O
retorno triunfal do mestre Duña depois de longo e tenebroso outono
* Por
Marcelo Sguassábia
Mesmo optando
voluntariamente pela reclusão, Duña, o magno profeta, deixou-se enfim
fotografar em seus rústicos domínios, embalando paternalmente duas lindas
pencas de banana da terra.
A aparição se deu em
meio a insistentes rumores de que, nos últimos meses, Mestre Duña estaria se
lançando de maneira febril ao trabalho de compilação de sua doutrina, revisando
alguns aspectos e acrescentando tópicos inexistentes nas edições anteriores.
Aos mais chegados, externa o oráculo dos oráculos o receio de que seu tempo
nesse mundo já se esgota, e de que cada minuto é precioso para que o acesso à
duñesca sapiência seja direito sagrado de todo ser humano, de Muzambinho a
Machu Pichu, passando por Joahannesburg.
"Caixão não tem
gaveta. Ainda que seja de madrepérola incrustada de esmeraldas, vai servir como
jantar aos vermes do mesmo jeito que um caixote da Ceasa. Chega um momento na
vida em que o dinheiro, o sucesso, o prestígio e o diamante negro não
significam mais nada. Em que tanto faz ganhar mais dois ou mais 222 canais de
televisão para difundir a doutrina em escondidos cafundós. É quando o tempo
vale mais que o templo", afirmou o Divino, demonstrando estar cada vez
mais imune às artimanhas da cobiça e desapegado das transitórias riquezas dessa
vida.
"Imagine um
sujeito fazendo esteira numa academia", comparava o mestre em mais uma de
suas sacrossantas analogias. "Os imbecis pensam que ele nunca chegará a
lugar algum, em sua aparentemente estúpida imitação de hamster de laboratório.
Mas a verdade é que, mesmo sem sair de onde está, irá mais longe que todos,
graças às décadas adicionais que viverá. É como sempre dizia o ilustrado Juan
de la Duña, fundamento medieval da doutrina e meu bisavô pelo lado materno:
mais vale uma voltinha de velotrol todo dia no quarteirão do que uma escadaria
da Penha a cada onze anos". Ao dizer isso, muitos dos presentes à porta da
choupana duñesca afirmaram vislumbrar no firmamento um vendaval de pétalas
lilases, que trazidas pelo vento iam envolvendo a fabulosa figura do Venerável.
Apoiado em seu
inseparável cajado, prosseguia em tom inflamado: “É por isso que, quando muitos
perguntam-me sobre onde está a verdade, reafirmo que ela está dentro de cada
um. Todos os caminhos ali desembocam, todos os ribeirões ali desaguam, todas as
aves de arribação ali pousam, ali fornicam, ali se reproduzem e ali fulguram
radiantes com suas proles. A sua verdade é diferente da minha, que nada tem a
ver com a dele, que por sua vez diverge da verdade de outrem, que não deixa de
ser verdade pelo fato de não coincidir com a verdade de quem a supõe
verdadeira. Nesse sentido, a amizade é, sim, a ponte para alcançá-la. Ainda que
a Ponte da Amizade tenha se celebrizado por conduzir a caminhos falsos e sem
garantia, ao invés de legítimos e cobertos pela mais ampla rede de assistência
técnica.
* Marcelo Sguassábia é redator publicitário.
Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Ápice da originalidade. Velotrol? Moço, atingiu os píncaros com esta!
ResponderExcluir