Machado de Assis e o teatro
O teatro sempre foi uma das grandes paixões de Machado de
Assis. Desde muito cedo, quando ainda era praticamente um garoto, o futuro
escritor já freqüentava os meios teatrais. Dialogava com atores. Trocava idéias
com diretores. Fazia sugestões, e pertinentes, aos autores de peças. Enfim,
“enturmava-se” naquele ambiente que tanto o fascinava. Certamente, nessa época,
deve ter cogitado em seguir carreira como autor teatral. E, de certa forma,
seguiu. Afinal, foi o autor de dez peças, muitas das quais nunca encenadas, mas
todas publicadas, entre os anos de 1860 e 1906. Ou seja, até, praticamente,
véspera de sua morte, ocorrida em 1908.
Poucos autores
teatrais podem se orgulhar de ter uma obra tão volumosa e eclética. Mas...
“Por que, então, Machado de Assis não fez sucesso como autor teatral?”, é a
pergunta recorrente que mais ouço dos raros amigos que sabem que ele se
aventurou por essa trilha. A imensa maioria dos leigos (e até mesmo alguns
especialistas da obra machadiana) sequer sabe que ele escreveu, e tanto, e
muito bem, para o teatro. E não me refiro como crítico teatral notável que foi,
pois isso é fartamente conhecido. Estou pensando nele como autor de deliciosas
comédias, sem chulices ou apelações.
Um dos seus últimos textos publicados, “Lições de Botânica”,
foi uma peça teatral. Foi escrita quando Machado de Assis já era escritor e
jornalista consagrado, tido e havido (com muita justiça, óbvio) como ícone,
como paradigma, como referência de qualidade na Literatura brasileira (e
mundial). Ademais, não se pode dizer que não tenha feito sucesso como autor
teatral. Fez sim. Todavia, aconteceu com ele o que sempre acontece com pessoas
dotadas de múltiplos talentos, todos exercidos com competência e qualidade. Por
mais eclético que um sujeito assim seja, ele sempre será melhor em uma coisa
específica do que nas demais. Foi o que aconteceu com ele. Machado de Assis
concorreu não com outros autores de peças teatrais, aos quais era infinitamente
superior. Seu concorrente foi ele próprio!!!! E nessa disputa surreal, venceu o
escritor (e também o jornalista), ofuscando o teatrólogo. A tal ponto da
posteridade praticamente esquecer, ou literalmente não saber dessa sua virtude.
As sete primeiras peças de Machado de Assis foram escritas
entre 1860 e 1866: “Hoje avental, amanhã luva” (1860), “Desencantos” (1861), “O
caminho da porta” (1863), “O protocolo” (1863), “Teatro” (1863) e “Quase
ministro” (1864) e “Os deuses de casaca” (1866). Todavia, as três derradeiras
já são do seu período de maturidade literária, quando era romancista e contista
consagrado, tido e havido como um dos melhores ficcionistas de todos os tempos:
“Tu, só tu puro amor” (1880), “Não consultes médico” (1896) e “Lição de
Botânica” (1906). Como se vê, Machado de Assis praticamente nunca deixou de
escrever para teatro, demonstrando o quanto apreciava essa arte. E por que,
então, suas peças acabaram esquecidas? Porque seus romances e contos
ofuscaram-nas, assim como ofuscaram, mesmo que parcialmente, suas qualidades de
poeta. Foi Machado de Assis concorrendo com Machado de Assis.
Em grande parte, sua imensa erudição e genial criatividade,
que deveriam ser suas vantagens no teatro, acabaram servindo de empecilho para
que se projetasse, também, como autor teatral para a posteridade. Explico. O
consagrado jornalista Quintino Bocaiuva – uma espécie de mito do jornalismo –
que foi protetor e admirador incondicional de Machado de Assis em seu início de
carreira, opinou, com conhecimento de causa, que as peças daquele jovem e
promissor autor eram “mais adequadas à leitura do que à representação”. Seus
diálogos eram eruditos em demasia, o que dificultava os atores de levá-los á
cena com a naturalidade que a arte dramática exige. Ou seja, eram boas demais
para o nível técnico e intelectual dos artistas de então.
Que curiosa contradição! A maioria dos autores teatrais que
fracassa o faz pelo fato de suas peças não terem conteúdo, quando não por não
se expressar com competência e com clareza. Mas Machado de Assis deixou de se
consagrar também nesse gênero exatamente pelo contrário. Ou seja, pelo fato de
seus textos teatrais terem conteúdo além da conta e serem escritos com
inigualável perícia. Um crítico (não me lembro qual) observou com pertinência a
respeito: "Suas peças têm um tom moralizante, são bem escritas, mas pecam
por um excesso de retórica, isto é, pela falta de naturalidade nos
diálogos". Uma coisa, porém, não se pode negar (como li alhures): “Machado
era profundo conhecedor dos elementos cênicos e teatrais. Seu repertório tem
valor significativo uma vez que representa a sociedade do seu tempo e faz parte
de um movimento interessado em criar um teatro brasileiro”. Na época, a imensa
maioria das peças levadas à cena era traduzida, o que incomodava o escritor.
Sua temática era cômica, portanto, não trágica, o que me
deixa ainda mais intrigado sobre o motivo de suas peças não serem, hoje, tão
elogiadas quanto seus romances, como “Dom Casmurro”, “Memórias Póstumas de Brás
Cubas” e “Quincas Borba”, entre outros e, sobretudo, seus contos. Afinal, fazer
rir, com bom gosto e sem apelar para a escatologia, é muito mais complicado do
que fazer chorar. Seus textos teatrais são engraçadíssimas comédias,
infinitamente mais inteligentes e hilariantes do que a totalidade dos programas
ditos humorísticos da nossa televisão atual. Fosse vivo, certamente seria
convidado a redigir essas hoje pífias apresentações de TV que, convenhamos,
salvo raríssimas exceções, são chulas e totalmente sem graça.
E seus personagens, o que dizer deles? São, salvo uma ou
outra exceção, membros da alta burguesia brasileira do século XIX. Mas não são
escrachados e muito menos “caricaturizados”. São cultos, elegantes e
espirituosos. Mantêm, como bem caracterizou não faz muito um crítico,
"diálogos aos quais não faltam chistes, bom humor e ironia
refinada.". É tudo o que falta à comédia atual, que está mais para a
tragédia, por sua burrice, apelação e mau gosto, não é mesmo? Eu, se fosse
produtor teatral, arriscaria um investimento e produziria pelo menos uma das
dez peças de Machado de Assis (qualquer delas), se não todas. Seria, além de
justo resgate cultural, um festival de inteligência e de bom gosto. Afinal, o
teatro tem, também, (ou pelo menos deveria ter) função educativa.
Boa leitura.
O Editor.
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