Coisas pequeninas
que podem resultar num homicídio (a qualquer momento)
* Por André
Falavigna
Isso ainda vai acabar mal. Vejam só.
Não é nada, não é nada, não é nada mesmo. Mas vai acabar mal.
Experimentem por si próprios.
Antigamente, só uma lanchonete que há na Aclimação, muito tradicional,
excelente mesmo, fazia isso. Chama-se Achapa. Todo mundo diz que vai “no Chapa”,
mesmo indo ao Achapa. Não me perguntem o porquê. O caso é que isso lá era um
charme, uma coisa diferente, uma exceção. Mas agora é regra: se você não avisar
que não quer, a coca-cola vem com gelo e limão. Em qualquer lugar, menos nos
fast-foods. Como os fast-foods não interessam, e como eles só servem
refrigerante de máquina (adoro falar post-mix), isso não conta. O que conta são
os lugares onde seres humanos de verdade vão comer. Nesses lugares ninguém se
livra da dupla estranhíssima, o gelado Gelo e seu azedo comparsa, o Limão. O
máximo que essa gente se permite é não presumir tudo de cara e perguntar-nos:
“com gelo e limão, senhor?”. Quando dizemos que não, há terror e surpresa no
ar. Como, sem gelo e limão? Certeza? Não pode ser. Deve haver algum engano.
“Uma normal, então, sem gelo e limão? Ou só com gelo?”. Ora, se estiver gelada
o suficiente, por que colocar gelo? Por que ninguém se lembra de acrescentar
rum à oferta? Daí já vira Cuba Libre logo e pronto. Mas pelo menos faria
sentido.
O pior é que esquecem o pedido quase
sempre, e trazem com gelo e limão mesmo que você os tenha dispensado. E vão
enchendo o copo. E foda-se.
Alguém, algum dia, disse à moça do
caixa do Pão de Açúcar que sim, que quer mais alguma coisa? Eu não sei quanto a
vocês, mas a minha parte em gentileza eu prefiro em descontos. Ninguém ,
mas ninguém mesmo, lembrou algum dia de alguma coisa que queria comprar por conta
do lembrete da moça do caixa. Se eu não encontrei alguma coisa que procurava?
Um dia desses eu respondo, só para ver o que eles fazem. Vou dizer que não
achei minha marca de lubrificante íntimo preferida, e que é por isso que minha
jovem esposa prefere o Wal-Mart (se não fizer a ressalva, a menina pode pensar
que sou são-paulino ou coisa parecida). Será que a moça do caixa vai anotar e
enviar um e-mail ao Abílio Diniz? Tem um cara aqui querendo enrabar a jovem
esposa e não achou o gel apropriado. Pobre jovem esposa.
O dia em que vocês virem KY nas
gôndolas do caixa do Pão de Açúcar, já sabem a quem agradecer.
E no Mac Donald’s? Experimente, por
nostalgia, ir ao Mac Donald’s e pedir um Big Mac. A atendente pergunta sempre
assim: “O senhor deseja o número 01?”. Se eu desejasse, muito provavelmente
teria pedido o número 01, não é mesmo, querida? Não, eu quero só uma merda de
um Big Mac e ponto. Perdi meu respeito pelo Mac Donald’s no dia em que eles
deixaram de fritar as batatinhas em gordura animal. Pessoas que fritam batatas
em gordura vegetal deveriam morrer hoje. As que fritam em gordura vegetal
hidrogenada, essas vão morrer rápido de qualquer jeito mesmo. Corporações que
cedem a esse lixo ideológico e fritam batata em gordura vegetal hidrogenada
deveriam ser denunciadas por alguma dessas Ongs chatas que denunciam qualquer
coisa que lhes peçam, desde que role uma verbinha pública. Isso sim é que é
contrapartida social.
E as farmácias aderiram. Você compra
uma coisa, o sujeito faz uma ilação absurda e oferece outra, por pior que seja
o disparate. Voltemos à minha jovem esposa. Ela entrou no descanso. Para quem
não sabe do que se trata: ela está naquela fase em que não pode tomar pílulas,
porque precisa menstruar de verdade. Temos, então, que comprar camisinhas.
