Machado de Assis no papel de ombudsman
A importância de Machado de Assis para a incipiente imprensa
brasileira do seu tempo, que então praticamente ainda engatinhava no País, está
para ser devidamente resgatada e valorizada. Foi imensa! E não me refiro,
apenas, ao conteúdo de suas crônicas e artigos. Estes, é até redundante
destacar, eram bem escritos e, sobretudo, bem fundamentados. Enfocavam os
principais fatos de então, além de mazelas e vícios dos principais personagens
políticos, não importando se fossem da situação ou da oposição. No jornalismo
que exercia, não tomava partido, embora, como cidadão, tivesse lá suas
preferências.
Reputo como fundamental sua enfática defesa dos pilares que
sempre deveriam nortear o bom jornalismo, que volta e meia eram (e são)
deixados de lado. Dois deles são princípios que considero sagrados – como uma
espécie de cláusula pétrea, imutável e irrevogável. O primeiro é a isenção na
divulgação das notícias, sem “puxar a sardinha” para nenhum dos lados. Compete
ao repórter justificar o verbo que define sua função: “reportar”. Ou seja,
reproduzir, fielmente, o que vê e ouve, sem omitir e nem falsear o mínimo
detalhe, e sem fazer nenhuma espécie juízo a propósito. O segundo princípio,
não menos importante, é sempre, sem exceção, ouvir a outra parte envolvida. Não
era assim que se fazia jornalismo na época de Machado de Assis. Não é assim que
se faz jornalismo nos tempos atuais. Lamentável!
Os jornalistas da segunda metade do século XIX – e os deste
século XXI – agem, salvo exceções, como se fossem “oráculos dos deuses”, que
tudo soubessem (ou sabem) e tudo pudessem (ou podem). E a imensa maioria dos
leitores confere irrestrito crédito a tudo o que lê – ou vê ou ouve, dependendo
da mídia – agindo como se isso fosse sempre “infalível”, a mais lídima
expressão da realidade. Claro que nem sempre é. Parodiando Machado, quando se
refere à política, é oportuno lembrar que “jornalismo é obra de homens”. E
estes são sujeitos a enganos, contradições e interesses pessoais nem sempre
justos ou lícitos. Não me oponho, óbvio, a opiniões (que é o que mais fiz e
faço em minha profissão) desde que quem opine deixe claro que seu texto não se
trata de informação, de notícia, mas de sua visão pessoal sobre determinados
fatos, pessoas ou organizações de que trata. Nem sempre isso é explicitado.
Aliás, pelo contrário
A postura ética de Machado de Assis, enquanto jornalista,
ficou patenteada na questão que mobilizou toda a opinião pública nacional em
fins do século XIX: a Guerra de Canudos (1896 e 1897). Enquanto a imprensa toda,
sem exceção, demonizava Antonio Conselheiro e seus seguidores, ele nadava
contra a correnteza nesse caso e questionava a veracidade de tais avaliações.
Criticava, entre outras coisas, o fato de nenhum jornal enviar para o local dos
acontecimentos nenhum repórter, limitando-se a reproduzir ora versões oficiais,
logicamente contrárias aos rebeldes, ou meros boatos que circulavam distantes
do cenário do conflito.
Por sua influência ou não, finalmente um jornal, e paulista,
destacou alguém para cobrir, “in loco”, a rebelião. O “Estado de São Paulo”,
enviou para Canudos uma espécie de “multitarefas” (era, simultaneamente,
engenheiro, militar, físico, naturalista, jornalista, geólogo, geógrafo,
botânico, zoólogo, hidrógrafo, historiador, sociólogo, professor, filósofo,
poeta, romancista, ensaísta e escritor. Ufa!). Refiro-me a Euclides da Cunha.
Aliás, da série de reportagens que ele fez, emergiu um dos grandes clássicos da
Literatura brasileira, ou seja, “Os sertões”. Não questiono a exatidão dos
dados trazidos à baila por tão qualificada testemunha.
Todavia, concordo com o que escreveu o professor e
jornalista Marcos Fabrício Lopes da Silva em detalhado texto que publicou em 6
de setembro de 2005 no site do “Observatório de Imprensa”, em que observou, em
determinado trecho: “Euclides retratou Antônio Conselheiro como personagem
trágico, guiado por forças obscuras e ancestrais e por maldições hereditárias,
que o teriam levado à insanidade e ao conflito com a ordem. Viu Canudos como
desvio histórico capaz de ameaçar a ‘linha reta’, que se ligava ao conceito
linear e evolutivo de história, adotado por positivistas e evolucionistas, que
acreditavam no aperfeiçoamento progressivo do homem e da sociedade”. Ou seja,
na contramão do que Machado de Assis pensava sobre esse trágico e até hoje
pouco conhecido personagem e suas motivações.
O então consagrado escritor detectou (e condenou
acerbamente, com todas as letras) o sensacionalismo da imprensa na cobertura desses
acontecimentos. Em um tempo em que sequer se cogitava na criação da figura de
um “ombudsman”, exerceu esse papel, criticando, inclusive, o procedimento do
repórter do próprio jornal de que era sócio, a “Gazeta de Notícias”. Denunciou
a manipulação da opinião pública movida pela propaganda do governo exercida pela
totalidade da imprensa, provavelmente de olho nas benesses oficiais, em
detrimento da verdade. Para ele, conforme enfatiza Marcos Fabrício Lopes da
Silva, “um dos lados estava sendo bastante ouvido: o governo, enquanto a voz de
Canudos não era sequer escutada. Machado de Assis critica o estilo ‘rápido e
rasteiro’ que marcou a cobertura jornalística a respeito dos acontecimentos
ocorridos na mais estéril região do semi-árido baiano”. Este é, como se vê, assunto
que tende a render inúmeras observações e constatações.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Nenhum comentário:
Postar um comentário