“O celular ou a vida!”
* Por
Mara Narciso
Tempos bons em que se
perdia a bolsa e se ficava com a vida. Logo em seguida a polícia chegava e
dizia ao bandido: Teje preso! Como quase todos portam algum bem, os criminosos
estão mais ousados. Dificilmente encontrarão alguém sem nada que possam tirar.
Pessoa com míseros trocados do ônibus é coisa do passado. O celular é portado
com maior assiduidade do que a carteira de identidade. Então, vamos à luta! E,
preferencialmente, sem luta.
Mesmo antes de a
dentista ser queimada em seu consultório por ter na conta apenas R$30,00, e do
rapaz que, ao chegar à porta de casa, entregar o celular passivamente, e, ainda
assim receber um tiro na cabeça, à vista de todos, que é preciso ter algo para
oferecer, uma espécie de pedágio. Motoristas ou pilotos de moto levam algum
dinheiro para acalmar os meliantes, e não podem titubear e nem manifestar
gestos bruscos ou insegurança. Levam tiro, corte de caco de vidro ou faca ou
ácido no rosto. A lei é severa.
Na semana passada dois
casos de roubo de celular seguido de tiro, mais uma vez alertaram para o perigo
de portar e como também de não portar o que os ladrões querem. Um rapaz entrou
em luta corporal com um malfeitor que lhe surrupiou o celular em via pública do
seu bairro. Inconformado, correu atrás, e perdeu feio, pois levou um tiro no
tórax. Na mesma ocasião, uma mulher recebeu um tiro de raspão no abdome,
quando, após sua filha entregar o aparelho, ela irritou o criminoso ao afirmar
que não tinha o que ele queria.
Ainda que o apego ao
celular seja um afeto relativamente recente, é fácil explicá-lo. Dentro dele
estão a vida social, fraternal, afetiva, profissional e coisas que valem muito,
mas, por óbvio, a vida vale mais. A crueldade anda em alta, de tal forma, que
quem rouba não quer levar apenas um bem material, quer humilhar, carregar a
dignidade, arrancar tudo, inclusive o direito de viver.
A perda do celular é
como perder um cachorro de estimação. A pessoa toma um susto ao ver subtraído o
seu precioso bem, do qual não consegue se desgrudar, nem mesmo para tomar
banho. Fica sem ação, apalermado, um bobo completo. Depois das considerações
iniciais da perda do objeto, vem a questão afetiva, e a sensação de abandono.
Todo o histórico está lá, fotos, contatos, segredos. A substituição imediata
não resolve o problema, assim como outro cachorro da mesma raça não substitui o
anterior.
Celular que cai na
água ou é roubado leva a uma sensação igual. O vácuo vai pouco a pouco tomando
assento e as coisas voltam ao normal. Segredo, senha, dados fechados, bloqueio,
impedimento de credenciar nova conta para aquele aparelho que tem uma numeração
única, como o chassi de um carro, não parece intimidar e nem impedir a sanha
por esse objeto de desejo. O que fazer? Sentar e chorar, e depois chamar a
polícia. Alguns tentam contato com receptadores e, como não adianta nada,
compram outro celular para começar tudo de novo. Até o próximo ataque. Pelo
andamento dos hábitos, é melhor ter algo para entregar a quem exige, tem
pressa, está alterado, possivelmente sob efeito de drogas, em situação limite e
tem uma arma, química, branca ou de fogo. Não é um engano. Isso é um assalto!
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Texto exemplar. Claro, correto, cristalino e, sobretudo, verdadeiro. É um modelo para quem queira escrever bem. Parabéns, MARA!!!!!!
ResponderExcluirTexto exemplar. Claro, correto, cristalino e, sobretudo, verdadeiro. É um modelo para quem queira escrever bem. Parabéns, MARA!!!!!!
ResponderExcluirAgradeço a força de sempre, Pedro. Além do espaço e do incentivo, outro elogio. Boa noite!
ResponderExcluirTenho sérias ressalvas no uso, e na dependência que se tem dessa coisa. Sei que estou na contramão de tudo e todos, mas moro em frente de uma antena de celular desde 1999 e não sei (nem ninguém sabe) o que essa trolha pode fazer de mim no longo prazo. O protagonismo desses pequenos retângulos em nossas vidas me dá medo.
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