O escritor brasileiro dos heterônimos
A obra literária de Humberto de Campos é assombrosa, vastíssima
e copiosa o que, no caso desse escritor, desmente a constatação de que
raramente a qualidade acompanha a quantidade, em qualquer atividade humana e
muito menos na Literatura. Reproduziu, no Brasil, guardadas as devidas
proporções, o que Fernando Pessoa fez em Portugal. Ou seja, lançou mão de pelo
menos oito pseudônimos em sua obra, que podem ser comparados aos heterônimos do
magnífico gênio lusitano. Não tenho em mãos sua bibliografia completa, mas
estou convicto que ele publicou (ou outros publicaram dele) pelo menos quatro
dezenas de livros. Uma quantidade considerável deles foi publicada
postumamente. Até não faz muito, volta e meia alguma editora lançava um novo
livro, inédito, de Humberto de Campos. Desconfio que se algum pesquisador
arguto se dispuser a pesquisar sua produção de textos em jornais, obterá material
mais do que suficiente para a publicação de uma quantidade bastante razoável de
novas obras, das que jamais publicadas. E todas de excelente qualidade.
Ocorre que pouquíssimos redatores – se é que houve algum que
se lhe comparasse – tiveram tanta visibilidade na imprensa escrita quanto esse
maranhense talentoso e criativo. Ainda mais escrevendo textos literários, como
crônicas, contos, críticas de livros, memorialismo e vai por aí afora. Hoje,
então, quando os escritores de ofício foram praticamente “banidos” das redações
de jornais, não há termos de comparação. Provavelmente está aí a explicação
para o fato de Humberto de Campos nunca ter escrito (e nem publicado) um único
romance, obra de fôlego que demanda tempo para ser escrita. E isso era o que
menos esse jornalista obcecado tinha: tempo Nos primeiros anos, essa assombrosa
produção deveu-se ao fato dele ser “novidade”, tanto na imprensa, quanto na
Literatura. Suas crônicas e contos surpreenderam, pela alta qualidade, tanto os
leitores quanto os donos de jornais. E “choveram” solicitações de todas as
partes do País, que ele se prestou a atender. Isso até 1930 quando, já doente,
mas esbanjando prestígio, Humberto de Campos escrevia, escrevia e escrevia,
mais por deleite, e não por necessidade.
A partir da tomada do poder por parte de Getúlio Vargas,
isso mudou drasticamente. O então popularíssimo jornalista, escritor e político
maranhense teve o terceiro mandato consecutivo na Câmara de Deputados cassado
pelo caudilho gaúcho. Ficou, portanto, sem o salário de parlamentar que, bem ou
mal, era considerável fonte de receita (embora naquele tempo nem mesmo fosse
tão “polpudo” quanto os dos representantes do povo atuais). Além disso, havia a
doença, que evoluía a olhos vistos, e exigia gastos e mais gastos com médicos,
farmácia etc.etc.etc. Isso sem falar na família, mulher e três filhos, cujas
despesas, convenhamos, não são nada
modestas, por mais econômicos que seus membros sejam.
Subitamente, Humberto de Campos entrou em uma fase de
grandes dificuldades financeiras. Por mais que vários jornais que lhe
solicitassem textos – e estes não diminuíram, mas aumentaram – os ganhos que
obtinha com o jornalismo eram insuficientes para pagar sequer metade de suas
contas. Foi quando a providencial ajuda dos amigos livrou-o do sufoco
financeiro. Por interferência direta de alguns integrantes do Governo
Provisório, que tinham profunda admiração por seu talento, Humberto de Campos
foi nomeado Inspetor de Ensino no Rio de Janeiro. E, meses mais tarde, foi
alçado ao posto de diretor da Fundação Ruy Barbosa. Esses dois novos empregos
aliviaram sua situação econômica, mas (óbvio) não diminuíram sua carga de
trabalho. Pelo contrário, aumentaram-na, e muito. E justo numa época que a
doença fazia escalada já não de um mês para outro, mas de um dia para outro. Imaginem
seu sacrifício, tendo que escrever crônicas e mais crônicas, contos e mais contos,
não raro entrando pela madrugada, com a visão a cada dia pior, enxergando,
crescentemente, menos! É isso que eu mais valorizo nele. Ou seja, a sua garra,
o seu espírito de luta, a sua determinação de jamais se entregar, enquanto
pudesse resistir.
O mais notável de tudo isso é que, apesar desses obstáculos,
tanto de ordem física, quanto psicológica, a qualidade de sua produção não
sofreu o menor “arranhão”. Não sei se no lugar dele eu conseguiria essa façanha.
Provavelmente, não, embora seja apaixonado, vidrado, obcecado pelo texto quer
jornalístico (embora não tanto), quer literário (sobretudo). Humberto de Campos
assinou, como citei no início destes comentários, muitas crônicas e contos com
pseudônimos. Em minhas pesquisas detectei oito deles, embora possa ter escapado
algum. Guardadas as devidas proporções, reitero, comparo-os aos heterônimos de
Fernando Pessoa. É verdade que não fez como o escritor português que, para cada
um deles, “criou” uma personalidade própria, com estilos de escrever completamente
diferentes um do outro. Os pseudônimos utilizados por Humberto de Campos foram (salvo
algum engano meu): Conselheiro XX, Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João
Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios.
Por tudo isso (e mais o que pretendo trazer à baila
oportunamente) é que esse jornalista, político e escritor foi personagem único,
sem similar, quer no jornalismo, quer na política e quer, principalmente, na Literatura.
Conseguiu “casar” quantidade com qualidade, tendo que superar obstáculos como
raríssimos já enfrentaram em suas vidas. Não pode, pois, ser esquecido nem por
esta geração e nem pelas que hão de vir algum dia.
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Agradeço por nos fornecer essa viagem, Pedro.
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