domingo, 1 de junho de 2014

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 8 anos, dois meses e quatro dias de existência.

Leia nesta edição:

Editorial – Reflexões sobre io infinito.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, poema “Inexpressão”.

Coluna Direto do Arquivo – Fernando Mariz Masagão, poema, “Notas de realidade (a estupefação dos dias)”.

Coluna Clássicos – José Ortega y Gasset, trecho de ensaio, “A rebelião das massas”.

Coluna Porta Aberta – Leonardo Boff, artigo, “O ser humano: porção consciente e inteligente da Terra”.

Coluna Porta Aberta – Cida Pedrosa, conto “O destino late antes da hora”..


@@@

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com “Aprendizagem pelo Avesso” Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
 “Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal”Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br
 "Um dia como outro qualquer" - Fernando Yanmar Narciso.


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Reflexões sobre o infinito

A noção de infinito é complexa demais para nossa mente finita. Não conseguimos conceber nada que não tenha princípio e nem fim ou qualquer dimensão (em cima, embaixo, dos lados etc.etc.etc.). Muitos negam sua existência, por ela não se enquadrar na lógica com que raciocinam. Outros tantos admitem que exista, embora sem pensar muito a propósito. Sequer tentam, portanto, entender a noção. A imensa maioria nem se dá o trabalho de pensar a propósito (ou em qualquer outra coisa que não seja a maneira de garantir o pão nosso de cada dia), até por entender que essa ideia, haja ou não infinito, não fará a menor diferença em suas vidas. Não faz de fato. Ou será que faz? Há, porém, determinada minoria, minoria mesmo, reduzidíssima, ínfima, que não se contenta com o trivial. Esta busca entender os “como” e os “porquês” do universo e da vida. Por conseqüência, se debruça sobre a noção de infinito no afã de compreendê-la.

Li textos de inúmeros escritores abordando o assunto, em variados gêneros literários (poesias, ensaios, contos e até romances, colocando as reflexões na boca de personagens), todos em tom especulativo. Nenhum se arrisca em ser conclusivo. Pudera! Não creio que alguém entenda, mas entenda mesmo, a idéia de algo que não tenha início e nem fim. E que, sobretudo, consiga verbalizar esse entendimento de forma coerente e inteligível, o que é muito mais complicado ainda. De todas as especulações que li a propósito, a que achei a mais genial foi, e nem poderia deixar de ser, a de um gênio. Não me refiro a algum cientista (físico, astrônomo ou matemático), mas a um escritor consagrado, clássico da Literatura mundial. E esse homem de letras é Victor Hugo.       

O texto em que trata do assunto é um trecho do seu memorável romance “Os miseráveis” (que já tive a feliz oportunidade de comentar, neste espaço), que muito leitor não se dá conta em se deter para refletir a respeito. Passa batido, entretido, apenas, pelo enredo. Não sei se Hugo tratou do assunto em outros trabalhos literários. Mas grifei esse trecho do seu romance, sobre o qual debruço-me amiúde. E quanto mais o leio, mais me intrigo e, simultaneamente, mais me embeveço.  

Hugo inicia as citadas reflexões com uma série de indagações, bem ao estilo socrático da busca da verdade. Escreve: “Há ou não um infinito fora de nós? É ou não único, imanente, permanente, esse infinito; necessariamente substancial, pois que é infinito, e que, se lhe faltasse a matéria, limitar-se-ia àquilo; necessariamente inteligente, pois que é infinito, e que, se lhe faltasse a inteligência, acabaria ali? Desperta ou não em nós esse infinito a ideia de essência, ao passo que nós não podemos atribuir a nós mesmos senão a ideia de existência? Por outras palavras, não é ele o Absoluto, cujo relativo somos nós?”. Não são as mesmas indagações que fazemos quando (ou se) pensamos a respeito? Pelo menos no meu caso, são.

