Pílulas literárias 234
* Por
Eduardo Oliveira Freire
MONSTRO
Quando era muito
criança via um monstro em cima de sua mãe e ela gemia bastante. Parecia que
sentia muita dor. Ele ficava apavorado, mas voltava para o quarto rezando para
que o pai voltasse logo do trabalho. Ao amanhecer, corria para ver a mãe e se
aliviava de ver os pais dormindo abraçados na cama. Subia e ficava entre eles. Alguns
anos depois, já adolescente, transou pela primeira vez com a namorada e, no
auge do gozo, compreendeu que o monstro que afligia a mãe era o pai, na
verdade.
BALA PERDIDA
A vidraça da janela é
estilhaçada e a bala atinge a jovem que está no quadro. Seu amante fica
transtornado ao ver sua amada agonizando. No dia seguinte os jornais dão a
seguinte notícia: “Homem desesperado corre por todos os hospitais com um quadro
atingido por projétil de arma de fogo, alegando que a mulher da pintura está
correndo risco de morte”. A suposta cabeça da modelo é do quadro “A Origem do
Mundo” de Courbet.
IMAGINAVA-SE...
... ser um assassino
implacável. Mas, quando viu o vizinho esfaqueado, percebeu que lhe bastava
matar pessoas inventadas.
EMOÇÃO DESNUDA
Mesmo que a bailarina
esteja embaçada por causa de sua memória em degeneração, ainda consegue se
emocionar com seu bailar. Perguntam por qual motivo chora, mas não consegue
vestir a emoção com as palavras para explicar.
MOMENTO DECEPÇÃO
Fiquei inspirado em
escrever um conto e usei toda minha criatividade para torná-lo original.
Terminado, publiquei-o no blog e no face, todo prosa, por ter escrito uma
história com um final surpreendente. Porém, horas depois, descobri que
desenvolvi um conto muito parecido recentemente.
É foda as armadilhas
da memória! Quis deletar um a princípio, aí, pensei melhor e resolvi deixar os
dois. Para quê esta ânsia artística de originalidade ou conquistar valor
artístico no que escrevo? Tudo bem que desejo ser escritor, mas, ficar obcecado
pelo prestígio, deixarei de curtir de escrever despretensiosamente pela busca
da minha forma de me expressar.
Já escrevi tanta
besteira que me envergonho. Na época, achava que produzi verdadeiras
obras-primas. Entretanto, valeu em escrever estes textos sem valor literário.
Compreendi que preciso ler e escrever mais, nada é fácil nesta vida.
Inclusive, descobri
que escrever me liberta, pois, leva-me aos recantos da imaginação e do
inconsciente. Se parar para pensar, foi um ganho enorme para mim, mesmo que
nunca seja um escritor renomado ou um integrante na Academia Brasileira de
Letras.
***
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Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante
a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/
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