O casamento do autista
* Por
Gustavo do Carmo
Os pais de Ian
descobriram o seu autismo quando ele tinha doze anos. Pouco depois do quinto
aniversário do menino, seus pais começaram a desconfiar da sua especialidade ao
saberem que, no jardim de infância, meses depois de entrar, ele ainda não tinha
feito nenhum amiguinho.
Ficava quieto no
parquinho, sem falar com ninguém. Brincava com um relógio digital, daqueles com
cronômetro. Se entretia tentando cravar os milésimos no 000. Não olhava para os
colegas, nem para a professora, e
ainda agredia quem tocasse nele, não importando se fosse colega, funcionário da
escola ou professor, ficando de castigo algumas vezes.
O único que conseguiu
ser seu amigo foi Roberto. Este o abordou oferecendo-lhe metade do seu lanche
na hora do recreio. Ian fitou o sanduíche por mais de um minuto e comeu. Mas se
recusou a brincar com ele nos brinquedos da escola. No dia seguinte, Roberto
fez o mesmo gesto. Ian voltou a olhar para o biscoito e comeu. Desta vez, o
amigo perguntou de que ele estava brincando. Ian respondeu:
— Não sei.
Roberto pediu para ver
o cronômetro e Ian o empurrou. O amigo foi embora chorando. Mas voltou no dia
seguinte, com um cronômetro parecido. Ele se aproximou do colega e disse:
— É de zerar o
cronômetro a sua brincadeira? Trouxe um para brincar também. Vamos brincar?
Ian não respondeu. Roberto
continuou brincando na dele, ao lado de Ian, que permanecia em seu mundo.
Roberto dizia:
—Ah, perdi. Você
ganhou.
Ian enfim olhou para o
colega, sorriu e mostrou o seu cronômetro, que estava zerado nos milésimos. Os
dois passaram a brincar juntos no mesmo cronômetro de Ian, que zerou todas as
dez rodadas que fizeram. Roberto só zerou uma vez.
Mesmo com a amizade de
Roberto e com alguns coleguinhas rindo dele, mas sem agredir, Ian continuou na
escola. Os pais acharam que o seu problema fosse apenas timidez. Até que ele chegou
aos 12 anos, quando os pais, percebendo o seu comportamento ainda pré-escolar, finalmente
decidiram levá-lo ao psicólogo que identificou o autismo.
Aliás, uma psicóloga,
que era eu, Doutora Miriam. Tratei do Ian dos seus doze aos vinte e dois anos.
Durante esse período ele continuou estudando. E o incentivei, inclusive a se
defender dos colegas que praticavam bullying
contra ele. Claro que eu também tentei ensiná-lo a conviver com outras
pessoas. Roberto já tinha se afastado dele. Foi morar com os pais transferidos
para Porto Alegre quando estava na quarta série.
Também dei o maior
apoio para ele fazer uma faculdade. Ian tinha uma inteligência acima do normal.
Passou em primeiro lugar para a faculdade de ciências da computação.
Não sofria tanto bullying quanto na escola, mas era ridicularizado pelas costas.
Abandonou a faculdade mesmo com os meus apelos para continuar. Não aguentava
mais ser esnobado pelos colegas e também por alguns professores arrogantes. O
pai tentou colocá-lo para trabalhar na loja de autopeças da família, mas ele
não se adaptou. Fazia escândalos e assustava os clientes. Eu o consolei dando o
meu amor para ele. Nos apaixonamos e nos “casamos”.
Fomos vítimas de
discriminação. Não só por eu ser dez anos mais velha do que ele, mas pelo seu
comportamento. Para começar precisei me afastar da psicologia.
Das pessoas, o meu primeiro
marido ficou debochando do meu novo amor, me chamando de samaritana e fada
madrinha sexual de “deficientes”. Sofria com o machismo e os ciúmes do meu
ex-marido. Mesmo assim, fui traída, trocada por outra mulher mais gostosa. Ele,
que é advogado, chegou a me denunciar para o conselho, mas viu que eu já tinha
largado a profissão antes.
