Uniforme
* Por
Gustavo do Carmo
O Externato Santa Madre de Deus sempre
foi extremamente rigoroso com o uniforme dos seus alunos. As cores eram as
mesmas para meninos e meninas: camisa ocre, calça ou saia cinza, calçados
pretos e adereços verdes. Para a educação física, camisa branca com golas e
bainha de manga azuis-marinhos, bermuda azul marinho e tênis e meias brancos.
Os detalhes variavam de acordo com o
sexo. Os meninos usavam camisa abotoada com seis botões, obrigatoriamente posta
para dentro da calça. A gravata tinha que estar bem no centro do tórax e se
estender até um centímetro de distância da cintura. E sua ponta deveria formar
uma seta. A calça deveria ser mantida na cintura com um cinto preto com fivela
dourada (de alumínio), bem polida, com o brasão da escola gravado, e alinhada
no centro.
As meninas usavam camisa do mesmo tipo,
mas tinham um botão a menos e teriam de ter uma renda na altura dos ombros. A gravata
era mais curta, com ponta reta, devendo terminar na metade do peito e possuir
dois laços na altura da gola. Além de suspensórios fixados na cintura da saia e
passando pelos ombros. Também era obrigatório colocar a barra da camisa para
dentro da saia pregada (dois centímetros cada vinco), que deveria cobrir
totalmente os joelhos.
Meias caneladas até os joelhos eram
usadas por ambos os sexos. No entanto, eles usavam pretas e elas bege. Sapatos
e sapatilhas pretos deveriam ser totalmente lustrados até ficarem brilhantes.
Não poderia haver um único friso branco no uniforme. Até a caderneta teria que
estar totalmente guardada no interior do bolso, obrigatoriamente no lado
esquerdo do peito. A camiseta de educação física dos meninos era regata e a das
meninas tinha uma pequena manga.
O aluno que estivesse com uma orelha da
barra da camisa para fora da calça, um botão faltando, a gravata mal amarrada e
desalinhada, assim como o cinto e o suspensório, era terminantemente proibido
de entrar na escola. E ainda suspenso por um dia. Na reincidência, ficava uma
semana em casa. Na
segunda, um mês. Na terceira, expulsão. Não adiantava desobedecer as regras
para ficar em casa por um dia ou uma semana e depois andar na linha para dar
tempo às freiras esquecerem da punição. A infração era registrada em livro,
mesmo se fosse reincidida no ano seguinte.
O uniforme era apenas um detalhe da
disciplina rígida do Externato Santa Madre de Deus. Faltas pessoais sem
apresentação de atestado médico, não-apresentação do dever de casa e atrasos
também rendiam punições. Alunos flagrados brigando ou namorando eram expulsos
sumariamente. A fiscalização era feita com prazer pela Madre Tereza, totalmente
oposta a sua xará indiana. Sentia um orgasmo ímpar quando flagrava alguém
desrespeitando as regras. Principalmente
quando não se olhava nos sapatos mal engraxados e fivelas sem polimento.
Quem sofria muito com isso era Tayla.
Ela se arrumava tanto para respeitar as regras do uniforme que ficava
paranóica. Penteava o cabelo de cinco a dez vezes antes de sair para a escola.
Para desespero da mãe que tinha muito trabalho para arrumar o seu rabo de
cavalo, que também teria de estar impecável.
Tayla era sempre barrada na porta da
escola por causa do seu cabelo desalinhado e também por defeitos mínimos no
uniforme. Só não era suspensa, e posteriormente expulsa, porque era uma ótima
aluna. Tirava dez em tudo, apesar da pressão psicológica que sofria por causa
do uniforme. Tinha como punição ouvir o sonoro sermão da madre Tereza. Ouvia
tudo sem retrucar e acatando as ordens com um submisso “Sim, senhora”.
Nos finais de semana, quando se reuniam
na sorveteria, no cinema ou no shopping, os alunos mal se reconheciam sem
uniforme. A rigidez era tanta que pareciam estar nus quando vestiam roupas
comuns.
