Testemunha de um tempo e de uma cidade
O Rio de Janeiro em que Machado de Assis nasceu, cresceu,
amadureceu (física, intelectual e literariamente), viveu, morreu e onde está
sepultado era (óbvio) muito diferente da vibrante (posto que tão problemática),
metrópole atual. Dessa que se prepara intensamente para receber a primeira
olimpíada a ser disputada na América do Sul: a de 2016. Fosse a mesma, ainda
hoje, seria o mais atrasado dos burgos de algum dos mais remotos grotões deste
país-continente, em termos de “modernidade”. Quando o escritor nasceu, a cidade
não tinha, por exemplo, esgoto, eletricidade, que ainda nem havia sido
descoberta e domesticada em lugar algum, e muito menos ali e eram raríssimas as
ruas (praticamente meras picadas) que dispunham de algum tipo de calçamento.
Não tinha telefone, ônibus, trens, automóveis, nada. Rigorosamente nada, em
termos de conforto e de recursos mínimos de comunicação e de transportes. Não
dispunha de cinema, de rádio, de televisão e de nenhum meio de difusão e de
entretenimento dos tempos atuais.
O Cristo Redentor? Nem pensar! Como também sequer se
cogitava, nem mesmo em sonhos, de um Maracanã. Afinal, o brasileiro desconhecia
o futebol, esporte exótico que recém surgia entre a elite, entre a nata dos
estudantes ingleses de famílias abastadas. Mesmo quando finalmente chegou ao
Brasil, em fins do século XIX, Machado de Assis não lhe deu nenhuma
importância. Claro que Copacabana, Ipanema, Leblon etc., enfim toda a charmosa
Zona Sul, com seus arranha-céus imponentes, seu trânsito agitado, seus bares e
boates e suas praias sempre lotadas de cariocas e de turistas provenientes de
todas as partes do Brasil e do mundo não tinham nada, nadíssima da realidade de
hoje.
Bondinho do Pão de Açúcar? Ora, ora, ora... Escolas de samba?
Também não se pensava nisso! Aliás, o próprio ritmo nem mesmo havia sido criado
ainda, embora houvesse seu “embrião”, o que viria a redundar nele, mas restrito
aos terreiros de escravos. A escravidão, recorde-se, era coisa “normal” no
Brasil (e, claro, no Rio de Janeiro), símbolo, até mesmo, de “status” da elite
endinheirada Enfim, a cidade não tinha coisa
alguma do que hoje caracteriza essa metrópole vibrante, que reúne, à beleza
natural com que a natureza a dotou, de magníficas obras humanas, o que faz dela
a maravilha dos trópicos, esta Cidade Maravilhosa que tanto encanta e fascina
quem a conhece e que desperta curiosidade e fantasias em quem contempla suas
imagens por fotografias, por filmes e por transmissões de TV.
O Rio de Janeiro, porém, tem que ser avaliado no seu devido
contexto. E a cidade de quando Machado de Assis nasceu já era, disparado, a
mais importante do País e, atrevo-me a dizer, da própria América Latina. Era a
capital, por exemplo, de um vasto, mas despovoado, Império, recém independente.
Na época do nascimento do escritor (em 21 de junho de 1839) o Brasil estava
prestes a completar escassos dezessete anos de nação independente. Estava sob o
regime de regência provisória, dada a minoridade de Dom Pedro II, a quem caberia,
constitucionalmente, ocupar o trono assim que se tornasse maior de idade, após
a abdicação do seu progenitor, o polêmico “pai da independência” brasileira.
Lutava para conservar a unidade política e territorial, diante dos inúmeros
movimentos separatistas que pipocavam de Norte a Sul de seu vasto território,
carente de comunicação.
Machado de Assis, que praticamente nunca se afastou do Rio
de Janeiro em toda sua vida – a exceção foram duas viagens à cidade serrana de
Nova Friburgo, para onde viajou por questões de saúde – testemunhou toda a
evolução, a metamorfose, o vertiginoso progresso da sua terra natal. E não
somente se limitou a testemunhar, como registrou tudo isso em seus livros, nos
romances e contos que escreveu, em que a hoje vibrante metrópole foi até mais
do que mero cenário. Foi, sem exagero, personagem “viva”. Ele viu (e registrou)
a chegada da eletricidade, o advento do bonde, a implantação da telefonia, as
primeiras experiências com o cinema e até a chegada do automóvel. Descreveu
pessoas, “analisando”, até mesmo, o que elas pensavam e por que (antecedeu
dessa forma em alguns anos Sigmund Freud, pai da psicanálise, na análise das
motivações e atitudes humanas) com suas modas, costumes, formas de se divertir
e de ganhar a vida etc.etc.etc. Enfim, testemunhou fatos e hábitos de seu
tempo, como convém a bons escritores. E ele, nem é preciso reforçar, foi
excelente, foi inovador, foi genial!
Cito (apenas a título de exemplo) – citação que “empresto”
de Lúcia Miguel Pereira, uma de suas principais biógrafas – a descrição que
Machado de Assis fez do casarão principal e da capela da chácara do Morro do
Livramento em que nasceu: "A casa, cujo lugar e direção não é preciso
dizer, tinha entre o povo o nome de Casa Velha, e era-o realmente: datava dos
fins do outro século. Era uma edificação sólida e vasta, gosto severo, nua de
adornos. Eu, desde criança, conhecia-lhe a parte exterior, a grande varanda da
frente, os dois portões enormes, um especial às pessoas da família e às
visitas, e outro destinado ao serviço, às cargas que iam e vinham, às seges, ao
gado que saía a pastar. Além dessas duas entradas, havia, do lado oposto, onde
ficava a capela, um caminho que dava acesso às pessoas da vizinhança, que ali
iam ouvir missa aos domingos, ou rezar a ladainha aos sábados".
Essa descrição consta do livro “Casa Velha” (publicado em
1943 graças ao empenho de Lúcia Miguel Pereira), estampado, originalmente, em
forma de fascículos, entre janeiro de 1885 e fevereiro de 1886, na revista
carioca “A Estação”. Cito, também, trecho do excelente texto, datado de 1º de
setembro de 2008, do saudoso jornalista e escritor Daniel Piza (a respeito de
quem discorrerei, com mais detalhes, oportunamente) em que ele descreve qual
era o cenário da meninice de Machado de Assis e como a cidade se transformou ao
longo de sua vida: “O Rio de Janeiro de sua infância era o do morro do
Livramento e da região próxima ao cais, uma grande vila de ruas estreitas onde
os dejetos das casas eram levados por negros em tinas na cabeça e lançados ao
mar. Lampiões de azeite de peixe faziam a iluminação e cavalos e burros
garantiam o transporte. Machado viu sua cidade ganhar bonde, ferrovia,
iluminação elétrica, avenidas, telégrafo e bolsa de valores. Antes de morrer,
ainda acompanhou o surgimento dos carros e dos precursores do cinema”.
Testemunhou tudo isso e registrou para a posteridade.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Ler o editorial de hoje, foi como ver um filme antigo. E gostar.
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