Na calada da noite
A noite me fascina, mas também me
assusta. Fui dessas crianças que sempre tiveram medo do escuro. Só conseguia
dormir com uma luz acesa no quarto, proveniente de um abajur no criado-mudo
para dissipar, pelo menos em parte, a escuridão, e que só era desligado quando os
primeiros clarões do novo dia penetravam pelas frestas da veneziana. A razão?
Jamais consegui saber.
No início da adolescência, passava
noites e mais noites em claro, compondo versos – que nem sei onde foram parar –
de forma frenética, diria até delirante, ouvindo rádio e sonhando, sonhando
acordado em me tornar um grande escritor. Mais tarde, gostava de perambular,
sem destino, pelas ruas (naquele tempo não havia a violência de hoje),
observando as pessoas, parando nos barzinhos que encontrava pelo caminho para
beber alguma coisa e para dois dedos de prosa. E só voltava para casa quando o
dia começava a raiar.
Depois...veio o trabalho. Por anos e
anos a noite foi o período em que exerci a minha atividade de jornalista, mais
especificamente, de editor. Houve ocasiões (que duraram décadas), em que
começava minha jornada às 15 horas e só a encerrava às quatro da madrugada do
dia seguinte. Nunca me saíram da memória os tipos que conheci nas ruas de São
Paulo, nessas madrugadas vadias do passado.
Um tal de A. R. Smith (não tenho a
mínima idéia do que essas iniciais significam), escreveu, em certa ocasião –
encontrei essa citação numa revista e decidi anotar: "Não há solidão mais
terrível nem mais impressionante que aquela que existe no coração de uma enorme
e fria cidade". Pude (reitero) comprovar isso na prática. Não há mesmo.
Lembro-me que, em 1961, quando trabalhava
como locutor de rádio (e eu tinha só 19 anos, vejam só!), numa dada noite, ao
voltar de Santo André (eu trabalhava na Rádio ABC dessa cidade), rumo a Santo
Amaro (morava numa pensão desse distrito de São Paulo), perdi o último ônibus
para casa.
Tendo que esperar até às seis horas da
manhã, quando a linha voltaria a circular (eram duas da madrugada), decidi
preencher, de alguma forma, esse tempo. Caminhei, vagarosamente, sem destino
definido, pelas ruas então desertas do coração da metrópole (o atual Centro
Velho paulistano). Parei em uma banca e comprei umas cinco ou seis revistas
(lembro-me que foram a "X-9", "Gazeta Esportiva Ilustrada",
"Revista do Rádio", "Equipe" e mais duas especializadas na
publicação de letras de músicas) e o jornal "O Estado de São Paulo".
Passei por um barzinho, tomei um café e
um "rabo de galo" (pinga com cinzano), comi um ovo empanado e comprei
um maço de cigarros Luiz XV (sem filtro, claro, pois na época apenas o Minister
tinha filtro e era muito caro e fraco para o meu gosto).
Andando, sem nenhuma pressa, observava
o rosto das pessoas com as quais cruzava, que trabalhavam nesse horário tão
ingrato e estavam entrando ou saindo de serviço. Percebia. em cada uma delas
(ou julgava perceber) uma espécie de resignação, de solidão, de mudo e
desesperado apelo à cordialidade, à companhia e ao diálogo. Eu também me sentia
assim. Nem me passava pela cabeça, na ocasião, a mínima possibilidade de
assalto. Os tempos, nessa época, eram menos violentos, conforme já destaquei.
Cansado de caminhar, sentei-me num
banco, sob um abrigo de ônibus que fica ao lado da escadaria que dá acesso à
Galeria Prestes Maia, no Viaduto do Chá, em pleno Vale do
Anhangabaú. Lá, para que o tempo passasse mais depressa, fiquei a rabiscar o
esboço de um poema em um caderno, que sempre trazia comigo, em uma pasta, para
esse fim e que não sei onde foi parar (perdi tanta coisa que hoje me faz uma
falta enorme!).
