Ebulição
* Por
Mara Narciso
O menino é
engraçadinho, pele clara, cabelos anelados, jeito de anjinho, mas só o jeito.
Em todos os lugares aonde chega, embora tenha três anos, causa estranheza e
sustos sequenciais. Naturalmente surge sentimento de rejeição em quem está
perto. A antipatia atinge crianças e adultos. Ainda que corra de um lado ao
outro com carinha sorridente, com extroversão e falta de censura próprios da
idade, vai perturbando o ambiente e angariando sentimentos negativos. A
velocidade da sua movimentação preocupa. A destruição que acarreta desaponta.
Quem pode, tira seus pertences da frente, num gesto de proteger o que é seu. O
natural é reparar a anormalidade acelerada e sem lógica, avançando em cima de
tudo que encontra, quebrando, jogando no chão, numa interminável corrida ao
impossível, indo e voltando sem parar.
Uma passada de olhos
capta o cansaço da mãe, que, no mesmo ritmo do filho procura acompanhá-lo,
cercando seus desatinos, segurando de cá, pegando no colo acolá, numa
manifestação de eterno segundo lugar, pois jamais chegará antes dele. Algumas
vezes chega junto. Poucos entenderão a sua luta, mesmo que compreendam que a criança
tem um problema de comportamento. Raros haverão de se solidarizar. A maioria
lançará pedras em direção à mãe, acusando-a de não conseguir controlar a
amplidão de movimentos do filho, um corredor atípico.
Cai e se machuca de
instante em instante, pelo exagero dos passos acelerados e maiores do que as
pernas. Por isso mesmo desaba. Bate a cabeça nas quinas, em curto espaço de
tempo. Desconhece os desníveis e perigos de cair num buraco ou numa escada. As
mãos se agitam no ar, antes mesmo de alcançar o objetivo que ele nem sabe qual
será. A curiosidade é do tamanho do mundo e o medo inexiste. Avança velozmente
sobre tudo, numa ânsia inexplicável de experimentar a vida instantaneamente,
antes que alguém o segure e o impeça de perceber com a ponta dos dedos. A sua
maneira de viver em alta velocidade gera uma aventura alucinante. Para ele e
sua mãe.
Pegar algo para
abandoná-lo no momento seguinte, como se a conquista fosse primordial, e
mantê-la, dispensável. Assim se dá a desconstrução do local em que está. Há
sempre coisas para conhecer nesse mundo grande. Então, vai enlarguecendo suas
fronteiras, querendo outra coisa adiante. Age como um conquistador dos sete
mares, que deseja ter algo, mas tendo-o já não o quer mais e o abandona para seguir
viagem. Olhando um menino assim, fica-se a imaginar o que se passa em sua
mente, e como são seus pensamentos. Devem ser tão rápidos quanto a sua ação
exteriorizada, e se não for muito bem olhado se acidenta grave. Até morre.
Precisa ter sua mão agarrada o tempo todo.
Quando vai crescendo,
e perde a graça, os poucos que lhe eram condescendentes abandonam essa postura
e receitam pancada. Alguns se atrevem a sugerir esta ou aquela atitude,
criticando a mãe por não bater o suficiente para domá-lo. São ingênuas e
inúteis ideias. Tal menino é indomável. A medicina fala que ele tem TDAH,
Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, caracterizado por déficit de
atenção, impulsividade e hiperatividade. Há setores da Psiquiatria que negam a sua
existência, e afirmam tratar-se de criação de Indústria Farmacêutica, que, de
forma imoral quer vender Ritalina (metilfenidato). Provam que isso não existe
nem no Japão e nem na França. Contestada ou não, a correria perdura até entrar
e avançar na puberdade. Os problemas sociais e as perdas pessoais continuam. O
fracasso escolar é a norma.
Uma mulher me contou
que o filho de dez anos apanhava do pai, que fazer dever era uma tortura, que
na escola não escrevia nada, mas que nas provas orais tirava boa nota.
Caminhava o tempo todo e mal conseguia ficar na sala de aulas. Era hostilizado
pelos colegas que o provocavam, e ele revidava, chegando machucado em casa. A
inteligência era acima da média, e sofria muito com os apelidos de burro, de
doido, e outros. Que eu não poderia imaginar o sofrimento que era aquilo.
Engana-se. Eu sei o
que é isso. Trago duas histórias, a minha experiência como mãe de filho
hiperativo, que hoje tem 31 anos de idade, descrita inicialmente, e a outra.
Quem não acredita nessa doença inventada para vender remédio, que traga uma
solução. Eu encontrei um caminho conhecendo, amando, cuidando, compreendendo,
segurando a mão, levantando bandeiras, alertando, mostrando aos outros a minha
experiência. O tratamento começou aos dois anos de idade e dura até hoje. Ter
um filho hiperativo é como receber uma bomba a ser detonada num momento
incerto. Há tempo de gritar e se descabelar, mas o custo e o cansaço compensam.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Sensacional a sua crônica/depoimento, Mara. Tudo de bom para você e o Fernando!
ResponderExcluirNão é fácil, mas vamos garbosamente singrando os mares das descobertas e das quebradas de cara. Obrigada, Marcelo.
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