Keith Richards - a regeneração
* Por
Marcelo Sguassábia
O Keith Richards que o
mundo conhece, ou imagina conhecer, é mais que uma celebridade que tem simpatia
pelo capeta. Faz muito tempo que esse Keith, um modelo de perdição física e
espiritual, já não existe mais. Acreditem: essa é a pura verdade. Mais pura que
o pó branco que quase arruinou sua vida e por pouco não o levou, ainda nos anos
60, para os quintos dos infernos.
Há um novo homem
vivendo dentro de uma carcaça carcomida, totalmente liberto do pecado, mas que
é obrigado – por contrato – a fingir que é um coquetel ambulante de cocaína,
álcool e barbitúricos. A sua libertação foi tão completa que hoje não suporta
nem mesmo aquele cigarro no canto da boca, que é forçado a ostentar em todos os
shows. Uma encenação mesquinha, uma blasfêmia aos olhos do Criador.
O que ele queria
mesmo, para a glória dos céus, era transformar a “Satisfaction” em
“Ressurrection”. Mudando, é claro, aquela letrinha tola e egoísta e fazendo
dela um hino de louvor. Forte e poderoso, capaz de exorcizar tudo quanto é
coisa ruim. Seria uma espécie de acerto de contas entre o novo e bem-aventurado
Keith e aqueles excessos loucos do passado.
Quando eu falo em
“novo Keith” é preciso deixar claro que ele não é tão novo assim. A grande
mudança de vida aconteceu mais ou menos na época em que “Start me up” estourava
nas paradas, lá no começo dos 80. Imaginem vocês o conflito entre o eu
limpinho, regenerado, totalmente liberto do pecado e das drogas e aquela imagem
de devassidão libertina que ele precisava manter para que os Stones continuassem
sendo os Stones.
Deus sabe quantas
foram as vezes em que tudo o que ele queria era passar horas ajoelhado em
fervorosa oração, mas era coagido a subir em diabólicos palcos pelo mundo
afora, fazendo turnês atrás de turnês e mostrando ao show-business uma imagem
que não era mais a dele. Keith tentava convencer o Mick a transformar o grupo
em uma superbanda Gospel, oh Senhor, como seria divino se isso um dia
acontecesse... Mas aquele ateu incorrigível ria e debochava toda vez que ele
tocava no assunto. Mostrava a língua, as nádegas e o maldito contrato que o
obrigava a ir em frente com o teatrinho.
É claro que, ao
assumir uma imagem de regeneração, os Stones perderiam grande parte dos fãs
acumulados em mais de 50 anos. Mas ganhariam certamente uma legião de fiéis
convertidos à causa da caridade cristã. E essa atitude talvez os redimisse do
erro de terem tomado a estrada errada, onde quanto mais enchiam sua conta
bancária mais se esvaziavam como seres humanos.
Lembro que uma vez,
numa madrugada chuvosa, Keith ligou para o Mick falando da visão que acabava de
ter, onde incorporavam em seus gigashows uma enorme piscina de 250x250m, cheia
de água abençoada, na qual batizavam milhares de ovelhinhas a cada
apresentação. Só que Mick mais uma vez não levou Keith a sério, dizendo que a
sua visão devia ser efeito retardado de alguma viagem de heroína. Mandou um
rouco “fuck you” e bateu o telefone na cara dele. Mas deixa estar. O
Todo-Poderoso, em sua misericórdia, há de levá-lo um dia ao caminho da
salvação.
Esta é uma obra de
ficção. Por mais que o Keith jure ser verdade.
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Uma grande viagem da sua imaginação criativa e original.
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