A
Amazônia que os portugueses rebelaram
* Por
José Ribamar Bessa Freire
Uma foto e um livro. A
foto recente de uma paulista de Sorocaba, de 15 anos, com uma criança indígena
no colo diante de uma casa de palha em Manaus, gerou enorme polêmica e mais de
mil comentários nas redes sociais com xingamentos, insultos e vitupérios. O
livro é do historiador amazonense Arthur Reis. Ambos foram mencionados nesta
quinta-feira (28), na palestra sobre os Direitos dos Povos Indígenas que
ministrei na Escola da Magistratura do Rio de Janeiro (EMERJ) a convite do
desembargador Sérgio Verani, presidente do Forum de Direitos Humanos.
A foto
De passagem por
Manaus, Vitória Caroline, a jovem paulista, se deixou fotografar, sorridente
com a criança indígena. As duas são lindas. Mas centenas de internautas
manauaras se sentiram ofendidos e ultrajados. Dispararam preconceitos.
"Nasci em Manaus e nunca vi um índio. Aqui não tem mato nem índio, como
pensam os paulistas" - alguém postou. "Ninguém é índio. Nós somos
civilizados" - escreveu outro. Um tal de Wendell Linno - um nome
genuinamente amazônico encharcado de pororoca - exibiu fotos do Teatro Amazonas
dizendo: "Isso sim, é Manaus".
A banca de tacacá na praça não aparece.
No festival de boçalidade
e desinformação, a paulista foi verbalmente agredida, chamada de
"doida" e de "mentirosa". Felizmente houve quem
discordasse, foram poucos, mas o suficiente para mostrar que existem índios e
vida inteligente em Manaus. Lembraram que o Censo do IBGE de 2000 encontrou em
Manaus 7.894 pessoas que se autodeclararam índios, número que em 2010 caiu para
3.776, embora o CIMI e a COIAB estimem em mais de 20.000.
Além disso, a Amazônia
está indelevelmente marcada pelas culturas indígenas, o que deve ser motivo de
júbilo, da mesma forma que a contribuição de africanos, portugueses, sirios,
libaneses. Se é assim, se cada amazonense esconde um índio no seu jeitão de ser
e de falar, por que a presença de indígenas na cidade ofende tantos manauaras,
inclusive aqueles que mergulham nas cuias de tacacá cuja origem
desconhecem? É aqui que entra o livro, a
escola, a mídia.
O maior historiador da
Amazônia, Arthur Reis (1906-1993), ex-governador na ditadura militar e que
conhecia bem a documentação nos arquivos, escreveu entre outros "A
Amazônia que os portugueses revelaram". Ali, construiu uma imagem que
permite explicar as razões de amazonenses se sentirem ofendidos com a menção
aos índios como matriz formadora da identidade regional. É que ele elogia os
colonizadores e atribui ao "gênio geopolítico militar" a construção
na região de fortalezas destinadas a escravizar e a exterminar os índios que
simplesmente são apagados da nossa história.
A portugalização da
Amazônia, que não foi concluída no período colonial, é exaltada nesse e em
outros livros. E isto porque os historiadores tradicionais da Amazônia não
enxergam o índio no seu horizonte e invisibilizaram os índios para as atuais
gerações. Olham a região com olhar do ocupante luso. Arthur Reis, quando se
refere à disputa entre espanhóis e portugueses no Solimões (1709-1710),
escreve:
- "No primeiro
choque, os espanhóis foram derrotados. Na segunda fase, perdemos a
partida".
Perdemos quem, cara
pálida? A partida que o historiador considera perdida na primeira pessoa do
plural - se os portugueses perderam ontem, fomos nós que perdemos hoje - foi a
derrota dos portugueses em 1710. Mas quando são os índios que perdem, é "a
vitória da civilização". Em vez de se preocupar com a Amazônia indígena
que os portugueses rebelaram, Reis faz uma apologia acrítica do colonizador,
silencia sobre a resistência e as lutas indígenas e sugere uma confraternização
de raças.