Meus pais também foram
contra, achando que eu merecia alguém “normal”. Segundo eles, não é porque eu
sou psicóloga que tenho a obrigação de me casar com os meus pacientes. Aliás,
eu nem mereceria abdicar da minha carreira por ele.
A maioria dos meus
amigos se afastou de mim e passou me boicotar, não me convidando para festas e
reuniões em restaurantes, principalmente depois que um deles - que estava na
fila para me namorar após a minha separação - ofendeu o Ian, que fez um escândalo.
Só uma amiga, que me arrumou um emprego burocrático em uma empresa de RH, me
apoiou, embora tenha me alertado que um autista também é capaz de trair. E eu
sabia disso.
Da família do Ian só
tive apoio do pai dele e dos primos. A mãe me acusou de sedução de incapaz. Chegou
até a me denunciar à polícia e fui presa e indiciada. Enfrentei processo. Mas
fui absolvida. O juiz acreditou no nosso amor com base no meu depoimento e no
meu gesto de abdicar da minha profissão. A irmã envenenava-o contra mim, insinuando
que eu não demoraria a traí-lo.
Depois de absolvida, decidimos
nos casar na igreja onde ele foi batizado, na Tijuca. Não nos casamos no papel
porque é proibido. A mãe e a irmã aceitaram a contragosto e depois até tentaram
ser minhas amigas. Choraram compulsivamente no altar. Meus pais não apareceram
no meu segundo casamento. Já o Roberto, amigo de infância dele, estava lá,
recém-formado em direito.
Eu entrei na igreja
vestida com um tomara-que-caia azul (a cor preferida de Ian), bem decotado e com
uma cauda de três metros. Ian estava vestido de fraque branco, brincando com o
seu cronômetro no altar enquanto me esperava. Não fizemos festa. Ele não suporta
barulho e muita gente reunida. Aliás, nem fizemos a fila para os cumprimentos
(que ele também odiava). Acabou a cerimônia e fomos direto para a minha casa no
Leblon, onde eu continuei morando depois que eu fui abandonada pelo Marcos, meu
ex-marido. A mãe dele foi morar conosco para supervisionar o Ian. Caminhamos
até o carro sem latas penduradas no para-choque, dirigido por seu pai. Também
não houve chuva de arroz.
A nossa primeira vez
foi na noite de núpcias. Fiquei nua na frente dele pela primeira vez. Ele
também estava nu. Tocou no meu seio esquerdo, de tamanho médio, e tirou
rapidamente a mão. Ele quase fugiu do
quarto, mas eu o segurei a tempo pelo seu braço. Beijei a sua boca com carinho
e cuidado. Ele concordou e voltou a tocar no meu seio, desta vez, o direito. E
apertou forte e doeu. Em seguida ele os beijou e chupou. Depois tocou no meu
sexo peludo. Bem, chega de detalhes eróticos. Transamos, enfim.
Engravidei de
primeira. Passaram-se nove meses e dei à luz Camila, nossa primeira filha, que
nasceu e cresceu sem problemas. Ian não assistiu ao meu parto normal. Tinha
medo de sangue. Tinha medo de hospital. Esperou na casa dos pais. Foi linda a
cena em que ele pegou na filha pela primeira vez. Parecia uma criança segurando
o irmãozinho recém-nascido.
Só não foi lindo o que
ele fez comigo depois. Passado o nascimento da Camila, estava incomodada com o
pouco interesse sexual dele. Tentava seduzi-lo, mas ele não se interessava.
Tinha medo de cobrá-lo. Quase procurei o Fábio, aquele cara que arrumou
confusão com o Ian no barzinho, para sair. Fui traída primeiro.
Ian já tinha vinte e seis
anos quando conheceu Adriana. Ela era filha de uma ex-colega de ensino médio,
que soube que eu casei com um autista e ficou curiosa. Adriana também era e fazia
o mesmo tratamento do Ian desde os doze anos. Já estava com dezoito. A culpa
foi minha de ter apresentado o Ian a elas. Os dois se deram tão bem que eu não
imaginava que chegaria ao ponto que chegou.