E Hugo prossegue: “Ao mesmo tempo que fora de nós há um infinito não há outro dentro de nós? Esses dois infinitos (que horroroso plural!) não se sobrepõem um ao outro? Não é o segundo, por assim dizer, subjacente ao primeiro? Não é o seu espelho, o seu reflexo, o seu eco, um abismo concêntrico a outro abismo? Este segundo infinito não é também inteligente? Não pensa? Não ama? Não tem vontade? Se os dois infinitos são inteligentes, cada um deles tem um princípio volante, há um eu no infinito de cima, do mesmo modo que o há no infinito de baixo. O eu de baixo é a alma; o eu de cima é Deus”. Muitos, sobretudo ateus renitentes. discordam Essa, porém, é minha visão da parte imaterial de que somos dotados e do conceito, mais incompreensível ainda pelo prisma da pura lógica humana,  da divindade.

Mais instigantes ainda são estas conclusões do escritor: “Pôr o infinito de baixo em contacto com o infinito de cima, por meio do pensamento, é o que se chama orar. Não tiremos nada ao espírito humano; é mau suprimir. O que devemos é reformar e transformar. Certas faculdades do homem dirigem-se para o Incógnito, o pensamento, a meditação, a oração. O Incógnito é um oceano. Que é a consciência? É a bússola do Incógnito. O pensamento, a meditação, a oração são tudo grandes irradiações misteriosas. Respeitemo-las. Para onde vão essas majestosas irradiações da alma? Para a sombra, quer dizer, para a luz. A grandeza da democracia consiste em não negar, nem renegar nada da humanidade. Ao pé do direito do homem, pelo menos ao lado, há o direito da alma”.

Mas Hugo faz uma pertinente e essencial observação a respeito. Exorta-nos: “A lei é esmagar os fanatismos e venerar o infinito. Não nos limitemos a prostrar-nos debaixo da árvore da Criação e a contemplar os seus imensos ramos cheios de astros. Temos um dever: trabalhar para a alma humana, defender o mistério contra o milagre, adorar o incompreensível e rejeitar o absurdo, não admitindo em coisas inexplicáveis senão o necessário, tornando sã a crença, tirando as superstições de cima da religião, catando as lagartas de Deus”. O que mais acrescentar a esse brilhante raciocínio? Nada, absolutamente nada.

Boa leitura.


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk

Inexpressão

* Por Pedro J. Bondaczuk


Há algo vibrando no ar.
Poema? Soluço? Canção?
Há algo vibrando no ar.
E agita os pilares velhos
da minha arcaica emoção.

E quer brotar,
como uma flor
na Primavera,
como sangue
em veias secionadas,
como o sol,
em todas as manhãs.

Há algo vibrando no ar.
Anseio? Desejo? Intuição?
Há algo vibrando no ar,
como cordas de violino,
notas perdidas de piano,
folhas soltas ao léu,
afinado diapasão.

Há algo vibrando no ar
lutando para viver,
e se fazer concreto,
ganhar forma e cor
e se espraiar
em ondas de ternura,
na suprema ventura
do amor correspondido.

Vibra no ar algo estranho,
poderoso, desconhecido!
Idéia? Paixão? Saudade?

Na terra em que repousar
este triste versejador,
vão brotar flores... muitas,
milhares de flores...
brancas... azuis... amarelas...
vermelhas... todas as cores.

Vão brotar infinitas flores,
em indefinidos albores,
na saga do tempo
que se expressa dia a dia,
em meu frígido jazigo,
em pétalas delicadas, sutis.

Vão brotar harmonias,
metros delicados e raros,
rimas inspiradas e caras,
de encantos inexprimíveis:
São os versos que não escrevi!

Pois há algo vibrando no ar,
que procura se manifestar,
mas que não consigo exprimir...

* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk  

Notas de realidade (a estupefação dos dias)

* Por Fernando Mariz Masagão



Um cão entrou no bar
e de tão besta-fera,
assustava.
Foi logo pedindo uma dose
e mais uma
e mais uma.
Bêbedo e com estrépito
pôs-se a assoviar o Charlestone e a dançar.
Os circunstantes, porém, nada notaram.
Eles não conheciam aquela dança.