Na versão do
ex-governador, A Amazônia que os portugueses revelaram não contempla a Amazônia
rebelada. Centenas de rebeliões indígenas registradas na tese de doutorado de
David Sweet, defendida em 1974 na Universidade de Wisconsin-Madison,
desaparecem da obra de Reis, como a banca de tacacá em frente ao Teatro
Amazonas. Mais de duzentos índios, cada um com seu nome, que lideraram a
resistência no período de 1616 a 1750, não figuram nos livros didáticos, não têm
monumento nas praças, não aparecem na mídia, não são nome de rua, com exceção
de Ajuricaba,que foi folclorizado pelo Poder.
Uma casa portuguesa,
com certeza?
Um dos exemplos mais
caricaturescos da tese da confraternização de raças é o discípulo de A. Reis,
Leandro Tocantins (1919-2004), para quem a prova de que os portugueses não
discriminavam os índios foi "o intercurso sexual entre o português e a
índia amazônica, em que o instinto femeeiro do branco, o seu sadismo, unidos ao
masoquismo por assim dizer da mulher indígena, concorreram para o progresso da
mescla".
Num desrespeito aos
povos indígenas, à mulher indígena e aos próprios documentos, Leandro Tocantins
afirma que "todos os cronistas observaram a índia doida por um corpo de
homem branco para se esfregar, preferência a que, em geral, os sociólogos
emprestam motivos priápicos". Ele fala em "todos os cronistas",
mas não indica nenhum, cita apenas seu outro mestre Gilberto Freyre para
testemunhar sobre a "excessiva sexualidade dos portugueses como atrativo
para as mulheres indígenas".
O historiador Ruggiero
Romano, já falecido, liquidou esta corrente com um golpe mortal. Para Romano,
esta história de confraternização de raças esconde o fato de que os colonos
vinham quase sempre sem suas mulheres e transformaram o estupro de índias numa
prática corriqueira. "Fornicação generalizada sim - diz Romano - mas
quanto ao resto formação de uma sociedade fortemente fechada na qual os
preconceitos raciais criam discriminações de ordem social e econômica".
Com relação a Leandro
Tocantins, José Honório Rodrigues questiona a seriedade de seu trabalho e o
critica de forma enfática, mostrando como está cego pelo compromisso com o
colonizador. A falta de rigor e a subserviência da historiografia tradicional
coloca aos pesquisadores de História da Amazônia a necessidade de proceder
revisão total de tudo o que foi escrito até hoje para ir arquitetando e
construindo uma história mais objetiva da Amazônia, seguindo caminho sugerido
por Severiano Porto em seu artigo "As artes visuais na Amazônia:
Arquitetura de morar".
Lá, o arquiteto
registra a sabedoria dos índios na arte de construir e propõe "sacudir
tudo o que aprendemos e nos condicionamos a utilizar, para ver se conseguimos
atirar longe conceitos de construção, soluções e espaços inadequados,
substituindo-se com criatividade, segurança e coragem por outros adequados à
nossa região para benefício das pessoas que aqui vivem e moram nas casas que
aqui se fazem". É preciso fazer com a construção da história o que
Severiano Porto fez com a construção de moradas para assim vivermos melhor,
enriquecidos pela diversidade e pela diferença.
"Os portugueses
vieram, viram, mas não venceram" - comenta Joaquim Nabuco, referindo-se
aos resultados do colonialismo na Amazônia, a região menos lusa do Brasil e,
talvez por isso mesmo, a mais lusa de todas na versão histórica oficial, o que
em certa medida ajuda a explicar a ignorância dos manauaras ofendidos com a
foto da paulista com uma índia.
P.S. - O curso da
EMERJ, inaugurado pelo ex-reitor da UnB, José Geraldo de Souza Junior,
prosseguiu com outros palestrantes entre os quais Sérgio Verani, Miguel Baldez
e Maria Guadalupe, abordando ainda outros temas como o direito insurgente, o
direito à terra, à moradia, à saúde, concluindo com os direitos dos povos
indígenas.
*
Jornalista, professor e historiador.
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