A necessidade de amigos
* Pedro
J. Bondaczuk
As amizades, via de regra, acontecem
como frutos do acaso e das circunstâncias, apesar de muitos negarem essa
evidência e tentarem explicações mil, não raro esotéricas, que ao final das
contas nada explicam. Ninguém (como também ocorre no amor) escolhe alguém a
dedo para ser amigo. Quando escolhe, a coisa não funciona. É inútil tentar
racionalizar esse ou qualquer outro sentimento. Eles são produtos de emoção,
não da razão.
Discordo, portanto, dos que afirmam, como
se fossem supremos juízes, com empáfia e pose de sabedoria: “nada acontece por
acaso”. Pelo contrário, pouco, pouquíssimo do que nos ocorre no dia a dia é
conseqüência de programação e planejamento. Os fatos são aleatórios,
caprichosos, surpreendentes, imponderáveis e raramente estamos preparados para
eles (pelo menos para todos eles), daí sermos forçados a reagir, amiúde, na
base da pura intuição.
Gosto dos amigos. Quero-os todos ao meu
redor. Necessito deles, não tanto no plano material, mas no afetivo. Preciso
receber e ofertar afetos. É uma necessidade tão premente como a de dormir, de
me alimentar, respirar etc. Tenho, felizmente, amigos em grande quantidade, e
sem que tivesse que mover um só dedo para conquistá-los. Essas amizades
simplesmente aconteceram, sem previsão ou planejamento.
Tenho dívidas imensas de gratidão por
pessoas que não faz muito nem sabia que existiam (o mesmo ocorrendo com elas,
evidentemente, em relação a mim). Elas tornaram-me um ser humano melhor, mais
confiante, seguro, amável, cortês, modesto e alegre.
Ensinaram-me, tacitamente, a enxergar o
mundo sob o olhar do “outro”, a dominar meu instintivo egoísmo e colocá-lo no
diapasão, digamos, normal. Ou seja, sem destoar do conjunto, do grupo, do
coletivo. Foram inúmeras as lições que aprendi com elas e nenhuma delas eu
teria a menor chance de aprender sozinho.
Tenho ouvido, porém amiúde, pessoas
amargas e mesquinhas dizerem, com azedume, que não precisam de amigos. À guisa
de justificativa, afirmam não acreditar em amizades sinceras. Tenho pena de
quem pensa assim. Perde esplêndida oportunidade de se tornar mais alegre,
objetivo, modesto e cortês.
Além do que, quem abre mão,
estupidamente, das amizades, terá que aprender as regras da vida pelo meio pior
que possa existir: o do sofrimento. Os amigos são não apenas necessários, como
indispensáveis para nos tornar melhores, positivos e felizes.
Raramente valho-me dos préstimos de uma
dessas pessoas, nas quais confio sem reservas (se não confiasse não existiria
amizade entre nós), em alguma dificuldade que enfrente, notadamente financeira.
Nas poucas vezes que recorri, nunca fui deixado na mão. Recorro, quando muito,
a seus conselhos e opiniões, que posso acatar ou não, sem que isso cause rusgas
ou ressentimentos. E, ao que me lembre, jamais disse não a algum apelo de um
amigo. A bem da verdade, foram raríssimas as ocasiões em que fui solicitado a
prestar algum tipo de socorro a qualquer dessas pessoas que me são tão caras.
Quando fui, nunca falhei.
Os amigos me equilibram, colocam-me no
devido lugar, me ajudam a evitar, até, muitas vezes, que eu caia em ridículo
publicamente, por causa de alguma idéia estapafúrdia, ou atitude impensada ou
por outro motivo qualquer.
Sempre que vou fazer alguma coisa
importante, que implique em grande responsabilidade, consulto-os a propósito,
já que nem sempre confio em meu julgamento íntimo e, sobretudo, em minha
autocrítica.
Ademais, faço-lhes, não raro,
confidências que só faria à minha esposa (com a qual mantenho, além de
profundos laços de amor, sólida e indestrutível amizade), sem receio de
eventuais traições. Quando estas acontecem (às vezes ocorrem, pois nada no
mundo é perfeito), os laços de mútua confiança se rompem, sem a mais remota
possibilidade de serem reatados. Eles são como a virgindade: uma vez perdida...
Nestas circunstâncias, a tal da amizade
“morre” de morte súbita. Mas é raro que isso aconteça. O acontecimento mais
freqüente é, a cada dia, acrescentar novos amigos ao meu (felizmente) vasto
círculo de relacionamentos afetivos, o que me enriquece e melhora ainda mais.
Não tenho como negar (e nem há motivo para tal): preciso dessas amizades, às
centenas, aos milhares, aos milhões, tantas e quantas conseguir conquistar.
O filósofo norte-americano Will Durant
explica, em seu livro “Filosofia da Vida”, essa necessidade (para mim óbvia):
“Os amigos são necessários, não só porque nos ouvem, como porque se riem para
nós; através dos amigos conseguimos um pouco de objetividade, um pouco de
modéstia, um pouco de cortesia; com eles também aprendemos as regras da vida,
tornando-nos melhores jogadores dos jogos que a compõem”. Em suma, amigos
tornam-nos, de fato, sobretudo humanos. Salve as amizades!!!!
* Jornalista, radialista e escritor.
Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981
e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras
funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no
Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e
“Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos &
Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da
Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário),
página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia
Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
Prezo as amizades como muitos. Nem digo amizade boa, pois se não é boa, não é amizade. Por coincidência, hoje recorri a mesma imagem da internet, vista neste texto, para falar do amor.
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