Fiquei por quatro horas nesse local.
Nesse tempo todo, fui abordado, apenas, por duas pessoas. Ambas, de vida
irregular. Gente infeliz, solitária e provavelmente sem futuro. O primeiro dos
meus interlocutores foi um homossexual. Ele queria porque queria manter
relações sexuais comigo. Fiquei horrorizado! Não gosto de homens! Esta nunca
foi a minha praia! E embora não condene os veados (afinal, gosto é gosto) e não
tenha preconceito a respeito (quem sou eu para ditar moral aos outros!) essa
insistência me incomodou e tive que ser áspero com o indivíduo. Precisei, até
mesmo, ameaçá-lo. Fazendo gracinhas, o veado, finalmente, foi embora.
Não demorou muito, uma prostituta
sentou-se ao meu lado. E foi logo para o ataque, pondo a mão em minha coxa, à
procura do meu sexo. Embora gostando da manipulação, protestei. A mulher, uma
mulatinha até que jeitosa, propôs que dormíssemos juntos, por uma determinada
importância que não me recordo qual foi, mas que sei que era irrisória. Estas
duas abordagens chocaram-me profundamente.
Eu, que até àquela época vivera me
instruindo na virtude, que há apenas um mês havia deixado um colégio interno,
dirigido por religiosos, não concebia ter um envolvimento dessa espécie. Fiquei
profundamente chocado com o fato de alguém precisar vender o corpo para
sobreviver. O que senti, então, além de piedade pela infeliz prostituta e raiva
contra a sociedade, não sei, mesmo hoje que sou mais vivido, menos ingênuo e
nem um pouco inocente, exprimir com clareza. Posso até afirmar, com convicção,
que foi nessa noite que deixei de ser criança. E eu tinha apenas 19 anos!
Compreendi, desde então, que o mundo não era aquela maravilha que eu pensava
que fosse (e que ainda sonho que um dia possa vir a ser).
Lembrei-me de uma crônica de Luís
Martins, publicada na seção “Primeira Coluna” – que ele assinava diariamente no
jornal O Estado de São Paulo – em 14 de dezembro de 1963, que diz: “A noite é
um grande mistério. É durante a noite que a vida toma novas formas, que os
seres e as coisas se modificam”. E o cronista arremata dessa forma esse
magnífico texto: “Assim a noite, sendo incubadora de vida – as flores abrem, as
crianças crescem – é também um laboratório de ruínas. É durante a noite que os
doentes graves pioram; é durante a noite que a morte caminha sorrateiramente em
direção às suas presas, com a cumplicidade das sombras e do silêncio, como um
verme voraz, numa lenta obra de destruição, que só é levada a termo com o
completo extermínio do objeto destruído”.
Creio, pois, que isto explica, mesmo
que em parte, a razão do meu fascínio e, simultaneamente, do meu temor pelas
noites, período em que, por sinal, meus melhores textos foram “gestados”. Eles
nasceram no silêncio às vezes sepulcral das altas madrugadas, rompido, apenas,
de quando em vez, pelo latido distante de um cão ou pelo ronco de motor de
algum carro, de qualquer noctívago, à procura do que só Deus sabe.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
A minha mãe, que foi obstetra durante 28 anos me dizia que nasciam mais crianças durante a noite, que durante o dia. Mais um acréscimo a instigante lista citada, do crescer e do apodrecer. Não sei se isso procede. Nunca pesquisei. Gostei muito de acompanhá-lo, Pedro, nesta fascinante viagem, impossível agora. Em 1981 meu marido e eu andávamos pelo centro de Belo Horizonte, nas mesmas condições citadas. Não havia medo algum.
ResponderExcluirReparo: a palavra "viado" para se referir aos hoje chamados gays vem de transviado, e por isso deveria ser escrito com "i". Ou esse raciocínio não procede?