E a geração dos anos 1980 do Externato
Santa Madre teve sorte. Quem estudou lá até os anos sessenta ainda tinha que
usar boina. A dos meninos posicionada no meio da cabeça e a das meninas na
diagonal. Sem falar no uso compulsório de um casaco verde, que se tornou
opcional nos dias frios. Ainda na época de Tayla, ninguém podia usar agasalho
de fora da escola.
Tayla estudou no Externato do jardim
até a oitava série do primeiro grau (ensino fundamental nos dias de hoje). Para
fazer o ensino médio, mudou-se para uma escola mais liberal, que dispensava o
uso dos uniformes. Na formatura do Externato, usou o rigoroso uniforme pela
última vez.
Quando retirou seu histórico e outros
documentos para se matricular na nova escola, jurou nunca mais pisar no
Externato. Sequer passar pela mesma calçada do casarão. Mesmo tendo enorme carinho
por algumas freiras e professores e de sentir saudades deles. Embora fosse
muito querida pela maioria dos funcionários, ela ficou muito traumatizada com
os sermões severos e agressivos de Madre Tereza.
Cresceu e entendeu que, por mais que
seja necessária uma boa rigidez para disciplinar os alunos, o autoritarismo de
Madre Tereza não era apenas para impor respeito. Ela parecia não ter coração e
sentia prazer em humilhar os alunos e funcionários. Naturalmente, os pais de
Tayla não concordavam com ela e a repreendiam por criticar a diretora do
colégio.
Um dia, passando de ônibus pela escola,
viu um movimento fora do normal na porta do Externato. Foram mais de dez anos
estudando ali. Tempo suficiente para conhecer todos os horários. Mesmo passado um
ano fora do colégio religioso ainda se lembrava de toda a rotina. Deu sinal e
desceu antes do seu destino só para saber o que aconteceu em sua ex-escola.
Assim que saltou, viu as quatro bandeiras — do Brasil, do estado do Rio de
Janeiro, da cidade e da escola — a meio mastro. Abordou uma senhora e
perguntou:
— Com licença, minha senhora. Posso
saber quem morreu?
— Ah, minha filha! Foi a Madre Tereza.
Coitada. Estava tão bem. Morreu de repente.
— Ah, tá! Obrigada.
— Você a conhecia?
— Sim, já estudei aqui. Ela era
rigorosa, mas era para educar melhor os alunos. Com licença.
Tayla só faltou pular de tanta alegria
com a notícia da morte da Madre que a torturava psicologicamente. Só não
explicitou a sua felicidade por educação com a senhora. Caminhando de volta
para o ponto de ônibus, foi abordada pela amiga Giselle, que ainda estudava lá.
Esta parecia ter inveja de ver a ex-colega livre daquele uniforme quente,
cafona, feio e chamativo.
Para Giselle, Tayla não se preocupou em
extravasar a sua felicidade com o falecimento da antiga professora,
diretora-geral e inspetora do Externato.
— Menina, que bom te encontrar por
aqui! Fiquei sabendo que aquela bruxa morreu.
— A Madre Tereza não era bruxa. Você
está sendo insensível. Eu fiquei muito triste.
— Fala sério, Giselle! Ficar triste por
aquela mulher ter morrido. Você também a odiava. Não estou te reconhecendo.
— Ah, Tayla! Não sei o que me deu... é
que estou com um sentimento de tristeza.
— Vamos fazer o seguinte? Vamos tomar
um refrigerante lá na padaria? Aí a gente comemo... quer dizer, lamenta a morte
da Madre Tereza.
— Eu sei que você queria dizer
comemorar. Reclamou Giselle. — Mas só vou com você para a gente colocar o papo
em dia.
Tayla e Giselle foram até a lanchonete
que ficava a duas esquinas da escola, no outro lado da rua. A mesma que
frequentava quando estudava. O estabelecimento tinha algumas mesas que estavam
cheias de alunos. Uns tristes pela morte da religiosa. Outros esperançosos em
se verem livre do uniforme antigo. Os demais, alheios ao que aconteceu,
conversavam sobre futebol ou novela, mulheres ou homens, namorados e namoradas.
Com muita sorte as duas amigas encontraram uma mesa vazia. A última.
Tayla desistiu de ir para a aula do
segundo grau naquele dia, para ela, o melhor da sua vida. Enquanto Giselle — que
na época em que estudava com Tayla era a mais gazeteira do Externato, tendo
sido suspensa duas vezes — pediu apenas um refrigerante, Tayla pediu um chopp.
