Cartas que não se repetirão Nº 3 – De Urda Alice
Klueger para Jorge Amado
* Por
Urda Alice Klueger
Blumenau,
30 de outubro de 1994
Meu querido Mestre:
Quem é rei,
nunca perde a majestade; quem nasceu Mestre, sempre o será, e cada vez melhor,
cada vez mais aperfeiçoado. Querida estrela do meu coração, que obra prima que
é “A descoberta da América pelos turcos”, lida ontem! Não estou jogando
confete, tenha certeza. Sei que sou uma grande leitora (embora pequena
escritora) e sei avaliar o que leio. Sem dúvida, Adma e seus turcos só poderiam
ter saído da pena de um grande Mestre, de alguém nascido para a genialidade.
Como fazer caber em história tão curta, em tão poucas palavras, todo o universo
dos turcos brasileiros, desde o seu dia a dia, até a filosofia que orienta suas
vidas? E o desfecho do livro, então? “... os milagres aconteciam a três por
dois naqueles bons tempos da descoberta da América pelos turcos”. É desfecho de
obra prima, daqueles nunca conseguidos por doutos escritores formados em Cursos
de Letras, que tudo sabem de Teoria Literária, mas que são incapazes da
genialidade. A genialidade nasce junto com a pessoa, não há curso ou livro que
a faça aflorar se ela não existe, e esse menino grapiúna que é o senhor nasceu
com ela. (Falar em grapiúna me lembra de Ilhéus, e da minha primeira ida lá,
nos rastros de Gabriela).
Meu querido
Mestre, há que sair, agora, ir a velório de velho tio, e antevejo as situações
hilariantes que irei presenciar lá, no encontro de todos os parentes e das duas
vertentes religiosas da família: a luterana e a católica Penso até em escrever
a respeito disto, desses encontros multi religiosos. Tão comuns por aqui: os
luteranos sérios, circunspectos, não cometendo a indignidade de derramar uma
lágrima pelo falecido, por mais querido que ele tenha sido e, na sua digna
postura superior, demonstrando sem palavras, mas muito claramente, todo o seu
desprezo pelo escarcéu do choro e das lamentações dos católicos que vão
chegando, e que se envergonhariam caso não deixassem bem claro seu pesar
ruidosamente, com muito choro e muitas fungadelas. Sou criatura híbrida até em
religião, produto do encontro das duas, mas não consigo deixar de me divertir
uma porção a cada desses velórios familiares que vou. Não me julgue mal, é
mesmo muito engraçado.
Muito,
muito, muito obrigada pela deferência do livro. Claro que ele já passou a ser
um dos meus mais preciosos tesouros.
Recomende-me
à Dona Zélia Gattai, que tanto admiro desde “Anarquistas, graças a Deus”, e à
Rosane, essa pessoa privilegiada que convive diariamente com ambos.
Muito, muito
carinho de quem o guarda no coração com toda a ternura.
Urda Alice
Klueger
(Digitalizado em
20.07.2015, por Urda Alice Klueger, escritora, historiadora e doutora em
Geografia, e-mail urdaaliceklueger@gmail.com. )
* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e
doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de mais três dezenas de livros, entre
os quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12
edições
Privilégio ler e mais ainda contar o que achou do livro para o grande Jorge Amado.
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