Cinema, Aspirinas e Urubus
Por Fábio de Lima
Grata surpresa! Foi assim que recebi a
notícia que o filme Cinema, Aspirinas e
Urubus, do cineasta pernambucano Marcelo Gomes, foi escolhido como
representante brasileiro na disputa por uma vaga no Oscar 2007. A escolha se
deu na semana passada, em Brasília, pela Secretaria do Audiovisual. O primeiro
longa-metragem de Marcelo Gomes derrotou outros 13 filmes. Havia produções de
diretores já consagrados como Sérgio Rezende (Zuzu Angel) e Cacá Diegues (O
Maior Amor do Mundo). Ainda assim, Gomes venceu a disputa com seu road movie
ambientado no sertão nordestino dos anos 40, em plena época da Segunda Guerra
Mundial (1939-1945).
A escolha dos 5 filmes concorrentes à
estatueta de filme estrangeiro pela Academia de Hollywood só será anunciada no
final de janeiro e a premiação do Oscar só ocorrerá no último domingo de
fevereiro. Pelo menos 40 países costumam mandar um filme representante. Os
critérios para escolha dos 5 finalistas são relativos. Em Hollywood, mais que em
outros lugares do mundo, o marketing é poderoso e vital. Lá não basta ser bom – tem que parecer bom.
Portanto, Cinema, Aspirinas e Urubus
terá uma batalha árdua de agora em diante, se quiser conquistar o mundo.
Mas
já fico feliz com esta primeira indicação. Explico: o filme escolhido conta a
amizade entre um alemão, vendedor da Bayer, que percorre pequenas cidades do
nordeste brasileiro comercializando as modernas (na época) aspirinas, e um
sertanejo rude e, ao mesmo tempo, bonachão, como só os sertanejos do nordeste
brasileiro conseguem ser. Ambos viajam dentro de um caminhão. Pelas estradas
muitos desgostos, angústias e medos.
Entre uma conversa e outra param o caminhão numa cidade – exibem o filme
institucional da fabricante alemã de remédios, para pessoas que, provavelmente,
nunca assistiram a um filme antes, e depois vendem os comprimidos como soluções
para quase todos os problemas de saúde.
A pobreza é só pano de fundo no filme.
Ele fala mesmo sobre a amizade. Para o alemão, que tem medo de ter que combater
na guerra, o Brasil é lindo. Para o sertanejo, que tem medo de morrer de fome
no atrasado nordeste, o país é horroroso. O país não, o seu sertão – porque ele
acredita que no Rio de Janeiro tudo deve ser lindo. Então o filme se desenvolve
no meio da poeira das estradas de terra – no meio das notícias do velho
continente que chegam através do rádio. Cinema, Aspirinas e Urubus conta
histórias lentas, mas profundas. O filme parece caminhar atrás da velocidade da
história real – por isso seu olhar é tão atento e minucioso.
O filme foi rodado no sertão da Paraíba
e muitas das pessoas locais que ajudaram na produção nunca devem ter assistido
a um filme no cinema. O calor, a pobreza, e os costumes simplórios do povo da
região ainda devem ser os mesmos dos anos 40. As notícias sobre guerras chegam
hoje através da televisão ou de um filme comercial americano. Tudo parece
igual, embora diferente. E mesmo neste mundo, talvez por tudo isso, surge a
solidariedade, o companheirismo e a alegria da vida que transforma o povo
sofrido num povo guerreiro. Tudo é igual e tudo é diferente. Cinema, Aspirinas e Urubus, parece um
filme pequeno, mas é um filme gigante. Ele tem uma força como só o Brasil
precisa e consegue ter. Este é o cinema brasileiro.
(*) Jornalista e escritor ou
“contador de histórias”, como prefere ser chamado. É Diretor de Programação da
CINETVNET (www.cinetvnet.com.br), TV pela internet. Está escrevendo seu
primeiro romance, DOCE DESESPERO.
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