Pergunta-se:


E se ser sóbrio doer demais para uns tantos...
É muita covardia querer esquecer?
Não se receitam drogas para as dores do corpo?
Não são elas vendidas?
Compradas?
Consumidas?
Pois então.
Por que não para as dores da alma?
Acaso elas não existem, doutores?
A filha da puta chega a latejar.
Incomoda feito uma dor de dente,
mas uma dor de dente do tamanho da vida.

*Fernando Mariz Masagão é músico, dramaturgo, poeta e colaborador de publicações online sobre arte, com crônicas e críticas musicais. Guitarrista e vocalista de bandas de rock'n'roll, tem formação clássica vigorosa, em cursos de regência sinfônica, apreciação musical e instrumentação.   


A rebelião das massas

* Por José Ortega y Gasset

VI

Começa a dissecção do homem-massa

Como é esse homem-massa que hoje domina a vida pública — a vida política e a não-política? Por que é como é, isto é, como foi produzido?

Convém responder às duas perguntas conjuntamente, porque uma esclarece a outra. O homem que tenta se pôr agora à frente da existência européia é muito diferente do que dirigiu o século XIX. Qualquer mente perspicaz de 1820, 1850, 1880, pôde, por um simples raciocínio a priori, prever a gravidade da situação histórica atual. E, de fato, nada de novo acontece que não tenha sido previsto há cem anos. “As massas avançam!”, dizia Hegel, apocalíptico. “Sem um novo poder espiritual, nossa época, que é uma época revolucionária, produzirá uma catástrofe”, advertia Augusto Comte. “Vejo subir a preamar do niilismo!”, gritava o bigodudo Nietzsche, de um penhasco do Engadine. É falso dizer que a história não é previsível. Foi profetizada inúmeras vezes. Se o futuro não oferecesse um flanco à profecia, não poderia tampouco ser compreendido depois de se cumprir e de se tornar passado. A idéia de que o historiador é um profeta no sentido contrário resume toda a filosofia da história. Naturalmente só é possível se antecipar a estrutura geral do futuro; da mesma forma que, na verdade, essa é a única coisa que compreendemos do passado ou do presente. Por isso, quem quiser ver bem sua época deverá olhá-la de longe. A que distância? É muito simples: à distância exata que o impeça de ver o nariz de Cleópatra.

Que aspecto tem a vida desse homem multitudinário, que com progressiva abundância o século XIX vai engendrando? Inicialmente, um aspecto de ilimitada facilidade material. O homem médio nunca pôde resolver com tanta folga seu problema econômico. Enquanto as grandes fortunas minguavam proporcionalmente e a existência dos operários das fábricas se tornava mais dura, o homem médio de qualquer classe social encontrava seu horizonte econômico cada vez mais amplo. A cada dia agregava um novo luxo ao conjunto de seu padrão de vida. Cada dia sua posição era mais segura e mais independente do arbítrio alheio. O que antes teria sido considerado como um benefício da sorte que inspirava humilde gratidão ao destino converteu-se num direito que não se agradece, mas que se exige.

Em 1900 o operário também começa a ampliar e a assegurar sua vida. No entanto, tem que lutar para consegui-lo. Não encontra, como o homem médio, um bem-estar que foi colocado solicitamente diante dele por uma sociedade e um Estado que são um portento de organização.

A essa facilidade e segurança econômica junte-se as físicas: o confort e a ordem pública. A vida segue sobre cômodos trilhos, e não se acredita que aconteça nela nada de violento e perigoso.

