Relendo Machado de Assis
* Por
Alfredo Bosi
As versões dadas ao
narrador e também protagonista das Memórias Póstumas de Brás Cubas são várias e
chegam a desnortear o leitor dessa obra inesgotável de Machado de Assis. Três
versões, pelo menos, vêm mostrando notável capacidade de resistência. Tento
retomá-las na expectativa de perceber até onde poderiam captar aspectos
significativos de um dos romances mais originais de nossa literatura.
Que me sirva de
alavanca teórica esta premissa: em todo texto literário podem-se reconhecer
três dimensões – a obra é construção, a obra é expressão, a obra é
representação.
As Memórias Póstumas
foram escritas em um estilo propositadamente livre. Machado quis inscrever-se
na tradição de uma prosa conscientemente diversa dos modelos tradicionais. A
sua confessa inspiração deve-se a Diderot, a Sterne, a Garret. E os eruditos
remontam ao satírico e parodista Luciano de Samósata, cujos diálogos se
encontraram na biblioteca do nosso bruxo.
Nessa ordem de
filiações, Brás se dá como paradoxal defunto autor com todas as características
de galhofa, arbítrio, metalinguagem e desenvolta interlocução com o leitor que
essa forma comporta. Acompanhar as bizarrias de composição e elocução das
Memórias é compenetrar-se do espírito lúdico que está espalhado por toda a sua
escrita.
Da versão construtiva
convém passar à leitura do texto como expressão. Dois intérpretes agudos do
livro, Augusto Meyer, já em 1935, e José Guilherme Merquior, na década de 60,
observaram que o tom geral das memórias de Brás, desde a apresentação do
projeto autoral, não coincide com a pura e lúdica galhofa de Sterne, seu
alegado modelo. O sentimento nuclear é amargo e áspero, vem tingido de
melancolia, pois é vinho de outra natureza. Brinca com a própria morte.
Essa constatação levou
Augusto Meyer, como tinha levado seu antecessor Alcides Maia, a aprofundar
outros veios, mais inerentes ao pathos machadiano, veios de humor, de
auto-análise, de autonegação, a fenomenologia do homem subterrâneo. Uma leitura
existencial, portanto, rente ao tom e ao olhar do narrador, explorando suas
cesuras internas, a força do destino e da natureza, tal como se dá na passagem
do delírio, e a vertigem do nada no capítulo final das negativas. O estudo da
expressão dialetiza a leitura formal, conservando e superando o seu teor
descritivo.
Mas também essa
leitura exige diferenciação. Augusto Meyer era um apaixonado leitor de
Dostoievski e de Pirandello. Por isso alcançou ver em Brás Cubas o analista de
si mesmo, o morto que escalpela o vivo, o homem do subterrâneo que vê por baixo
e desmascara as trampas do seu papel público.
Tudo isso tem a ver
com a corrente moderna da escrita como autoconsciência, que já não permite ao
narrador contar ingenuamente, sem dobras, a própria biografia. Mas basta
fixar-se no humano moderno, universalmente concebido? Não estaria faltando a
essa visada a presença das coordenadas de espaço e tempo que definem a situação
de histórica de Brás Cubas?
A particularidade vai
ser dada pela leitura de Brás como tipo social, um rico e ocioso herdeiro
vivendo no Brasil da primeira metade do século, com todos os efeitos dessa
condição. Daí emerge o Brás brasileiro, alvo de enfoque sociológico, que vem de
Astrojildo Pereira, ganha estatuto weberiano com Raymundo Faoro e se cristaliza
na leitura de cadências luckacsianas de Roberto Schwarz. Literatura também é
representação.
Proponho um
entendimento do romance que não seja um agregado de pontos de vista. Creio que
é necessária a contemplação isenta das três dimensões: a construtiva, a
expressiva e a representativa. A densidade da obra favorece a hipótese de que
essas versões não se excluem, mas se enriquecem reciprocamente e, pela via da
crítica, impedem que qualquer das três leituras impere, virando totalizadora e
canônica pela marginalização das demais.
O ideal, difícil de
alcançar, é a arquicitada frase de Hegel, tão prezada por Marx: o concreto é o
multiplamente determinado. Ou, enfrentando Aristóteles, o indivíduo é inefável,
mas nossa obrigação é aproximarmo-nos o quando for possível de sua bela
concretude.
Jornal do Brasil (RJ)
21/6/2006
*
Professor universitário, crítico e historiador de literatura brasileira, membro
da Academia Brasileira de Letras.
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