Doença não reduziu a produção de
Humberto de Campos
A doença que acometeu Humberto de Campos (a acromegalia),
descoberta, tardiamente, em 1928, e tratada inadequadamente, dados os parcos
recursos médicos de então, influenciaram no teor da sua produção literária.
Pudera! A maioria dos escritores, em situação idêntica, sequer continuaria
escrevendo. Se já não é nada fácil escrever quando estamos saudáveis e “vendendo
saúde”, imaginem fazê-lo com qualquer tipo de dor, mesmo que se trate de
simples e trivial dorzinha de cabeça! É um horror! Recorde-se que então não
havia nem sonho de computador, essa maravilha tecnológica que facilita tanto a
tarefa dos redatores atuais. Os textos, naquela primeira metade do século XX,
eram “arrancados na unha”, redigidos, a maior parte deles, à mão. As revisões,
os cortes e os acréscimos na fase de acabamento eram um drama. Cada modificação
feita exigia que tudo o que havia sido escrito fosse copiado novamente. Um simples
texto, que hoje demanda quinze minutos, se tanto, do redator experiente, exigia
horas e horas de concentração e de labuta.
Mesmo as máquinas de escrever de então estavam anos-luz de
distância da praticidade das que tínhamos nos anos 90 do século passado, quando
os computadores pessoais começaram a se popularizar e elas viraram peças de
museu. Eram grandonas, porém frágeis, e quebravam com a maior facilidade. Ora
era alguma letra que se soltava da solda e que precisava ser reparada. Ora era
a fita que dava problema. Isso sem contar que eram barulhentas e tiravam a
concentração do redator. Os meios disponíveis de redação eram ineficientes e
irritantes em condições normais, quando nada e ninguém incomodavam. Imaginem o
tormento de ter que redigir textos – e não somente um, mas vários punhados
deles, e todos os dias, para atender compromissos inadiáveis – sentindo-se
indisposto e, pior, com alguma dor incomodando! Uma vez ou outra, qualquer
redator consegue essa façanha. Mas por semanas, meses e anos?!! São
pouquíssimos!
É mais um motivo (para mim, o principal) para valorizar ainda
mais a obra de Humberto de Campos. A doença afetou o teor de seus textos?
Provavelmente, sim! Pudera! É uma influência até subconsciente. Seus temas, nos
seis anos que teve que “conviver” com a doença, foram mais sombrios, mais
pessimistas, mais críticos. Alguns contos, inclusive, lembram (posto que
remotamente) os assuntos tratados pelo norte-americano Edgar Alan Poe. Todavia,
a acromegalia não o fez reduzir a produção, pelo contrário. Afinal, tinha que
fazer face às crescentes despesas decorrentes da doença (médicos, remédios etc.etc.etc.).
E quem conhece sua obra sabe que seus problemas de saúde não influenciaram em
nada a “qualidade” do que escreveu. Seus livros continuavam vendendo aos borbotões,
mesmo com o pessimismo que impregnou seus enredos e apesar dos temas sombrios que
abordou. Metade da sua obra foi produzida nos seis anos em que a doença o
atormentou (e acabou abreviando, em muito, sua vida).
Apesar de haver publicado por volta de duas dezenas de
livros nesse período, muita coisa ficou inédita. Tanto isso é verdade, que
diversas editoras – entre as quais me lembro da José Olympio, da Mérito, da W.
M. Jackson e da Opus – lançaram sucessivas edições de suas “obras completas”
até 1983. Completas?! Acho que não. Estou convicto que há muitos e muitos e
muitos textos de Humberto de Campos ainda inéditos, suficientes para preencher pelo
menos meia dúzia (ou mais) de volumes. O escritor maranhense passou a
preocupar-se, por exemplo, com a morte, que pressentia iminente. Criou
personagens rejeitados pela sociedade por deficiências que o preconceito social
considerava “monstros”.
Pincei, por exemplo, em um de seus livros (“Um sonho de pobre”,
de memórias, póstumo, publicado em 1935), um texto que considero revelador
desse seu período de angústia. Seu título é “Reflexões sobre a morte”. Está na
página 17, capítulo 2, em que escreve:
“--- Mestre, o que é a morte? – pergunta a Confúcio, um dia,
um de seus discípulos.
E o filósofo:
--- Como poderemos nós saber o que é a morte se ainda não
sabemos o que é a vida?”.
Porventura sabemos? Claro que não! Há milhões de conjecturas
e de teorias a respeito, mas saber, saber mesmo, sem sombra de dúvidas, ninguém
sabe. Todavia, nesse mesmo livro, ele, que sempre foi tido e havido como implacável
e ácido crítico do comportamento do nosso povo, traçou um perfil sumamente
positivo do brasileiro comum. Foi no texto intitulado “O príncipe encantador”,
página 148, capítulo 20, primeiro parágrafo. Escreveu: “Nenhum povo da Terra é
tão acentuadamente democrata como é o brasileiro. As condições da vida e da
formação política nivelaram, aqui, as raças, as castas, os indivíduos. Por mais
simples, mais pobre, mais humilde, nenhum homem se sente inferior ao seu
vizinho. O sentimento de igualdade prometido nas leis permanece real, perfeito,
inalterável, no fundo das consciências. Só se curva, entre nós, quem se quer
curvar. A subserviência é, aqui, facultativa e só a exerce quem tem,
efetivamente, a volúpia da servidão”. Só não sei se Humberto de Campos
escreveria tudo isso sobre a geração atual de brasileiros, em um Brasil vivendo
mais uma de suas tantas e periódicas crises institucionais. Acredito que não!
Boa leitura!
O Editor.
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