A história do cão Graife
* Por
Adaír Dittrich
Graife foi um
imponente perdigueiro de negra e reluzente pelagem que vivia em nossa casa em
um tempo em que os cachorros podiam circular livremente, sem coleiras e sem
placas, por toda a vila. Dócil e amigo e de um inesquecível olhar meigo e
cativante. Não tinha um grande porte, mas servia de montaria para muitas
crianças que dele faziam o seu cavalo.
De manhã cedinho
ficava a postos, ao lado do portão da casa, para acompanhar quem primeiro
saísse em direção ao Restaurante da Estação Ferroviária da vila de Marcílio
Dias onde receberia a primeira refeição do dia. E por ali e em torno dali
perambulava visitando os ferroviários em plena sala do telégrafo ou na casinha
onde ficava o Posto de Revisão dos trens.
Enquanto os trens de
passageiros não chegassem ficava modorrentamente ronronando em cima de um
capacho junto às duplas portas de vai-vem na entrada do salão de refeições do
restaurante. Como um soberano sentinela, só deixava passar livremente quem ele
conhecesse.
Levantava-se de um
pulo e corria a dar sinal da chegada dos trens antes mesmo que eles estivessem
no início da última curva antes da ponte para os que à tarde vinham do leste e
bem antes ainda do limite do Triângulo para os que de manhã procediam do oeste.
Graife tinha a pata
dianteira direita avariada. Assim, mancando, é que dele eu me lembro. Correndo
com as três pernas boas levava a outra balançando no ar ou mesmo arrastando a
pata ruim pelo chão. Foi nas rodas de um trem que aconteceu o traumatismo que
aleijou o nosso cão. Foi num ato de heroísmo ao se atirar entre o trem e a
plataforma da estação, à frente de uma criança que correndo vinha e estava
quase caindo nos trilhos. Salvou-se a criança e o nosso herói teve a pata moída
sob as rodas.
Mas, esta pata era a
festa. Dele e nossa. Com esta pata ele cumprimentava as pessoas. Ele a estendia
a quem com ele fosse conversar. Era só dizer: ”Bom dia, Graife” ou “Boa tarde,
Graife” e ele estendia a mão. Perdão, a pata.
Na temporada de caça
às perdizes meu pai tirava férias de seu serviço de fiscalização de trens e de
estações. E o companheiro inseparável, ali, ao lado dele, acompanhando todos os
preparativos, com os ansiosos olhos mais brilhantes ainda.
Era um limpar e
azeitar a espingarda. Era um montar de cartuchos. Era um medir de pólvora e
chumbo. Enfim, aquela azáfama toda que precede uma boa caçada. E o Graife ali.
Rente. Só no aguardo da largada triunfal.
Cedinho eles saíam. Lá
para os chamados Campos dos Miranda, um território independente, à margem
direita do rio Canoinhas e à esquerda da linha férrea no sentido Três Barras a
Marcílio Dias. A bem poucos e selecionados era dada a permissão para lá entrar
e caçar. Meu pai tinha esse privilégio.
Voltavam à tarde
carregados de perdizes. E somente as cabeças haviam recebido o chumbo
disparado. Quando havia chumbo em mais algum lugar do corpo da ave minha mãe já
dizia: “Não foi o Adolpho (meu pai) quem abateu esta”. E o detalhe mais
importante era o comentado sobre o nosso Graife e a sua maneira de levantar a
caça com sua chegada sutil e cautelosa ao esconderijo entre as moitas. E,
depois do tiro que acertava a ave no ar, a queda e Graife a buscá-la,
trazendo-a presa entre os dentes, sem nada estragar. Abocanhava a perdiz pela
ponta das asas ou pela cabeça. Sempre.
Ele era o Graife.
Imponente e nobre, como um “Graf”, de onde veio seu nome. Que virou Graife para
todo mundo. O dócil Graife, o amigo Graife.
Era uma outra criança
brincando com as crianças. Brincava de bola, de correr, de pegar, de
amarelinha, de esconder e até de pular corda.
Era o guardião da
casa, da família, do restaurante, da estação, de todos, enfim.
Era o caçador sensível
e irresistível que acompanhava o meu pai.
E num dia em que eu já
estava estudando fora recebo a triste carta de minha mãe contando que o nosso
Graife tinha partido para morar no céu dos cachorros abençoados junto com seus
anjos-irmãos.
Naquele tempo os
pátios das estações ferroviárias eram pavimentados com o sambaqui que era
trazido em vagões-plataforma dos sítios arqueológicos do litoral. Creio que a
este material não era ainda dado o valor histórico que hoje se dá para que se
possa fazer o mapeamento de antigas civilizações que as nossas costas
habitaram.
O sambaqui era
simplesmente retirado de seu habitat e trazido para atapetar o pátio das
estações de trem. Removidos eram dos vagões e deixados à margem dos trilhos em
montões regulares, abobadados. O sambaqui já era uma pastosa massa acinzentada
recheada de conchas do mar e com a chuva transformara-se em um montão
escorregadio.
E o Graife por estes
montes estava correndo, como sempre o fizera, com suas três pernas. Suas
pernas, a esta altura já mais fatigadas, já mais artrosadas pelo passar dos
anos, não conseguiram correr e pular como sempre o fizera acompanhando o trem
que passava. E escorregou. E foi para o lado dos trilhos. E não conseguiu mais
sair. As rodas passaram por cima de Graife.
Com um uivo que se
espalhou pela vila inteira, arrastou-se para debaixo do assoalho do
restaurante.
Às pressas meu pai
galgou a escadaria que ficava ao lado, atravessou o campinho até a nossa casa,
carregou a espingarda e veio dar o tiro de misericórdia que acabaria com o
sofrimento de Graife. O choro de meu pai foi o choro do mundo àquela hora. E eram as lágrimas de um povoado inteiro que
ficou órfã e de luto do seu Graife.
Foi longo o tempo que
se passou para meu pai voltar a caçar. Até um dia em que apareceu uma cadela
chamada Moka. Mas esta é outra história. A história de Moka.
* Médica e escritora.
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