Uma situação tão aberta e franca como essa teria forçosamente que sedimentar nas camadas mais profundas dessas almas médias uma impressão vital, que poderia se expressar com o dito tão engraçado e perspicaz de nosso velho povo: “ancha es Castilla”. Isso significa que em todos esses aspectos elementares e decisivos a vida se apresentou sem impedimentos ao novo homem. A compreensão e a importância desse fato surgem automaticamente quando se recorda que essa franquia vital faltou por completo aos homens comuns do passado. Ao contrário, para eles a vida foi um destino premente — no aspecto econômico e físico. Sentiram o viver a nativitate como uma enorme carga de impedimentos que eram obrigados a suportar, sem haver outra solução que não fosse se adaptar a eles, alojar-se nas brechas que deixavam.

Mas a contraposição de situações é ainda mais evidente quando, do campo material, passamos para o civil e o moral. Desde a segunda metade do século XIX, o homem médio não encontra mais nenhuma barreira social. Isto é, tampouco nas formas da vida pública ele encontra ao nascer travas e limitações. Nada o obriga a conter a sua vida. Também aqui “ancha es Castilla”. Não existem os “estados” nem as “castas”. Não há ninguém com privilégios civis. O homem médio aprende que todos os homens são legalmente iguais.
Jamais em toda a história o homem tinha sido colocado numa circunstância ou contorno vital que se parecesse, ainda que de longe, com o determinado por essas condições. Trata-se, de fato, de uma inovação radical no destino humano, que é implantada pelo século XIX. Cria-se um novo cenário para a existência do homem, novo no físico e no social. Três princípios tornaram possível esse novo mundo: a democracia liberal, as experiências científicas e o industrialismo. Os dois últimos podem ser resumidos num só: a técnica. Nenhum desses princípios foi inventado pelo século XIX, mas são procedentes dos séculos anteriores. A honra do século XIX não se estriba na sua invenção e sim na sua implantação. Ninguém desconhece isso. Mas não basta um reconhecimento abstrato; é preciso que se tome consciência de suas conseqüências inexoráveis.

O século XIX foi essencialmente revolucionário. Mas esse seu aspecto não deve ser configurado no espetáculo de suas barricadas, que por si só não constituem uma revolução, e sim no fato de ter colocado o homem médio — a grande massa social — em condições de vida radicalmente opostas às que sempre o haviam rodeado. A existência virou do avesso. A revolução não é a sublevação contra a ordem preexistente, mas a implantação de uma nova ordem que contraria a tradicional. Por isso não há exagero algum em se dizer que o homem engendrado pelo século XIX é, para todos os efeitos da vida pública, um homem à parte de todos os outros homens. O do século XVIII se diferencia, é claro, do dominante no XVII, e este do que caracteriza o do XVI, mas todos eles são parentes, similares e ainda idênticos quanto ao essencial se esse novo homem for confrontado com eles. Para o “vulgo” de todas as épocas, “vida” significava, antes de tudo, limitação, obrigação, dependência; em uma palavra: pressão. Ou, caso se prefira, opressão, desde que esta não seja entendida apenas como jurídica e social, esquecendo-se a cósmica. Porque esta última é a que nunca faltou até cem anos atrás, quando começa a expansão da técnica científica — física e administrativa —, praticamente ilimitada. Antes, mesmo para o rico e poderoso o mundo era um âmbito de pobreza, dificuldade e perigo (1).

O mundo que rodeia o homem novo desde seu nascimento não faz com que ele se limite em nenhum sentido, não lhe apresenta nenhum veto nem contenção, mas, ao contrário, fustiga seus apetites que, em princípio, podem crescer indefinidamente. Pois acontece — e isso é muito importante — que esse mundo do século XIX e começo do século XX não só tem as perfeições e amplitudes que efetivamente tem, como, além disso, sugere a seus habitantes uma segurança inabalável de que amanhã será ainda mais rico, mais perfeito e mais amplo, como se gozasse de um espontâneo e inesgotável crescimento. Ainda hoje, apesar de alguns sinais que indicam uma pequena brecha nessa fé absoluta, ainda hoje muito poucos homens duvidam de que os automóveis daqui a cinco anos serão mais confortáveis e mais baratos que os atuais. Acredita-se nisso como se acredita no próximo nascer do sol. A comparação é exata. Porque, de fato, o homem vulgar, ao se encontrar com este mundo de técnica e socialmente tão perfeito, pensa que foi criado pela Natureza, e nunca se lembra dos esforços geniais de indivíduos excepcionais que a sua criação pressupõe. Menos ainda admitirá a idéia de que todas essas facilidades continuam se apoiando em certas virtudes raras dos homens, cuja menor falta ocasionaria o imediato desaparecimento dessa magnífica construção.

