A despedida
* Por
Pedro J. Bondaczuk
- Ouçam! É o Lucas que
virou, de novo, lobisomem – afirmou, convicto, o moleiro Manoel, a respeito de
um conhecido nosso, que já havia trabalhado, há uns dois anos, na fazenda do
meu avô.
A reação foi provocada
pelo uivo desesperado e lúgubre de um cão nas proximidades da casa. Era
sexta-feira, de uma noite qualquer de agosto de 1947, nos arredores de Santa
Rosa, interior do Rio Grande do Sul. A Lua Cheia brilhava intensamente no céu,
com seu clarão iluminando as casas e as ruas sem calçamento e sem iluminação
pública, criando cenário propício para alimentar crendices e superstições
daquela gente humilde e simples.
- E você acredita
nessas bobagens? – perguntou meu pai, homem esclarecido e cético que zombava da
superstição do amigo.
- Não só acredito,
como já vi o Lucas transformado em lobisomem, seu Francisco - respondeu. -
Corri o quanto pude. Desafiar esse tipo de criatura não é coragem, mas burrice
– acrescentou, tentando se justificar.
Meu pai limitou-se a
gargalhar, daquele seu jeitão franco e espontâneo, com a risada ecoando por
todos os cômodos da casa. Apesar do adiantado da hora, ele não baixou o tom de
voz. Esse, aliás, sempre fora seu costume, para desespero da minha mãe, dona
Lúcia, pacata e sossegada, que pigarreou de um dos quartos, numa espécie de
censura. Afinal, não estávamos em nossa casa. Era preciso mais respeito com
quem queria dormir.
O alarido acordou a
esposa do Manoel que, estremunhando, vestida com um robe desbotado, de um tom
rosa pálido, que já conhecera melhores dias, foi para a cozinha, assustada,
saber o que estava acontecendo. Eu, da minha parte, não havia conseguido
conciliar o sono. Estava elétrico, tenso e excitado com o que me esperava nas
próximas horas. Ouvia toda a conversa e ria, com meus botões, das tolices do
moleiro.
Meu pai, para não
magoar o amigo, com o qual já tivera inúmeras discussões a propósito desta e de
outras lendas locais, mudou, estrategicamente, de assunto. Perguntou, como quem
não quer nada, quais eram as novidades da cidade grande.
Enquanto isso, a
mulher, dócil e submissa, apressou-se em preparar um chimarrão para todos.
Colocou, com paciência e perícia, a erva na cuia, enquanto aguardava a água da
chaleira ferver no fogão a lenha. Além do meu pai e do Manoel, participavam da
conversa os dois filhos mais velhos deste, Malaquias e Fabiano. Ambos, porém,
pouco falavam. E quando o faziam, limitavam-se, meramente, a confirmar as
palavras do pai. Santa Rosa, esclareça-se, naquele tempo, perto de onde
morávamos – um novo e pacato distrito, cujo vilarejo central consistia somente
de duas ou três ruas de terra batida, se tanto, chamado de Horizontina, caracterizado
pela colonização de imigrantes provenientes do Leste europeu, na maioria russos
e ucranianos – era verdadeira metrópole, embora não tivesse nem trinta mil
habitantes.
Estávamos na casa do
moleiro porque pela manhã, exatamente às cinco horas, embarcaríamos, eu e minha
mãe, para São Paulo. Iríamos na frente, enquanto meu pai ficaria mais algum
tempo em Horizontina, para vender nossos parcos bens, antes de seguir
definitivamente para a cidade que, para nós, era a Meca das oportunidades, a
possibilidade de mudarmos de vida, nos ilustrarmos, termos, enfim, um futuro
que sonhávamos fosse radioso e progressista.
Já passava da
meia-noite. Tinha, portanto, menos de cinco horas para conciliar o sono, antes
de nos trocarmos, fazermos as respectivas despedidas e embarcarmos rumo ao que
era, pelo menos para mim (na verdade para todos os que estavam na casa)
desconhecido. Aquela viagem, há tantos meses planejada, tinha, para o garotinho
sapeca e esperto, que os pais pretendiam que fosse, um dia, médico, engenheiro
ou advogado, o sabor de fascinante aventura.
Eu imaginava São Paulo
muito diferente do que era. Jamais havia visto cidade maior do que Santa Rosa
e, na minha imaginação, este era o meu parâmetro de grandeza. Imaginava a
metrópole paulista, que “não podia parar” (conforme já era seu slogan) como um
grande vilarejo, nada mais do que isso. Sequer sonhava com ruas tão apinhadas
de carros, com multidões indo de lã para cá em permanente correria, com tanto
barulho e fumaça.
Arranha-céus? Nunca
tinha visto nenhum. Se me dissessem que existiam, e que eram tantos e tão
altos, ficaria irritado com quem me dissesse, certo de que estivesse tentando
me enganar. A maior casa que eu já vira era um sobrado no centro de Santa Rosa,
de propriedade de um comerciante alemão. E já considerava uma exorbitância, um
exagero.
Enquanto, excitado, eu
dava asas à imaginação, a conversa na cozinha continuava mais animada do que
nunca, com a voz do meu pai se destacando entre as demais. Conversavam, agora,
sobre política, sobre a necessidade da volta de Getúlio Vargas ao poder. Embora
houvesse consenso entre os amigos a esse respeito, a conversa mais parecia uma
discussão do que um diálogo, tamanha a ênfase que cada qual punha em suas
respectivas opiniões.