Outro dia, fui à Drogaria São Paulo da Avenida Liberdade. Pedi um tipo de
camisinha que acho que já não fazem mais: uma Jontex sem nenhuma lubrificação.
Vinha na embalagem clássica da Jontex, cinza, com o rótulo em azul clarinho. A
embalagem ainda existe, mas abriga outra camisinha, lubrificada. Como sou
otimista, achei que existisse coisa similar, e consultei um vendedor. Ele disse
que desconhecia, mas se eu quisesse um Viagra estava em promoção. Compreendo. Se
eu quero camisinhas, é porque vou meter. Se vou meter, é possível que eu deseje
meter mais e melhor. Vamos logo me oferecendo alguma coisa para melhorar essas
minhas metidas que eu vou dar, que com essa cara de brocha eu devo estar
precisando. Coisa fina mesmo.
Aliás, segue um aparte para a fineza
dos grandes Laboratórios. A turma tirava sarro de um remédio chamado “Virgem
Again”, que ademais não funcionava (pudera). Mas não sei como isso pode ser
muito pior do que “Tampax” para um absorvente interno. Seguindo esse padrão de
nomenclatura, o já citado Viagra dever-se-ia chamar “Metex”; os melhores
purgantes, algo como “Cagox”; os diuréticos, “Mijox”; o velho e bom KY,
“Enrabex”. E por aí iríamos. Gênios do marketing, esses caras do Tampax. A avó
de um deles é que deve ter sugerido o nome. Daí ela ficar incomodada. É que
levaram a boa senhora a sério. Fim do aparte.
Quando a gente pede um suco de alguma
coisa, ninguém mais ousa adoçá-lo sem nos consultar, por pior que seja o
estabelecimento. Normalmente, deixa-se o adoçamento por conta do freguês. Isso
é bom. Agora, experimente pedir qualquer outra coisa que não suco, chá ou café
(bebidas prontas, é obvio, não contam). Iogurte batido com leite, Toddy (ou
Chocolate, como queiram), vitamina de qualquer coisa, sêmen de macacos loucos,
o que vocês quiserem. Os caras colocam açúcar sem nem mesmo vir com aquela
perguntinha irritante: “Açúcar ou adoçante?”. Mesmo que a coisa já leve açúcar
num ingrediente básico: eles colocam mais açúcar. E se você reclamar, corre o
risco de ver o açúcar substituído por cuspe, sub-repticiamente. Até em avião é
assim.
Quem me conhece pessoalmente sabe que
eu não dou a menor bola para o que um camarada faz na intimidade. Tenho um
monte de amigo são-paulino, alguns até jogam vôlei. Não discrimino ninguém.
Portanto, fico à vontade para me irritar com o seguinte: trabalhei durante anos
em bureau de atendimento, essas empresas que terceirizam o atendimento
telefônico das outras empresas. De cada dez homens contratados para atender, seis
são homossexuais assumidos, dois estão por assumir, um disfarça e o restante
cheira cocaína. Uma vez tomei coragem e perguntei a uma responsável pela
seleção porque essa preferência toda. Esperava ouvir uma daquelas bobagens do
tipo: eles são mais sensíveis, ou mais atenciosos, ou mais pacientes, ou
qualquer outro preconceito do gênero.
Mas a coisa anda piorando: ela me disse que o nível cultural dos homossexuais
era melhor. Como se esse pessoal dos processos de seleção tivesse qualquer nível cultural que lhes
permitisse chegar a uma conclusão dessas. O próximo que me vier com essa do
nível cultural (meu Deus, o que é isso?) ou vocação artística de um determinado
grupo de pessoas baseando-se no que cada um prefere praticar, eu bebo o sangue do
sujeito na rua. Cambada.
Eu também gostaria de informar a todos
que o fato de uma pessoa possuir defeitos físicos, ficar velha ou engravidar
não melhora nem piora o caráter dela. Tem muita grávida filha da puta por aí.
