Pela vidraça
* Por Pedro J. Bondaczuk
A poesia, para ser válida e gerar os efeitos pretendidos,
tem que ser uma coisa viva. Precisa pulsar, ser ágil, nervosa, vibrante. Manoel
Bandeira escreveu acerca da sua forma de expressão:
“Meu verso é sangue. Volúpia ardente.
Tristeza esparsa...remorso vão
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
cai, gota a gota, do coração”.
Assim são os poemas do novo livro do amigo e acadêmico
Uassyr Martineli, Pela Vidraça. A obra é a 48ª das publicações da Academia
Campinense de Letras e vem em boa hora, num momento atípico da vida nacional,
caracterizado pela violência, pela fome e pela angústia.
O volume todo transpira poesia, que escorre por suas
páginas, se espalha pelas mãos, penetra pelos poros e vai fundo ao coração.
Produz um impacto, leva a pensar, mas é sobretudo sentimento. Logo nos
primeiros versos, do poema que abre o livro e lhe dá título, “Pela Vidraça”, o
leitor é convidado, sem cerimônia, a fazer um passeio pela alma de um mago, acostumado
a jogar, com rara maestria, com nossos sentimentos:
“Pela vidraça
da casa de uma janela só (na sala de
pouca luz)
entraram
--- abafados, surdos – os gritos
e os risos
das crianças a brincar
com o último pedaço de tarde”.
Lindos versos.
Líricos, lúdicos e ao mesmo tempo sérios.
E o livro todo, poema a poema, página a página, mantém o
mesmo ritmo, sem jogos de palavras cifradas e nem trucagens típicas de quem
quer se passar por poeta. Uassyr não precisa disso. Pelo contrário, tem o
mérito da clareza, da lapidação do verso, que expurgado de impurezas
vocabulares, brilha com a intensidade de um diamante do mais elevado quilate.
Exagero? Longe disso!
O leitor mesmo pode comprovar o que afirmamos ao ler, por
exemplo, “Pássaros”:
“Dois pássaros voaram no céu
mas o pássaro de alumínio
subiu mais alto
e foi mais longe,
porque ele era mais forte
--- era de alumínio
era de ferro
e era de aço.
Um dia
o pássaro que não era de alumínio
virou luz
e voou então mais alto
e voou então mais longe
porque ele era mais forte
do que o pássaro de alumínio,
--- não era de alumínio
não era de ferro
e nem era de aço”.
Isto é poesia!
E os temas? Pode haver algo mais oportuno, nos dias que
correm, do que esta “Ladainha da Fome”?:
“Com a mão firme
com a caneta de tinta preta
seca
porosa
em letra de forma
atestou
causa mortis: fome.
Foi
por isso
repreendido
(mas continuou
a atestar
causa mortis: fome
causa mortis: fome
causa mortis: fome).
(Com a mão firme
com a caneta de tinta preta
seca
porosa
em letra de forma
causa mortis: fome).
Foi
por isso
demitido
da Secretaria Municipal de Saúde
da Secretaria Estadual de Saúde
do Ministério Federal de Saúde
causa mortis: fome
com a mão firme
com a caneta de tinta preta
seca
porosa
em letra de forma
causa mortis: fome.
Ave Maria
cheia de graça
causa mortis: fome
causa mortis: fome”.
Paulo Mendes Campos escreveu, numa de suas últimas crônicas,
que “o poeta não se serve das palavras, é seu servidor”. Assim é este mágico
que retém em versos um pôr-do-sol, eterniza instantes fugazes, transformados em
jóias, colhe lírios da mais imaculada brancura mesmo nos pântanos mais lodosos
e assustadores das paixões e dos sentimentos do bicho homem. Pela Vidraça é um
livro imperdível para os amantes da poesia. E quem não é?
(Capítulo do livro “Por uma nova utopia”, Pedro J.
Bondaczuk, páginas 95 e 99, 1ª edição – 5 mil exemplares – fevereiro de 1998 –
Editora M – São Paulo).
* Jornalista, radialista e
escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes
Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular
onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio
Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia”
(ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal”
(contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio
de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
Seu comentário sobre o livro formou um poema em prosa. Ficou bonito.
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