Meu pai era getulista
ferrenho. Considerava-o “o pai dos pobres” e sentia-se órfão com seu
afastamento temporário da política. Manoel também era adepto do caudilho, mas
manifestava certo tom de crítica, relativa mágoa até pelo fato do matreiro
político pouco ter feito pelo Rio Grande do Sul, principalmente pela região de
Santa Rosa, conforme seu entendimento.
Meu pai discordava,
claro. E dessa discordância nascia a discussão que, embora acalorada, não
deixava de ser cordial, por paradoxal que pareça. Afinal, naquela roda todos se
estimavam e se consideravam, de certa forma parentes, mesmo sem que o fossem.
Ademais, essas discussões eram costumeiras, freqüentes, diria que semanais,
pois se repetiam sempre que meu pai e o moleiro se encontravam, quer em sua
casa, em Santa Rosa, quer na nossa, em Horizontina.
Excitado, eu estava
dividido. Tanto ouvia a conversa dos adultos, quanto imaginava como seria essa
São Paulo de que meus pais tanto falavam, e com tamanha esperança, na verdade
certeza de uma vida melhor. Na época, não me passava, nem remotamente, pela
cabeça que aqueles seriam os derradeiros momentos que eu passaria na minha
terra natal. Que, embora bem sucedido na grande metrópole, um dia sentiria
tamanha saudade dos campos verdes de Horizontina, das pacatas ruas de Santa
Rosa e, principalmente, daquela gente tão amiga e tão querida, que nem sei que
fim levou.
- Mãe, como é São Paulo – perguntei em
determinado momento, esperando uma explicação que satisfizesse, pelo menos um
pouco, minha intensa curiosidade.
- Você está acordado,
menino?! – disse minha mãe, em tom de severa reprimenda.
– Você deveria estar
dormindo. Daqui a pouco vamos viajar e não quero que você me dê nenhum
trabalho, ouviu? – completou, em tom de ameaça.
Fiquei quieto, por
medo de levar algumas palmadas. Claro
que, mesmo que quisesse, não conseguiria dormir. Quem conseguiria? Com tanta
novidade à minha espera, era impossível me desligar, por um momento que fosse,
e atender à sábia recomendação (na verdade, enfática ordem) da minha mãe.
Continuei ouvindo a
conversa dos adultos. Ouvindo, sem ouvir. Ou seja, sem atentar para os assuntos
tratados. Eu estava com a mente em outros mundos, ou melhor, no “futuro”,
tentando adivinhar como era essa São Paulo, da qual diziam tantas maravilhas,
onde a família previa que teria vida melhor. Antes de me dar conta, chegara a
hora de levantar e se preparar para a longa viagem de trem, de três dias.
Ficaríamos, eu e minha
mãe, hospedados na casa dos meus avós maternos, que residiam na metrópole
paulista, até que meu pai liquidasse nossos parcos bens em Horizontina e fosse
ao nosso encontro, com dinheiro que ele julgava suficiente para comprar uma
casinha, mesmo que modesta, na periferia de São Paulo.
Depois de um reforçado
desjejum, fomos para a estação. Meus tios e avós paternos não estavam presentes
para as despedidas. Mas o moleiro e a família estavam. Embarcamos, eu e minha
mãe, com mil recomendações do meu pai para que tivéssemos cuidado e,
especificamente para mim, para que me comportasse. Não entendi muito essa
advertência, mas prometi que seria bonzinho.
O trem, após agudo
apito, começou a distanciar-se da plataforma. Ante os meus olhos extasiados,
desfilam os belos campos da minha terra natal, que nunca mais veria. O som das
rodas do vagão nos trilhos, monótono e repetitivo, pareceu-me uma canção de
ninar. E teve, mesmo, esse efeito. Nem a excitação, nem a precoce saudade das
pessoas queridas que ficaram para trás, foram suficientes para manter-me
desperto. Quando dei por mim, minha mãe me chamava para fazermos baldeação. Já
estávamos no Estado do Paraná e eu dormira o dia todo. Foi assim que me despedi
da terra natal...
Observação:
O conto acima é fruto
de uma experiência que venho fazendo, há já algum tempo, com o objetivo de
desenvolver um novo estilo de narrar ficção. Misturo dados reais com
personagens e situações absolutamente fictícios, o que confere maior
verossimilhança (suponho) às narrativas. Verdadeiro, no caso, é o narrador (eu,
claro). A narrativa é sempre na primeira pessoa e as características que
registro a meu respeito são todas reais, assim como os cenários descritos.
Todavia, todos os personagens e situações, reitero, são rigorosamente
fictícios, inventados, criados pela minha imaginação, posto que cuidadosamente,
para que pareçam verídicos. Este é o caso típico em que se impõe, ao cabo de
cada história, este aviso ao leitor: ESTA É UMA OBRA DE FICÇÃO. QUALQUER
SEMELHANÇA COM FATOS E PESSOAS REAIS É MERA COINCIDÊNCIA. E creiam-me: de fato
é.
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas
(atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e
do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma
nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
Um bom treino, que me convenceu até chegar a explicação/observação, que não me pareceu real.
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