Um dia, achei perto da
porta do consultório, aparentemente passado por baixo dela, um bilhete anônimo,
que dizia com letra impressa em computador e em caixa alta: SEU MARIDO ESTÁ TE
TRAINDO. Achei uma piada de muito mau gosto. Queria saber se foi o Marcos ou o
Fábio. Como pode eu estar sendo traída por um homem autista? Me lembrei do
alerta da Geiza, aquela amiga que apoiou o nosso romance, mas me avisou de uma
possível traição.
Ignorei. Não deu nem tempo
para pensar em investigar. Cheguei em casa, encontrei a minha sogra brincando
com a Camilinha, e ela logo me disse que o Ian estava desde cedo trancado no
quarto com uma moça com comportamento igual ao dele. A pista da Dona Jurema foi
certeira como os cronômetros que ele cravava. Era Adriana quem estava com o meu
marido.
Corri até o quarto,
bati na porta educadamente e não fui atendida. Bati mais forte e novo silêncio.
Ouvi gemidos e gritos, tanto dele quanto dela. Arrombei a porta e flagrei Ian
em cima da minha paciente. Os dois nus. Dei um grito.
— IAN E ADRIANA! O QUE
SIGNIFICA ISSO???
Adriana gritou e
chorou. Dona Jurema correu para socorrê-la e acalmá-la. Fui embora. Ian foi
atrás de mim, ainda sem roupas, e disse na minha cara, nu no hall do prédio,
que não me amava mais. Que eu era muito normal para ele, que ele tinha
encontrado a mulher ideal e queria se casar com Adriana. Fiquei arrasada.
Nos separamos. Deixei
a Camila com a avó e a tia, pois o pai não tinha condições de criá-la e eu não
queria esquentar a cabeça com briga de guarda.
Me casei com o Fábio,
que é rico. Mesmo assim, voltei para a psicologia. Passei a me dedicar aos
idosos, especialmente mulheres, para não me envolver com os meus pacientes, não
ter que abdicar da minha profissão e nem ser traída.
Ian foi morar com
Adriana. Tiveram uma filha sem problemas como Camila, que batizaram de Daniella.
O meu filho com Fábio cresceu com autismo. Senti saudades do meu ex-marido
especial.
Traí o Fábio e perdoei
Ian, que também havia sido abandonado por Adriana, que foi morar com o seu
terapeuta (este também abandonou a profissão) e levou Daniella.
Voltamos a morar
juntos com a nossa filha Camila e o meu filho Giovanni. Dona Jurema e Iara, a
irmã, não se opuseram a perder a guarda da neta e sobrinha para o próprio irmão.
Afinal, ela sabia que a traição tinha partido dele. E Fábio também não se
importou que eu levasse Giovanni, pois não tinha gostado de gerar um filho
autista.
Eu, Ian, Camila e
Rafael passamos a viver como uma família feliz, brincando de zerar o cronômetro
todos os dias. Ao mesmo tempo, estava me sentindo vingada pelo chifre que o Ian
levou da Adriana.
Este conto não teve a
intenção de ofender, debochar e nem rotular os portadores de autismo, pelos
quais eu tenho sincero respeito.
*
Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance
“Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea
“Indecisos - Entre outros contos”.
Bookess -
http://www.bookess.com/read/4103-indecisos-entre-outros-contos/ e
PerSe
-http://www.perse.com.br/novoprojetoperse/WF2_BookDetails.aspx?filesFolder=N1383616386310
Seu blog, “Tudo cultural” -
www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores
O comportamento estereotipado é comum, mas o espectro autista tem dez gradações/graus. Alguns nem conseguem falar e outros conseguem ser gênios no que fazem, por exemplo Leonel Messi, que é autista leve.
ResponderExcluirEu desconfio que tenho autismo. Tenho meus mundos, dificuldade de relacionamento e dificuldade para amadurecer. Posso até estar num segundo ou terceiro nível de autismo leve.
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