Academias: ontem e hoje
* Por
Evanildo Cavalcante Bechara
No nascedouro
italiano, e depois por toda a Europa, a academia, com o Renascimento,
constituía o cenáculo que congregava literatos e cientistas dos mais variados
ramos do saber. Com o passar dos tempos, foram-se, criando instituições com
destinações especializadas, o que contribuiu para diminuir a presença da
academia, especialmente nos setores das tecnologias. Ainda assim, promoveu a
cooperação, desenvolveu e aperfeiçoou o cultivo das chamadas belas-letras,
incentivou o cultivo e aperfeiçoamento das línguas nacionais e, quando gozava
da proteção e auxílio do governo e de poderosos mecenas, divulgou edições de
dicionários, vocabulários, gramáticas e textos criticamente apresentados dos
seus escritores mais representativos.
No Brasil, além das
Faculdades e Institutos de Letras, fundou-se a Academia Brasileira de Filologia
e, nos diversos Estados, as Academias de Língua, quase todas com intensa vida
cultural e com a participação dos melhores estudiosos e pesquisadores do País.
Assuntos de linguagem
tratados sem o necessário preparo freqüentemente aparecem mal resolvidos.
Recentemente, a imprensa tem trazido à baila as invasões de estrangeirismos,
mormente de procedência da língua inglesa, e os pronunciamentos, com raras
exceções, repetem os enganos já malsinados por um grande lingüista francês do
século XIX, Miguel Bréal, no seu Essai de Sémantique, cuja primeira edição data
do ano da fundação desta centenária Academia. Neste sentido, nosso José de Alencar,
em respostas a seus críticos, teceu considerações muito mais lúcidas sobre a
introdução do estrangeirismo no português (no seu tempo eram os francesismos)
do que muitos gramáticos da época e alguns do nosso tempo.
Problemas
aparentemente fáceis de observação e doutrina como, por exemplo, os
brasileirismos, tocam em pontos extremamente complexos de ordem teórica; a
consulta à bibliografia pertinente revela-nos o intrincado do problema. Um
filólogo que honrou esta Casa, Celso Cunha, pôs à luz a complexidade da questão
no estudo Que é um brasileirismo, enquanto outros filólogos, também acadêmicos,
João Ribeiro e Heráclito Graça, muito se debateram contra a “patriotice” dos
puristas acerca deste ponto. A minha presença na Academia poderá contribuir para
estabelecer o conveniente elo e equilíbrio entre os resultados da pesquisa de
instituições especializadas, com seus produtos de ciência pura, e o papel
institucional da Casa, pelo voto dos acadêmicos, no cultivo e defesa da língua
como expressão literária do instinto nacional.
Independentemente das
instituições especializadas, poderá a Casa, por proposta do seu filólogo,
apresentar a seus pares e à ilustre Academia das Ciências de Lisboa sugestões
simplificadoras em aspectos puramente convencionais e práticos ainda presos a
tecnicismos que perturbam o homem comum, sem prejuízo naturalmente de
pressupostos teóricos. É o caso, por exemplo, do emprego do hífen e do
apóstrofo segundo as complicadas exigências do nosso Formulário ortográfico, de
1943, ou mesmo do Acordo de 1991.
Daí a Academia, para a
consecução dos preceitos estatutários, ou de outros que seus membros elegerem
prioritários para atenderem a novas necessidades, precisar da colaboração de
órgãos e de especialistas na programação de atividades e elaboração de obras
relacionadas com o cultivo da língua e da literatura nacional.
Trecho final do seu
discurso de posse.
*
Professor e filólogo, membro da Academia
Brasileira de Letras.
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