As emoções atraem e traem
* Por
Mara Narciso
Emocionar, diz o
dicionário, é causar emoção, impressionar, perturbar, comover. As emoções dão
cor à vida. Todos sabem o que é emocionar-se e a frase “estava sob forte
emoção” pode justificar crimes e atitudes não civilizadas. A apatia é o seu
oposto.
A emoção manifesta-se
pela inundação do corpo por hormônios sendo a adrenalina e o cortisol os mais
falados. Os esportes radicais proporcionam sensações extremas, pelo risco de se
perder a vida. O que é radical para um, pode ser banal para outro, aquela
pessoa que, já entorpecida de emoções sem freios, sai em busca de situações
ainda mais emocionantes.
Viver no fio da
navalha, em risco permanente, pode se tornar um vício. Há quem faça sexo em
lugar público pela emoção de poder ser flagrado. Outros traem, para sentir a
descarga de hormônios. O perigo de surfar sobre ondas gigantes, pular de pára-quedas,
escalar o Everest, mergulhar em águas profundas, saltar de bungee-jump,
praticar mergulho subterrâneo, descer montanhas de bicicleta é o móvel dos seus
praticantes. Arriscar a vida, buscar a morte, não há limites para a mente
humana ávida de perigo.
Ser motociclista é
estar em ameaça permanente. Viajar de moto, sentir o vento zunir no corpo,
evitando imaginar que a morte pode chegar. Quem sabe estará na próxima curva?
Outros vão passear de Buggy sobre as dunas de Genipabu em Natal, e o motorista
pergunta: sem emoção, ou com emoção? Medo de viajar de avião? Há quem não tome
nem elevador, e há quem seja astronauta.
Sexo sem camisinha:
possibilidade de se contaminar com um vírus demolidor. Adrenalina concentrada:
uso de drogas múltiplas e a cada dia mais frequentes e em doses maiores. Quando
uma overdose acabará com tudo? O quase enforcamento na hora do orgasmo, dirigir
aos 200 km por hora, como se a realidade lhe fugisse. Velocidade, montanha-russa.
A vida pode oferecer sensações de extrema emoção, de sentir algo maior do que a
dor. Em alguns casos, há liberação dos esfíncteres, acontecendo micção e
evacuação involuntárias. O controle do temor tem limite, mas a ousadia humana é
ilimitada.
Beber até entrar em
coma, andar no descampado durante tempestade, voar de para-glider, soltar pipa
perto da fiação ou o conserto de algo sobre o telhado pode levar à morte. Numa
caminhada, arrisca-se a encontrar um pitbull, ou um assaltante, ou num
rastreamento no Facebook pode-se achar uma foto explícita, ou ver uma traição
pelo Whatsapp. Morrer de amor, no sentido figurado, alguns procuram, enquanto
outros “matam por amor”.
Se por um lado existe
quem não tenha medo, e até goste de senti-lo, buscando práticas irracionais,
por outro há os medrosos aos quais tudo ameaça. Sem contar a Síndrome do
Pânico, tão comum, devido aos perigos iminentes. Os que tremem diante de
qualquer adversidade, não conseguem ir ao banco, enfrentar os trâmites da lei,
as questões burocráticas, dar depoimento, terminar um casamento ou telefonar
para o ex-marido.
Quanto a falar em
público, boa parte evita. Muitos fogem de entrevistas para a televisão. Há os
medrosos crônicos, que não fazem nada que ofereça algum risco. Não viajam, não
sobem, não descem, não se apaixonam, não vivem. Escondem coisas até de si
mesmos. A imprevisibilidade é o lado bom da vida. O maior medo costuma ser de
perdê-la, mas perder o juízo ou a memória, deixando de ser quem é, também amedronta.
Sem contar o medo de
médico e de doenças, alguém tarimbado, um dia poderá se perder. O cirurgião
cardíaco experiente ou o orador de multidões sentirá suas mãos e voz tremerem,
sugerindo insegurança.
Um dia, a adrenalina
acelera o velho coração, a pressão sobe, o consumo de oxigênio se excede, e as
coronárias endurecidas entram em pane. É o infarto, e quem sabe, a morte. Só
privilegiados morrem assim. Os demais penam suas doenças, invadidos por
cuidadores. Ainda que não possamos escolher quando morrer, a morte é uma emoção
que a maioria prefere adiar.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”
Gostei muito, Mara, parabéns pela belíssima crônica, que nos remete a muitas reflexões. Realmente, muitas vezes somos atraídos pelas emoções, outras vezes somos traídos por elas.
ResponderExcluirAgradecida pelo comentário, Edir. Proporcionou-me emoção e agrado. Muito obrigada.
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