– Não, senhora! – e
desliguei o telefone, sufocado com a insuportável saraivada de gerúndios.
Um amigo desenvolveu
uma boa tática para se livrar desse famigerado tele-assédio. Ele atende, diz
que vai chamar a pessoa interessada, larga o telefone na mesa, e deixa o tempo
passar até que a moça desista e interrompa a ligação. O problema é que voltam a
ligar algum tempo depois.
Para meu espanto, a
minha mulher desenvolveu uma forma engenhosa e infalível de se desvencilhar da
insuportável matraca gerundiva. Toda vez que a moça pergunta pela dona da casa,
ela assume uma voz de diarista distraída e vai logo explicando:
– A patroa tá
viajando, tou aqui só fazendo a faxina; deseja estar deixando um recado?
_________________
Do livro “A mulher dos
sonhos & outras histórias de humor”, Itabuna: Via Litterarum, 2010.
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Aleilton Fonseca é escritor, Doutor em Letras (USP), professor titular pleno da
Universidade Estadual de Feira de Santana, membro da Academia de Letras da
Bahia, da UBE-SP e do PEN Clube do Brasil.
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