Rompante desnecessário
* Por
Luiz de Aquino
A sociedade anda mal:
omissa, alheia, depressiva, arrogante, desinteressada, rude, pagã,
mal-educada... E esse é o resultado do mal-estar que assola os indivíduos da
espécie – insegurança, medo, desconfiança, avareza, egoísmo, mesquinhez... Obviamente
que há grupos organizados com grandeza de propósitos, grupos esses em que,
felizmente, predomina o afã pelo bem-fazer, pelo desejo de interação e a força
da solidariedade – princípios esses que norteiam a caridade (não a caridade
soberba de quem apenas oferece esmolas, mas de quem quer ver a melhoria latente
em cada semelhante).
O ser humano, aqui e
alhures, perdeu o discernimento, não se constrange por ser medíocre e não se
peja por ser apanhado em mentiras, haja vista o tom dominante nos meios em que
o dinheiro e a política – as mais expressivas faces de poder – regem os
destinos de quase todos.
Tem sido assim nas
campanhas políticas dos três níveis de governos, no Brasil, nas relações
interpartidárias da velha Europa, nos comitês esportivos que “fazem chover” nas
Copas do Mundo e nos Jogos Olímpicos. E foi assim nas mais recentes campanhas
políticas em quase seis mil municípios brasileiros, mas nada como se soube, se
viu e se leu quanto à sucessão de Barack Obama, nos “isteites”.
A América (o país)
parece bastante familiarizada com as falsetas praticadas por Republicanos e
Democratas. Suas campanhas lembram grandes encenações, eventos do faz-de-conta
holyoodiano (engraçado isso de se produzir uma palavra com a raiz da língua
inglesa finalizada por sufixos do nosso bom e familiar português). – Uma
pantomima!
Volto aos nossos
cenários o ambiente brasilis, com os flagrantes das falsetas da campanha
presidencial de 2014. Aprendemos naquelas várias séries de fatos, de ambos os
pretendentes ao Palácio do Planalto, que não se constrange mais quando se é
flagrado em mentiras que não convencem sequer uma folha de papel em branco,
onde nós, escribas, forjamos emoções, criamos personagens e fatos, inventamos
verdades (sim, porque criar verdades é ofício de autores literários,
roteiristas e teatrólogos, mas os políticos têm nos suplantado nisso).
E surgem Cunhas,
Renans, Jucás e Falcões a lançar na mídia – essa mesma que eles dizem odiar e
culpam-na pelas mazelas que deles somente noticiamos – suas bravatas
inaceitáveis pelos ouvidos que formam a opinião pública, mas que se unem às más
intenções de seus pares e essas safadezas acabam se tornando leis, que o
Judiciário se vê obrigado a aplicar.
Talvez estimulado
pelos maus exemplos do presidente do Senado, o alagoano Renan, o secretário
goiano da Segurança Pública insurge contra ações da Polícia Federal que quis
ouvir policiais suspeitos de formar e integrar grupos de extermínio o que o dr.
José Eliton desmente com firmeza e fervor. Tudo bem, pode não haver grupos –
mas há pessoas exterminando pessoas, mas as polícias estaduais não sabem quem
são as que exterminam (sabem, sim, quem são os mortos).
Reação como aquela de
veemente defesa de um oficial sob suspeita constrange-nos – a nós, goianos, que
nos empenhamos por demais em melhorar esta terra, esta sociedade e a nossa
imagem, tão avacalhada lá-fora. Recordo-me do ministro Henrique Hargreaves, da
Casa Civil do presidente Itamar Franco, que se desligou espontaneamente do
cargo para permitir a livre investigação.
O coronel comandante
do Policiamento da Capital, pelo que se sabe, foi absolvido em alguns processos,
mas outros há em andamento. Imagino que seja do interesse dele responder – e
livrar-se – das demais suspeitas, sim! Mas a defesa ostensiva, com tom de mero
corporativismo, isso não cai bem na opinião pública, sobretudo quando a nação
em peso deposita esperanças na Polícia Federal com uma das principais
ferramentas para se limpar as instituições públicas.
Torço, como bom goiano
e bom brasileiro, para que os nossos policiais militares indiciados pela
Federal provem inocência e reassumam seus postos, precisamos muito deles. Mas
gostaria de ver as autoridades de nosso Estado contribuindo para essa tão
sonhada depuração. Ainda que haja, em todo grupamento humano – e as
instituições policiais não estão isentas – uma faixa de 5% de profissionais
incorretos, tais instituições merecem nosso respeito, sim, e espero que não se
detectem mesmo grupos de extermínio em nossas polícias.
A defesa prévia, ao
meu ver, não é um procedimento que vem engrandecer nossas autoridades.
*
Professor, jornalista e bancário. Tem vinte livros publicados, está em dezenas
de antologias de prosa e de poesia, presidiu a União Brasileira de Escritores
de Goiás, é membro efetivo da Academia Goiana de Letras e de outras academias
(de abrangência municipal).
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