Saudades remotas
* Por
Frei Betto
Velhos têm saudades
remotas. Talvez não se lembrem onde deixaram os óculos ou em que gaveta
guardaram a última conta de luz. São capazes, no entanto, de recordar a
infância e o dia em que ganharam de presente um cavalinho de pau.
Quem sabe o próprio
cérebro se retorce na direção do passado, como o último olhar do navegante
desterrado de sua pátria. Sim, guardo na memória a foto de meus sapatos de
solas de pneu, o uniforme escolar recendendo a sabão de coco, os cadernos e os
livros disciplinadamente encapados com papel encerado.
Guardo saudades do
milk-shake da lanchonete De Lucca, do picolé de chocolate da padaria Savassi,
dos bondes a escorregarem pelos trilhos que teciam colares prateados pelas ruas
arborizadas de Belo Horizonte.
Tiro da memória
retalhos imateriais: o respeito às mulheres e aos idosos, a quem os mais jovens
cediam assento nos transportes coletivos; a veneração aos professores, mestres
em ampliar conhecimentos e impor disciplina; a reverência aos valores
espirituais; os domingos de missa obrigatória.
Saudades de remar no
lago do Parque Municipal, dos piqueniques à beira da lagoa da Pampulha, dos
quintais a ensombrearem as casas desprotegidas do medo.
Sinto o sabor do
refrigerante Guarapan; do doce de leite servido nas feiras em copinhos de
sorvete; dos pastéis de nata; das balas de coco recortadas a tesoura; e até do
que o paladar rejeitava, como a Emulsão Scott à base de óleo de fígado de
bacalhau.
Saudades da infância
despreocupada pelas ruas mal iluminadas, do matagal dos terrenos baldios, dos
gibis e das figurinhas de coleção. Do trânsito desestressado, dos políticos que
morriam pobres, dos trens revestidos de pujança e poesia.
Recordo os carnavais
de rua ao ritmo de uma graciosidade que ainda não se transformara em
espetáculo; as procissões com suas Verônicas sensuais a enxugar o rosto
macerado de Jesus; os desfiles de 7 de setembro em que os militares eram
aplaudidos, desarmados do estigma da ditadura.
De tanto sonhar com um
futuro melhor, hoje me surpreendo acreditando que melhor foi o passado. Não
havia crianças de rua, a escola pública era disputada pelas famílias abastadas,
as drogas não ameaçavam, de terrorismo nem se falava.
Vivia-se em um mundo
encantado, respirava-se ar saudável, havia decoro.
Ilusão ou era mesmo um
mundo melhor? Não, naqueles tempos era inimaginável falar em proteção do meio
ambiente, supor um presidente negro na Casa Branca ou um ex-metalúrgico no
Alvorada. Não se concebia a Ásia e a África sem colônias europeias, nem a
opinião pública indignada com trabalho escravo, desrespeito aos direitos
humanos e políticos corruptos.
Em muitos aspectos a
humanidade piorou: hoje está mais desigual, injusta e beligerante. Trabalha-se
por dinheiro, não por ideal. A competitividade supera a solidariedade, assim
como a estética corporal predomina sobre a ética espiritual. Há mais
religiosidade e menos espiritualidade.
Contudo, prefiro
guardar o pessimismo para dias melhores.
* Frei Betto é escritor, autor de “O
que a vida me ensinou” (Saraiva), entre outros livros.
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