Personagem intrigante de um escritor
genial
O escritor irlandês James Joyce é um dos mais geniais,
complexos e marcantes da literatura mundial de todos os tempos. É tido e havido
como uma espécie de “guru”, de precursor, de ícone do Modernismo na Europa.
Pode ser classificado, por detratores, de muitas coisas, menos de ser
convencional. Nunca foi. Seu livro “Ulysses” é o mais complexo, instigante e de
difícil entendimento que já li. Boa parte dele nem mesmo entendi. Pretendo fazer
meticulosa, demorada e analítica releitura dessa obra, que há décadas me
desafia. Quando a fizer, certamente partilharei com o leitor minhas conclusões
(caso chegue a alguma). Por enquanto continuo sem entender muita coisa, embora
entenda o essencial. “Ulysses” não é livro para ser comentado de afogadilho,
como se comenta um desses tantos romances “água com açúcar” que nada têm a nos
acrescentar, mas apenas nos divertem (ou nem mesmo isso).
Ler essa obra no original (para quem é versado em inglês),
já é magnífico feito. Requer profundo conhecimento do idioma e extrema
erudição. Imaginem, então, as dificuldades para um tradutor! O texto está
eivado, por exemplo, de diversos trocadilhos, de jogos de palavras, de
citações, de neologismos, de referências históricas e literárias e vai por aí
afora. Mas não é apenas isso. Joyce se utiliza de estilos variados. O texto, ao
fim e ao cabo, pode ser comparado, sem exagero algum, a um complexíssimo
quebra-cabeça literário. Para que o leitor tenha uma idéia de quão difícil é
entendê-lo, informo que o escritor valeu-se de mais de 30.000 palavras para
redigir “Ulysses”!!! Para entender o que isso significa, basta lembrar que uma
pessoa sumamente culta se utiliza, exagerando muito, ao longo de toda sua vida,
em torno de 10 mil palavras do seu idioma, quando muito. O cidadão comum se
vale de entre 2.500 a 3.000 para se comunicar bem no dia a dia. No entanto,
Joyce utiliza 30 mil!!! .
Pois é desse livro absurdamente complexo e profundo que
emerge a quarta mulher citada na série “Catorze personagens femininas
inesquecíveis”, organizada pelo site “Homo Literatus” (WWW.homoliteratrus.com). Trata-se de Mary Bloom, esposa do
principal protagonista da trama, Leopold Bloom, citada em 17 dos 18 capítulos
desse livro tão desafiador. Ela é a escolha do jornalista Walter Alfredo Voigt
Bach, que, entre outras coisas admiráveis, se mostra profundo conhecedor de
“Ulysses”, a despeito de sua complexidade, o que não deixa de ser grande
façanha.
Lembro que a pesquisa do site reúne catorze especialistas em
Literatura que têm que escolher apenas uma única personagem feminina que
considere inesquecível. E deve justificá-la, claro. E o que Walter diz sobre a
figura que escolheu, em um universo de milhões de possibilidades? Suas
explicações são longas, porém convincentes: “No Ulysses, de James Joyce, Molly
é mencionada com frequência por Leopold, e por longos dezessete capítulos ele é
a única fonte de informação sobre ela. Parece uma figura distante e quase
inalcançável, embora muitos a conheçam de vista, mas mesmo ouvindo tanto sobre
Marion ela soa distante, até o décimo-oitavo capítulo: Penélope. O capítulo
conclusivo de Ulysses é todo Molly Bloom, cuja mente é apresentada pela própria
em um ritmo acelerado, como se ela estivesse empilhando comentários prosaicos
com alguém a ouvindo durante o preparo do jantar. A vizinhança, as vidas se
formando e deformando, os parentes e amigos cujos hábitos por vezes a enjoavam,
o marido, as ambiguidades ditas e desditas Dublin afora, nada escapa da
sinceridade devastadora da madame Bloom”, escreve o jornalista.
E acrescenta: “E sem querer, Molly Bloom proporciona um
passeio pela pluralidade da alma humana, amarrando explicações inconclusas
durante Ulysses, apresentando uma história dentro da principal simultaneamente
enquanto a completa, fios amarrados de uma história começada anos atrás, ao
sentir um pulso. É ela quem conta: ‘e o coração dele batia que nem louco e sim
eu disse sim’”. De acordo com alguns críticos literários contemporâneos
(evidentemente, ultra-eruditos), essa personagem é uma das mulheres mais
vividas e, simultaneamente, mais misteriosas do século XX, ao lado de Nástienka
(de “Noites Brancas”, de Dostoievski) e de Dolores Haze (de “Lolita”, de
Vladimir Nabokov), É sumamente complicado, para quem não leu determinado
romance, apresentar algum personagem específico, ainda mais se tratando de
alguém tão enigmático e complexo, como Mary Bloom.
O "Ulysses", de James Joyce, é uma espécie de
paródia da “Odisseia” de Homero. A diferença é que condensa a viagem de Odisseu
(na pessoa do agente de publicidade Leopold Bloom) em meras 24 horas. Ela
começa no dia 16 de junho de 1904 e termina nas primeiras horas da madrugada do
dia seguinte. A mulher que corresponde a Molly no livro de Homero é Penelope. A
diferença principal entre as duas é que, enquanto esta última mantém-se fiel a Odisseu, enquanto este faz
sua longa viagem, a personagem de Joyce tem um caso com Hugh 'Blazes' Boylan
depois de dez anos de celibato no casamento (pudera!).
Acho curioso o fato de “Ulysses” ter sido proibido por
autoridades de vários países, como Estados Unidos e Inglaterra, por bastante
tempo. E sabem por que? Apenas porque Joyce descreveu, em diversos pontos,
aspectos da fisiologia humana então considerados impublicáveis. Como se vê, a
burrice é democrática e universal. Acho inacreditável que isso tenha
acontecido, e em pleno século XX. Mas... aconteceu. Hoje, esse mesmo livro é
cultuado tanto nos países em que foi proibido quanto em muitos outros. Foi
criado, até, um chamado “Bloomsday”, celebrado principalmente na Irlanda (mas
não apenas lá), em todos os dias 16 de junho, e há já bom tempo. Em Dublin, por
exemplo, os fãs de “Ulysses” refazem o percurso dos personagens Stephen Dedalus
e Leopold Bloom pelas ruas da cidade conforme foram descritas por Joyce. Até no
Brasil há quem celebre, o “Bloomsday”. Ele é celebrado na cidade gaúcha de
Santa Maria (pelo que eu saiba), há já 21 anos (que serão completados amanhã),
desde 1994 .
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Que chique, Pedro! Imagino que sua escolha por comentar essa personagem hoje não tenha sido por acaso. Ler Ulisses é um desafio grande demais para a minha capacidade. Nem penso se algum dia teria energia para tal.
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