Depois pediu o segundo. Quando pediu o terceiro, já bêbada e falando mal da
ex-diretora, Giselle ficou horrorizada com a falta de consideração da ex-melhor
aluna do colégio e a deixou tomando um porre sozinha.
Tayla dançou sobre a mesa da padaria e
agitou os estudantes a soltarem suas camisas e tirarem suas gravatas,
anunciando que novos tempos iriam surgir. As meninas entraram na onda e
soltaram os suspensórios enquanto os meninos largaram os cintos. Ela só não fez
um strip-tease porque o dono da padaria não deixou. Foi embora. Chegou ébria em
casa e disse para os pais que saiu com os amigos da nova escola depois da aula.
Um mês depois, o aumento da violência
na cidade e o descontrole comportamental dos alunos fizeram a nova escola de
Tayla adotar um uniforme pela primeira vez para os alunos do segundo grau. Para
alívio da moça e dos seus colegas, era obrigatório usar apenas camiseta de
algodão azul com a logomarca da instituição bordada e calça jeans preta para
todos. Nos dias mais quentes poderiam ser usadas bermudas jeans até os joelhos.
As turmas de ensino fundamental sempre usaram. Eram pouco mais formais: camisa
de botão branca com o emblema colado em silk-screen, que poderiam ser usados
para fora da calça ou da saia marrom. Os sapatos ou sapatilhas eram pretos e a
meia branca.
A disciplina era controlada pelo
coordenador Nazareno, bastante rígido. Gritava forte quando necessário. Sabia e
conseguia impor respeito. Era um doce de pessoa fora das aulas. Tayla continuou
sendo a boa e comportada aluna de sempre. Nunca se sentiu ameaçada pelo
coordenador. Mas voltou a ficar presa ao uniforme.
Novamente libertou-se do vestuário
padrão quando entrou na faculdade de medicina. Poderia retornar a usar a roupa
que quisesse nos primeiros períodos. Só que, mais uma vez, se uniformizou
quando precisou trabalhar para pagar a faculdade. Conseguiu um emprego de
atendente em um hospital. Sua roupa de trabalho era um vestido tubinho preto com
blazer azul e a logomarca do hospital, ornamentado por um lenço amarelo claro que
atravessava o pescoço por dentro da gola.
Prestes a se formar, passou a se vestir
de branco, como todo médico. O jaleco tornou-se seu uniforme desde a residência
no próprio hospital onde começou a trabalhar até o fim da sua carreira
profissional como Tayla Figueiredo.
Casou-se com um empresário frio, que
passava a semana inteira engravatado com o mesmo terno para, nos finais de
semana, sair de casa com o uniforme do time de futebol da empresa e só voltar à
noite.
Sozinha, acessava a internet para
tentar apimentar a vida sexual. Arrumou um namorado extra-conjugal que era
coronel do exército. Na primeira noite, o amante queria realizar a fantasia de
transar com uma colegial.
Tayla vestiu o uniforme do Externato
Santa Madre de Deus, que não usava desde a oitava série. Camisa ocre com cinco
botões e renda verde nos ombros, gravata com dois laços e ponta reta
centralizada até a metade do peito, saia cinza com suspensório. Meia bege
canelada e sapatilhas pretas lustradas. Ainda colocou a boina verde, que já não
fazia parte da sua época. O amante não aguentou de tanto rir. Foi a última
gargalhada de sua vida antes de receber cinco golpes de tesoura. Tayla voltou a
ficar presa ao uniforme. Desta vez, de presidiária.
Arrependeu-se, tardiamente, de ter
comemorado a morte da madre Tereza anos atrás. Parece que, do inferno, ela lhe
rogou uma praga: “Que vista uniforme pelo resto da sua vida!”.
*
Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance
“Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea
“Indecisos - Entre outros contos”.
Bookess -
http://www.bookess.com/read/4103-indecisos-entre-outros-contos/ e
PerSe
-http://www.perse.com.br/novoprojetoperse/WF2_BookDetails.aspx?filesFolder=N1383616386310
Seu blog, “Tudo cultural” -
www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores
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