Queremos
um purgatório mais justo e racional
* Por
Marcelo Sguassábia
O conhecido
purgatório, esse limbo que acomoda quem ainda não tem direito ao céu, porém não
é merecedor do inferno, é cenário de situações esdrúxulas e até cômicas - se
não fossem trágicas em sua estranheza.
Manda a lei divina que
o que se fez ou se desejou a outrem seja pago na mesma moeda pelo pecador.
Assim, ações e maledicências veniais, quando não infantis, acabam sendo
impostas àquele que praguejou. Um corriqueiro "vá lamber sabão", dito
impensadamente ao coleguinha em uma partida de futebol mirim de 1972, condenou
um recém-defunto a onze anos e oito meses de infindáveis lambidas em uma barra
sebosa de 500g, com cheiro enjoativo e sabor intragável. O pobre coitado já
devorou cinco sabões em pedra, e tudo leva a crer que mais umas cinco mil o
aguardam, até que o tempo da pena se complete. Consta, porém, que outros três
amiguinhos do condenado teriam sido por ele "mandados à merda" em
outra partida do campeonato. Vai daí que algo bem pior o espera, tão logo os
sabões sejam devidamente lambidos.
Há um consenso em
todas as esferas espirituais de que esses pequenos delitos precisam ser
anistiados, e que os critérios na relação pecado-castigo devem ser reavaliados
com a máxima urgência, para que o espaço disponível consiga abrigar os que
possuem culpas mais significativas no cartório. Já os responsáveis pelos
círculos purgantes argumentam que só as almas absolutamente puras fazem jus ao
paraíso, e que mesmo contravenções tolinhas não escapam do pente fino dos
guardiões celestes. É necessária, segundo eles, a convocação de uma assembleia
extraordinária com representantes do céu, do inferno e do purgatório, para que
as milenares regras de purificação e admissibilidade sejam alteradas.
Algumas facções do
paraíso defendem a descriminalização do xingamento "Vá plantar
batatas", por entenderem que soa anacrônico, nos dias que correm, condenar
tantas almas a meses de sol a sol no cultivo do tubérculo, para ficarem em dia
com a justiça divina. Isso sem falar nas centenas de milhares de hectares
necessários para assentar em lavoura todos os que, na Terra, foram
simpatizantes do insulto.
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Vai faltar espaço no Purgatório para tanto pecador.
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