Morra, mata, morra
* Por
Marcelo Sguassábia
Pra dar jeito nessa
mosquitada, que bota a gente de cama, só mesmo a golpe de machado. “Tem é que
deitar abaixo essa floresta dos diabos”, já dizia o sábio Firmino, meu bisavô,
com muita propriedade. Aliás, propriedade é o que não faltava para o velho.
Quando morreu de maleita, deixou para meu avô, pai de minha mãe, mais de 17
fazendas, duas delas com os seringais mais produtivos da região norte.
Com um pelotãozinho de
dúzia e meia de agentes do Ibama para tomar conta desses milhões de hectares,
fica fácil depenar a vegetação nativa. A imprensa do sul maravilha diz que, só
em 2014, a área desmatada foi equivalente a 24 mil campos de futebol. Do lado
bom da faxina ninguém fala: sabe lá quantas espécies de insetos e outras pragas
peçonhentas foram felizmente dizimadas com essa assepsia providencial?
Gente come carne.
Gente que não come carne, come soja. Pois eu vendo a carne pros carnívoros e a
soja pros naturebas. Mas o grosso mesmo da soja vai para o bucho dos bois. A
conta é essa – metade do descampado para o gado, a outra metade para produzir a
comida dele.
Conheço o desastre
disso, sei bem o estrago que faz. Faltando umidade e evaporação aqui nas bandas
borrachentas vai faltar chuva lá embaixo, no Sudeste. Mas aí eu ganho dinheiro
de novo: tem autoridade em Manaus propondo a implantação de aquadutos para
abastecer São Paulo, Rio e Minas com a água que transborda por aqui. O que o
messiânico salvador da pátria não sabe é que essa tubular muralha da china vai
ter que passar em cima das minhas terras, que vão ser desapropriadas. Com a
indenização, que não vai ser pouca, eu compro mais terra a preço de banana e
juro subsidiado pelo governo. Ladrãozinho como ele só, pra gente como eu esse
governo é mais que bom. É quase um sócio.
Essas novas terras
serão de mata cerrada, com madeira de lei pra exportar. Um ano de motosserra
comendo solta e eu garanto: não sobra um cipó pra contar a história. Com a
dinheirama das toras eu encho de gado o que era floresta imprestável. Caso o
pasto não seja lá essas coisas, as minhas fazendas de soja vão dar conta da
ração. E que seja grande a flatulência do rebanho - quanto mais metano no ar
maior o efeito estufa, atazanando a vida do povo lá no sul, que vai precisar
ainda mais da água que o papai aqui vai mandar pelo aquaduto.
Se a farinha é pouca,
o meu pirão primeiro. Mas nem esquento a cabeça porque a farinha por enquanto é
muita, e eu mereço que seja. O meu pirão eu quero com sustança, bem servido
mesmo, pra comer, repetir e arrotar. Que dê e sobre para mim e para os netos
dos meus netos. O resto eu quero que se dane.
O AUMENTO VERTIGINOSO
DO DESMATAMENTO DA AMAZÔNIA É MAIS UM RESULTADO CATASTRÓFICO DO DESGOVERNO QUE
AÍ ESTÁ. A CONTINUAR ESSE QUADRO, NÃO É DESCABIDA A POSSIBILIDADE DA PERDA DE
SOBERANIA E A INTERVENÇÃO DE ORGANISMOS INTERNACIONAIS PARA CONTER A
DEVASTAÇÃO. ENTENDO QUE UM PAÍS SÓ MERECE SER SOBERANO QUANDO DEMONSTRA
RESPONSABILIDADE E RESPEITO PELO QUE LHE PERTENCE. NÃO É ESSE ABSOLUTAMENTE O
CASO.
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Ao fim da brincadeira, um fecho sério e dolorido. Fazemos lambança, e não podemos reclamar da sujeira depois.
ResponderExcluir