O
repórter porta-voz da polícia, na ombudsman da Folha neste domingo
* Por
Urariano Mota
“A inocência na linha
de tiro
Ítalo, 10, morreu após
ser atingido por um tiro dado por um policial militar que perseguia o carro
roubado, que dirigia, ao lado de um amigo de 11 anos. A tragédia foi noticiada
na Folha em chamada de duas colunas na Primeira Página (4/06).
Junto de dois
adolescentes, de 13 e 14 anos, Waldik, 11, estava no banco de trás de um
Chevette quando foi atingido na nuca e morreu. A bala saiu do revólver de um
guarda-civil que perseguia carro com suspeitos de um assalto. O crime foi
manchete de segunda (27/06). Opção rara em um jornal que prefere destacar
notícias das áreas política e econômica.
Em comum, eram
crianças que tiveram destino trágico após operações policiais de técnica, no
mínimo, questionável. Em ambos os casos, os relatos jornalísticos se
alimentaram de informações fornecidas basicamente pela polícia.
Destino semelhante
teve o adolescente Robert, 15, morto por PMs um dia antes, também acusado de
roubar um carro. Seu caso não chegou à Primeira Página. Sua morte demorou três
dias para ser publicada no jornal, narrada no pé de uma página do caderno
Cotidiano (29.06).
Dias depois, o
universitário Júlio César, 24, morreu após ser baleado na cabeça e o carro
dirigido por ele ser atingido por ao menos 16 tiros durante perseguição
policial, na zona leste de São Paulo. Não teria respeitado um bloqueio,
conforme a PM. Sua morte foi registrada em pequena chamada na Primeira Página.
São casos de dinâmica
parecida e lamentável. Tiveram tratamento diferenciando pelo jornal. Com
certeza, não foram as únicas vítimas jovens de violência no mês de junho.
Estudo apontou que 29 crianças e adolescentes são assassinados no país a cada
dia. Por que e quando elas deveriam ser noticiadas pela Folha e com que
destaque?
Para a primeira parte
da pergunta, a resposta é sempre. O país não deve permitir que o assassinato
seja banalizado, em especial o de crianças e adolescentes. Quanto ao destaque,
cada caso é um caso, mas é importante buscar um padrão.
Qualquer cobertura de
crime que envolva crianças, adolescentes e jovens exige cuidados especiais e
atenção redobrada dos jornalistas. Em dois sentidos particularmente: em como
tratar e proteger a criança de informações constrangedoras e como lidar com as
informações fornecidas por uma criança sobre eventos criminosos que
testemunhou.
Relatos policiais
devem ser noticiados com distanciamento crítico e sua conduta comparada a
padrões técnicos de segurança.
O jornal precisa
buscar as informações técnicas que comprovem ou refutem os relatos sejam das
crianças, sejam dos policiais. Para ficar no básico: a cena do crime foi
mantida intacta? Os depoimentos coincidem ou colidem com as informações
recolhidas pela perícia? É preciso que as reportagens de tais casos saiam do
disse-me-disse e busquem as provas técnicas.
A Folha teve
desempenho irregular nos casos aqui citados.
Para muitos leitores,
a Folha sempre é a favor das vítimas e contra a polícia. "O jornal na sua
parcialidade só levou em conta o lado da pessoa que cometeu crime", disse
um leitor. "Pretende fazer crer aos leitores que a PM executou uma criança
inocente e indefesa?", questionou outro.
É fato que a Folha deu
pouco espaço para a defesa dos agentes de segurança dos crimes acima. Em 30/06,
levou um furo do jornal "O Estado de S. Paulo", que trouxe entrevista
com o guarda municipal acusado de dar o tiro no garoto Waldik.
O jornal não deve
julgar, nem deve agir como aliado da polícia ou como entidade protetora dos
fracos e oprimidos. Sua obrigação com o leitor é relatar o mais detalhadamente
possível os fatos, destacar as incoerências e inconsistências de versões, fazer
apurações próprias e não se limitar ao relato parcial da polícia.
Na investigação e no
relato da linha de tiro da polícia, não pode haver inocência jornalística.
Infrator ou em
conflito com a lei?
Reportagem da semana
passada informava que "2 em cada 3 menores infratores não têm o pai dentro
de casa". O uso da expressão "menores infratores" foi
questionado pelo pesquisador Thiago Oliveira, do Núcleo de Estudos da Violência
da USP. Propôs como alternativa usar "adolescentes em conflito com a
lei". Pouco jornalístico.
O Manual da Redação
sugere evitar o termo "menor", em benefício de vocábulos mais
precisos, como "criança" ou "adolescente". O secretário de
Redação Vinicius Mota não vê problema no uso do adjetivo "infrator"
para descrever adolescente que cometeu, nos termos da lei e segundo os trâmites
da Justiça, uma infração.
