Suposta realidade
* Por Pedro J.
Bondaczuk
A visão que nós, jornalistas,
acostumados a lidar com fatos de toda natureza, cada qual mais escabroso do que
o outro, temos do mundo é, de fato, a real ou se trata de um conjunto de
abstrações que criamos em nossa mente? Há alguém capaz de apreender a realidade
em toda a sua dimensão? Essas perguntas podem parecer absurdas, mas absurdos
somos nós e tudo o que nos rodeia. Ademais, não há quem conheça, de ter visto e
convivido, todas as partes do Planeta, por maior viajante que seja e por mais
experiência que haja adquirido.
Há dificuldades temporais e espaciais.
Para conhecer o mundo, apenas no aspecto físico, o geográfico, com todas as
montanhas, rios, lagos, ilhas, oceanos e suas complexidades, o indivíduo teria
que ser mais forte do que é, mais resistente e ter maior sobrevida do que tem.
Quanto ao lado humano, as barreiras são ainda mais intransponíveis. Vão desde
as lingüísticas, às ideológicas e religiosas. Desde as pessoais, às étnicas.
Ninguém, portanto, conhece a realidade
e talvez nem mesmo parte dela. Não existe quem tenha estado em todos os
lugares, vivido com todos os povos, aprendido todos costumes, entendido todas
as línguas, assimilado todas as culturas e compreendido a multiplicidade de
idéias que fervilham por toda a parte. Falta-nos mobilidade, capacidade física,
tempo e resistência. Falamos, por exemplo, de reis, heróis e tiranos do passado
sem nunca tê-los visto, e nem poderíamos, pois nem mesmo éramos nascidos.
No entanto, argumentamos sobre eles com
propriedade, como se fossem nossos contemporâneos e, mais, nossos íntimos.
Claro que são frutos não apenas da nossa imaginação, mas da dos que deixaram
registrados nos compêndios de história seus supostos feitos, heroísmos e
patifarias. Os historiadores igualmente não conheceram seus personagens ou seus
cenários. Ou se foram contemporâneos deles, com certeza, deixaram-se levar pela
subjetividade, para traçar perfis positivos ou negativos.
A mesma coisa ocorre em relação a
personalidades atuais. Nós, jornalistas, especialmente se lidamos com opinião,
falamos, escrevemos e debatemos sobre artistas, esportistas, políticos e
intelectuais com incrível familiaridade e desembaraço, mesmo sem conhecê-los
sequer de vista. Muitas vezes, por havermos lido meia dúzia de livros, ou assistido
a algumas peças de teatro da moda, ou apreciado alguma tela de um pintor do
passado ou do presente, ou alguma escultura, ou ouvido alguma magistral
composição musical, nos sentimos autênticos "sabe tudo".
No entanto, nossa ignorância, até sobre
este ínfimo Planeta, é maior do que as próprias dimensões dele, que em termos
cósmicos são irrisórias. Quem é capaz de citar pelo menos o nome (não se exige
menção de trechos ou de enredos) de pelo menos um escritor do Cazaquistão? Ou
do Burundi? Ou da Bósnia, tão na moda? Ou da Chechênia, que freqüentou por
tanto tempo as manchetes?
No
entanto, os cazaques, como outros povos, têm, certamente, uma rica literatura.
O mesmo vale para os burundineses, bósnios, chechenos, etc. Contam com poetas
de grande poder expressivo e muita imaginação, além do domínio do seu idioma. E
nós? Quantos nos conhecem, sabem que existimos, ouviram falar da nossa
trajetória intelectual, são capazes de citar alguma obra nossa, além dos
limites paroquiais da nossa própria cidade, se tanto? Ninguém sequer atina da
nossa existência. Somos um número a mais nas estatísticas, arredondáveis para
menos sem que sequer se note. Mas às vezes nos sentimos senhores do Universo.
Isto que definimos como realidade não
passa de rótulo. É apenas a nossa, particular, restrita e limitada. Criamos em
nossa imaginação todo um cenário, interpretando nosso enredo nesse palco
restrito, que para nós é universal, da forma como fomos condicionados. Somos
produtos do que nossos sentidos apreendem e da nossa formação, ditada pelo meio
em que vivemos.
Ou seja, não passamos de animais
amestrados para realizar determinadas tarefas, mesmo contando com esse
instrumento poderoso que é o cérebro, que é o raciocínio, que é a inteligência.
Jorge Luís Borges observa a esse propósito: "Nós sonhamos o mundo. Temo-lo
sonhado resistente, misterioso, visível, ubiqüo no espaço e firme no tempo; mas
temos consentido em sua arquitetura tênues e eternos interstícios do sem-razão
para saber que é falso".
Ou seja, vez ou outra, temos lampejos
de lucidez, posto que breves, para contestar nossos sentidos, duvidar da
imaginação e questionar a soma de informações que nos passaram. Mais vale o
conhecimento completo sobre um grão de areia do que a mera suposição sobre o
Universo. Tudo é questão de enquadramento.
Não podemos deixar de concordar com
John Kord Lagemann quando constata: "O mundo é grande demais para ser
visto de uma só vez. Para encontrarmos nele sentido e beleza temos de observar
pequenas partes dele separadamente, excluindo o resto, exatamente como faz o
fotógrafo quando olha através de seu visor. Em suma, temos de
enquadrá-lo". Que grandes sonhadores que somos! Ou que grandes
presunçosos!
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas
(atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e
do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma
nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com.
Twitter:@bondaczuk
A cada dia a nossa consciência nos faz menores.
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