Agentes ou testemunhas?
O tempo é o maior capital de que
dispomos, embora poucos se dêem conta dessa verdade e a maioria o desperdice de
maneira tola e insensata, como se tivesse diante de si a eternidade. Claro que
não tem. Ninguém tem. Desconhecemos a quantidade que teremos dele (se é que
teremos alguma) e, ainda assim, gastamos perdulariamente, indevidamente,
estupidamente esse precioso e irrecuperável recurso. Sei que já escrevi isso
“n” vezes e escreverei outras tantas, se as julgar necessárias, porquanto é uma
realidade, insisto, em que poucos pensam. E menos ainda os que se preocupam com
seu pleno aproveitamento. Não quer dizer, porém, que eu me ache mais sábio, ou
mais atento do que qualquer outra pessoa. Não me acho. Apenas, até em
decorrência das atividades que exerço – como jornalista e, sobretudo, como
escritor – penso, talvez, com mais constância sobre o tempo e seu
aproveitamento (ou seu desperdício).
Nunca é demais atentar para o fato que
tanto podemos ter à nossa frente um dia, algumas horas, alguns escassos minutos
ou reles segundos, quanto uma centena de anos, ou mais, antes que deixemos o
palco da vida e mergulhemos no desconhecido e no mistério. Salvo exceções,
somos importantes para alguém – nossos pais, nossos filhos, nossos netos, nossa
esposa (ou marido, quando o caso) e vai por aí adiante. Da mesma forma que
esperamos benefícios dos outros, outros tantos esperam a mesma coisa de nós.
Podemos ter muito tempo para beneficiá-los, como podemos, também, ter
pouquíssimo, ou mesmo mais nenhum. Daí ser suprema burrice desperdiçá-lo.
No caso de escritores, ou de qualquer
outro tipo de comunicadores (jornalistas, radialistas, professores etc,), ou
seja, de formadores de opinião, somos, sobretudo, testemunhas de uma era. Desta
em que nos foi dada a chance de viver, sobre a qual (pelo menos teoricamente),
reunimos condições de influir e com a qual tudo o que nos diga respeito possa
ser associado. Nossa responsabilidade é imensa, pois no exercício dessas
atividades exercemos influência não raro decisiva na vida de outras pessoas,
tanto para o bem, quanto para o mal. Compete-nos nos prepararmos para jamais
influenciarmos negativamente quem quer que seja. E essa preparação demanda
tempo, que não pode e nem deve ser desperdiçado, por ser irrecuperável.
Temos a opção de sermos apenas
testemunhas do nosso tempo ou agentes que influam nos acontecimentos. Prefiro
agir em vez de apenas me limitar a testemunhar acontecimentos. Mesmo que não
sejamos comunicadores, influenciamos, de alguma forma, os que nos rodeiam, para
o bem ou para o mal. Cada gesto de amor ou de ódio, cada atitude de
solidariedade ou de egoísmo, cada ato de construção ou de destruição, contam
muito. Compõem nossa biografia e justificam (ou não) nossa trajetória na vida.
Ninguém veio ao mundo por acaso, embora assim nos pareça. Mas nossa finalidade
não nos é revelada por ninguém. Compete-nos descobri-la e realizá-la.
Podemos ser lembrados num futuro
distante como santos ou como demônios; como sábios ou como tolos ou então ser
esquecidos para sempre, como se jamais tivéssemos existido. Isto vai depender,
em grande medida, de nós e das circunstâncias que tivermos (que alguns chamam
de destino e outros de acaso). Um reles texto descomprometido que façamos e
divulguemos, por exemplo, pode ser decisivo na forma com que passaremos para a
história (senão da humanidade, pelo menos da comunidade a que servimos ou
somente da nossa família).
Alguns conseguem realizar em vida
aquilo a que se propuseram, porque se empenharam, buscaram as oportunidades e
as aproveitaram. Outros, limitam-se a sonhar (às vezes nem isso) e sequer
tentam fazer o mínimo esforço para que seus sonhos se façam concretos e se
transformem em atos. Optam por serem testemunhas, mas não agentes. Omitem-se. Suas
elucubrações (quando as têm) jamais se tornam concretas.Tudo o que fazem é
procurar a mera satisfação dos sentidos, e mesmo assim de forma desregrada e
imprudente. Há outro grupo ainda, que é o dos que obtêm a cumplicidade alheia
para suas idéias e projetos. E realizam seus propósitos através de terceiros.
São os “semeadores”. São os gênios da espécie. São os líderes naturais, cuja
liderança se impõe não mediante a força ou decreto ou herança, mas de forma
automática e espontânea.
O escritor Paul Valéry observa que
"o valor das obras de um homem não está nas obras, mas em seu
desenvolvimento pelas mãos dos outros, em outras circunstâncias". São
estes que garantem a eternidade da memória. São estes que administram com
eficácia e sabedoria seu grande capital, o tempo. São estes que têm
participação ativa na vida mesmo após a morte. Posso estar completamente
equivocado (afinal, não sou onisciente e sei tão pouco, diante da imensidão que
há para saber), mas me oponho ferozmente á idéia de viver apenas por viver, sem
rumos ou objetivos. E, pior, á atitude (na verdade, falta dela) de limitarmo-nos
a “sobreviver”.
Se as circunstâncias de nossa vida
forem favoráveis, devemos aproveitar cada oportunidade que nos apareça, por
ínfima que seja, sem desperdiçar nenhuma e, se possível, multiplicá-las. Caso
contrário... Não podemos nos dar por vencidos. Devemos nos empenhar no limite
de nossas forças para mudar circunstâncias ruins, mesmo que fracassemos. A vida
não é um passeio, mas, como afirmou Gonçalves Dias, nos versos de um dos seus
mais memoráveis poemas, “é luta renhida”, concluindo que “viver é lutar”! Lutemos,
pois, enquanto tivermos tempo para isso, não importa a idade que tivermos e nem
em que condições físicas possamos estar para encarar tais desafios.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Há quem passe a vida vendo TV, ou lendo. Para um o outro perde tempo, e vice versa. Como todo o restante, perder tempo é relativo.
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