A meu ver, o problema
é que, por vezes, usa-se o termo, sem a comprovação da infração”.
Do artigo da
ombudsman, destaco os trechos: :
“Em comum, eram
crianças que tiveram destino trágico após operações policiais de técnica, no
mínimo, questionável. Em ambos os casos, os relatos jornalísticos se
alimentaram de informações fornecidas basicamente pela polícia....
Relatos policiais
devem ser noticiados com distanciamento crítico e sua conduta comparada a
padrões técnicos de segurança.
O jornal precisa
buscar as informações técnicas que comprovem ou refutem os relatos sejam das
crianças, sejam dos policiais. Para ficar no básico: a cena do crime foi
mantida intacta? Os depoimentos coincidem ou colidem com as informações
recolhidas pela perícia? É preciso que as reportagens de tais casos saiam do
disse-me-disse e busquem as provas técnicas. ...
O jornal não deve
julgar, nem deve agir como aliado da polícia ou como entidade protetora dos
fracos e oprimidos. Sua obrigação com o leitor é relatar o mais detalhadamente
possível os fatos, destacar as incoerências e inconsistências de versões, fazer
apurações próprias e não se limitar ao relato parcial da polícia”.
Louve-se a admissão de
que a reportagem virou porta-voz da polícia, como publicamos no sábado, no
Diário de Pernambuco
http://www.impresso.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/cadernos/opiniao/2016/07/02/interna_opiniao,148699/o-reporter-como-porta-voz.shtml e republiquei no Luis Nassif Online
http://jornalggn.com.br/blog/urariano-mota/o-reporter-como-porta-voz-da-policia-por-urariano-mota
. Antes, portanto, da crítica, no texto
mea-culpa da ombudsman.
Mas é claro que para a
indignação diante de crimes contra a pessoa humana, noticiados segundo a versão da polícia, é preciso mais,
muito mais. Não nos bastam, como leitores ou jornalistas, as “provas técnicas”
dos crimes. Elas se plantam e se falsificam
também, todos sabemos. O relato isento, da denúncia do terror, seria a
entrevista com testemunhas e parentes, passando por uma investigação sem
trégua, insaciável, dos antecedentes e momentos do crime, que alcançasse até a
pré-história dos policiais criminosos.
Será que depois de “O
inferno de Treblinka”, de Vassili Grossman, os repórteres, escritores,
jornalistas, homens, enfim, não aprenderam que ouvir os relatos dos
sobreviventes a esses crimes é fundamental, para não dizer a totalidade, da
recuperação e denúncia desses assassinatos? Para quem não conhece a grande
reportagem de Vassili Grossman, copio este depoimento:
“Um veterano de
Stalingrado certa vez testemunhou Vassili fazendo um pelotão inteiro – até o
último homem – entabular uma conversa geral. Muitas vezes o vi conversando com
jardineiros, ou escutando com atenção uma mulherzinha que todo mundo
desprezava. Vassili Grossman tinha um dom notável para ouvir, e um dom não
menor para evocar – mesmo no espaço de poucas linhas – a singularidade de uma
vida individual. Ele estava sempre interessado na vida da pessoa como um todo,
não apenas em suas experiências de guerra. Essa pode ter sido uma das razões
para gente que de outra forma era inarticulada estar sempre muito disposta a
falar com ele”.
Ouvir, escutar as
vítimas e todos que as circundam. Amar as pessoas iguais a nós mesmos, que
sofreram com a perda e estiveram sob o impacto dos crimes, essa é a lição de
Vassili Grossman. E nesse particular sentido a ombudsman, técnica, fala que não
devemos ser “entidade protetora dos
fracos e oprimidos”. Mas há um imperativo ético que nos leva a tomar a defesa
dos oprimidos, embora mas isso ela ainda não alcance. Quem não chegou a ouvir,
ler “O inferno de Treblinka”, não entende a fraternidade que deve existir entre
todos os homens.
Por outro lado, ou do
mesmo lado, sei que seguir esse exemplo de Vassili Grossman é uma exigência
muito alta para a maioria dos jornalistas. Mas devemos, público leitor, exigir
mais que o publicado por todo repórter
porta-voz da polícia. Quando nada, se nos faltar a empatia ou
solidariedade para com as vítimas, pelo menos pensemos na defesa da nossa
própria, insubstituível e única pele. Sejamos todos egoístas, portanto. Temos
que denunciar os crimes, possuir algo semelhante à humanidade para com as
vítimas dos tiros da barbárie, porque os próximos serão, quem sabe?
*
Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da
redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações
Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho
renegado de Deus” e “Dicionário amoroso de Recife”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao
ensino em colégios brasileiros.
Louváveis, ombudsman com ressalvas e você, Urariano. Lendo e crescendo.
ResponderExcluir