Voz da solidão
As obras de arte do passado, as que
sobreviveram às grandes comoções políticas e sociais, como guerras, saques e
destruição, e às múltiplas catástrofes, naturais ou provocadas pelo homem,
claro, são como vozes de além-túmulo a nos testemunhar como eram, o que fizeram
e como viveram nossos remotos ancestrais.
Muita coisa, diria a maioria, se perdeu
no tempo, privando-nos de preciosas informações sobre as nossas origens. E esse
mal é irremediável. O que se perdeu, é absolutamente irrecuperável. Mas o pouco
que restou (e não dá para dimensionar o quanto isso representa, em termos
percentuais, em relação ao que foi produzido) tem duplo valor: o artístico e o
documental.
Essas obras de arte são as mais
confiáveis fontes em que o historiador contemporâneo pode “beber”, para nos
trazer um relato razoavelmente preciso sobre povos, heróis, vilões, santos e
tiranos dos primórdios da civilização. As epopéias “Ilíada” e “Odisséia”, de
Homero, nos falam, por exemplo, de como eram os gregos dos tempos heróicos e
nos testemunham, também, a existência de Tróia e de seus líderes e seu povo.
O mesmo ocorre com a “Eneida”, de
Virgílio; com a “Ramaiana” e “Mahabarata”, dos hindus, e com tantos e tantos
outros poemas épicos, esculturas, arquitetura etc. que sobreviveram ao tempo e
ao esquecimento. São, portanto, quase que literalmente, “vozes de além-túmulo”.
E tudo isso foi criado pelo talento de
homens como nós, mas solitários, pois tinham profunda desvantagem em relação às
pessoas de hoje, já que não contavam com os conhecimentos, os meios de
locomoção e de comunicação e conforto que nos são proporcionados pela evolução
da tecnologia. Foram obras geradas por talentos ímpares nas condições mais
adversas que se possam conceber.
Até a invenção da imprensa, por
exemplo, por Johann Guttenberg, os livros eram feitos a mão, um a um, por
copistas, geralmente monges, que transcreviam os originais dos autores, mas nem
sempre (como seria de se esperar) rigorosamente da forma que eles os haviam concebido.
Pouquíssimas pessoas tinham o privilégio de possuir algum desses exemplares. E
muitos que os possuíam não os liam, por serem analfabetos. Ainda assim, para
nossa felicidade, alguns magníficos textos (e outros não tão excelentes assim),
chegaram até nós. Reputo isso como milagre!
Nem todas as artes, porém, que foram
praticadas na remota antiguidade, deixaram vestígios, por mínimos que fossem,
que pudessem chegar às nossas mãos, homens do segundo milênio da Era Cristã. A
dança, por exemplo, é uma delas. Como nossos ancestrais dançavam? Qual era o
ritmo que os embalava, quais as coreografias que faziam, que passos, voltas e
piruetas davam? Impossível de saber! Só temos certeza (dados alguns registros
existentes a respeito, feitos em determinados textos), que nossos antepassados
expressavam, de fato, a alegria de viver com o corpo. E, provavelmente, muito
mais do que fazemos hoje.
Vários trechos da Bíblia nos dão conta
de danças do povo hebreu, como expressão de felicidade e de louvor a Deus. Mas
como elas eram? Que indumentária os dançarinos usavam (se é que havia alguma
especial)? Isso, com certeza, jamais haveremos de saber. Trata-se de perda
total, absoluta e irreparável.
Outra arte que nos deixou pouquíssimos
vestígios do passado é a pintura. E é estranho que assim seja. Afinal,
tratou-se da primeira manifestação de inteligência do homem primitivo e que
originou, inclusive, a escrita. Os hieróglifos egípcios, por exemplo, são
linguagem exclusivamente pictórica (assim como a chinesa e a japonesa). Cada
letra é o desenho de alguma coisa, de um pássaro, um animal, um regato, uma
casa etc. etc. etc. É provável que todos os alfabetos nasceram dessa forma.
Temos, à nossa disposição, desenhos dos
nossos semi-selvagens ancestrais, em inúmeras cavernas da Europa, Ásia e
Américas. Mas o que as pessoas pintaram, em fases subseqüentes de civilização,
por milênios e mais milênios, se perdeu, irremediavelmente, no tempo. Os
artistas do passado desconheciam quais as tintas mais duráveis e as maneiras
delas não se apagarem. É uma pena.
Finalmente, outra arte que não deixou
vestígios, pelo menos de extensíssimas épocas da história, de vários milênios
antes da Era Cristã, é a música. Quais os sons que embalavam os nossos
ancestrais? Quais foram os seus compositores? Que instrumentos utilizavam? E os
cantos corais? Como eram? Quais as melodias que os empolgavam? Também nunca
iremos saber. Uma pena!
Artistas, felizmente, a humanidade
sempre teve em profusão, e em todos os tempos. Espera-se que continue tendo e
que tenham mais sorte do que aqueles que tiveram suas obras destruídas. Alguns,
do passado remoto, foram felizes. O que fizeram, sobreviveu às mais diversas
catástrofes, hecatombes e convulsões políticas e sociais que afligiram os povos.
Outros... caíram no mais absoluto esquecimento. Não restou nada, absolutamente
nada de concreto para atestar não apenas seu talento, mas, sequer, que
existiram.
André Malraux constatou, a respeito dos
que tiveram a ventura de legar obras à posteridade: “A voz do artista tira sua
força do fato de nascer de uma solidão que chama o universo para lhe impor o
acento humano; e nas grandes artes do passado, sobrevive para nós a invencível
voz interior das civilizações desaparecidas. Mas essa voz, sobrevivente e não
imortal, eleva seu cântico sagrado sobre a incessante orquestra da morte”.
Que as obras de arte atuais sobrevivam,
todas, não importa como, a todas as catástrofes, hecatombes e convulsões
sociais que, certamente, nos atingirão algum dia. Elas, afinal, são um raro,
por isso precioso atestado da criatividade e do poder do espírito humano,
quando aplicado no racional e no positivo (o que, infelizmente, acontece muito
pouco).
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Penso que a maior parte se perdeu, como também, o que temos possa não ser a melhor produção.
ResponderExcluir