Velho então, nem se fala. Aleijado também. Creio que na mesma proporção do
resto da humanidade. Que pessoas nessas situações devam ser privilegiadas numa
porção de ocasiões, isso é óbvio. Mas é que esse tipo de benefício não é
sustentado e nem pode ser suspenso baseando-se nas qualidades morais do
beneficiário. Se o sujeito viveu bastante e por isso achamos que ele não deva
mais pagar pela própria condução, isso está ótimo e tudo bem. Se Adolf Hitler
atingisse os 65 e vivesse hoje em
São Paulo , ele teria esse direito. E tem mais: você teria que
lhe dar o assento de encosto amarelo nos ônibus, ou o assento de cor cinza nos
trens do metrô. Vem tudo no pacote. Portanto, peçam-me que cumpra meu dever e
peçam-me que seja educado (é realmente um grave sinal de decadência moral de
toda uma população que exista uma lei obrigando as pessoas a darem lugar aos
mais velhos e às grávidas para que eles possam se sentar no transporte público;
esse tipo de atitude deveria surgir quase
que sob reflexo), mas não me peçam para virar bobo do dia para noite. Não vou
gostar de alguém automaticamente só porque a figura não ouve o que eu falo, ou
não me vê, ou não pode me mandar à merda em alto e bom som. É inclusive muito
provável que a mesma pessoa não espere isso de mim. E, se ela não espera, quem
são os outros para cobrarem isso de nós? À merda, esse pessoal.
E não, grávidas não são mais bonitas do
que as mulheres gostosas. A pele muitas vezes melhora, o cabelo também, mas o
resto todo muda de categoria e não pode mais ser avaliado em termos de beleza (ao
menos não nos mesmos termos em que se diz que fulana ou sicrana é bonita).
Sujeitos que têm atração sexual por mulheres grávidas que não estão grávidas
deles são monstros. Quando dizemos que tal ou qual mulher é bonita, é sobre
isso que estamos falando: seria uma boa mandar ver nelas. Agora que vocês já
sabem disso, pensem na nojeira que é ficar dizendo que beltrana ficou “muito
mais bonita grávida”. Tremenda cara-de-pau.
Alguém
ainda vai pagar por isso tudo. Já não garanto a segurança de ninguém. Talvez
seja o sujeito que, diante de um campeonato de pontos corridos, diz que tem
saudades do “mata-mata”. Todos os campeonatos do país são disputados em
“mata-mata”, menos o brasileiro. Mas o elemento é tão chato que não consegue
suportar um só campeonato por pontos corridos sem dizer: “Ah, eu sei que é mais
justo assim, mas eu tenho saudade do mata-mata”. Se sabe que é mais justo, cala
a maldita boca e não torra a paciência dos outros.
Talvez venha a ser o ambulante que
estende a mão entre meus olhos e meu livro oferecendo dois docinhos por um real
e que, quando digo que não os quero, me responde: “mas segura só um pouquinho”;
ou ainda aquele outro que simplesmente atira os doces em cima do meu colo,
enquanto eu estou lendo, e depois começa a discursar acerca de seus
elevadíssimos méritos morais. Afinal, ele poderia estar me roubando (eu bem que
mereço, entende?), mas não, prefere ir lá me encher o saco.
Talvez seja a voz do metrô que me diz
para não dar esmolas e para preferir uma instituição da minha confiança, como
se o que eu faço com meu dinheiro e o esmoler com o dele (depois que eu o dei a
ele, o dinheiro é dele, que pode usá-lo como bem entender, inclusive para tomar
um porre) fosse problema dela, e não nosso.
Talvez seja outra pessoa, de que nem me
lembro agora.
Seja lá quem for, alguém vai ser. E não
perde por esperar.
(*) André Falavigna é escritor,
tendo publicado dezenas de contos e crônicas (sobretudo futebolísticas) na Web.
Possui um blog pessoal no qual lança, periodicamente, capítulos de um romance.
Colabora com diversas publicações eletrônicas.
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