Isso nos leva a apontar no diagrama psicológico do homem-massa atual dois primeiros traços: a livre expansão de seus desejos vitais, portanto, de sua pessoa, e a radical ingratidão para com tudo que tornou possível a facilidade de sua existência. Essas duas características compõem a conhecida psicologia da criança mimada. E, de fato, quem a utilizasse como quadrícula para ver através dela a alma das massas atuais não erraria. Herdeiro de um passado longo e genial — genial de inspirações e de esforços —, o novo vulgo foi mimado pelo mundo à sua volta. Mimar é não limitar os desejos, dar a um ser a impressão de que tudo lhe é permitido, que não é obrigado a nada. A criança submetida a esse regime não tem noção de seus próprios limites. Por se evitar qualquer pressão à sua volta, qualquer choque com outros seres, chega a acreditar efetivamente que só ele existe, e se acostuma a não considerar os demais, principalmente a não considerar ninguém como superior a ele. Essa sensação de superioridade alheia só lhe poderia ser proporcionada por quem, mais forte que ele, o obrigasse a renunciar a algum desejo, a se restringir, a se conter. Assim teria aprendido esta lição essencial: “Ali eu paro e começa outro que pode mais que eu. No mundo, pelo visto, há dois: eu e outro superior a mim.” Ao homem médio de outras épocas essa sabedoria elementar era ensinada cotidianamente por seu mundo, porque era um mundo toscamente organizado, onde as catástrofes eram freqüentes e não havia nada seguro, abundante nem estável. Mas as novas massas encontram uma paisagem cheia de possibilidades e, além de tudo, segura, e tudo isso rápido, à sua disposição, sem depender de seu esforço prévio, como o sol se encontra no alto sem que tenha sido preciso que o levantássemos nos ombros. Nenhum ser humano agradece a outro o ar que respira, porque o ar não foi fabricado por ninguém: pertence ao conjunto do que “está aí”, do que dizemos “é natural”, porque não falha. Essas massas mimadas são bem pouco inteligentes para acreditar que essa organização material e social, posta à sua disposição como o ar, é da mesma origem que este, já que, pelo visto, também não falha, e é quase tão perfeita como a natural.

Minha tese é, portanto, a seguinte: a própria perfeição com que o século XIX organizou certas esferas da vida é a origem do fato de que as massas beneficiárias não a considerem como organização, mas como natureza. Assim se explica e se define o absurdo estado de ânimo que essas massas revelam: não se preocupam com nada além de seu bem-estar e ao mesmo tempo não são solidárias com as causas desse bem-estar. Como não vêem nas vantagens da civilização uma invenção e uma construção prodigiosas, que só podem ser mantidas com grandes esforços e cuidados, acham que seu papel se resume em exigi-las peremptoriamente, como se fossem direitos naturais. Nas agitações provocadas pela escassez as massas populares costumam procurar pão, e o meio que empregam costuma ser o de destruir as padarias. Isto pode servir como símbolo do comportamento que, em proporções mais vastas e sutis, têm as massas atuais para com a civilização que as alimenta (2).

Notas

1.         Por mais rico que um indivíduo fosse em relação aos demais, como a totalidade do mundo era pobre, a esfera de facilidades e comodidades que sua riqueza podia lhe proporcionar era muito reduzida. A vida do homem médio de hoje é mais fácil, cômoda e segura que a do mais poderoso homem de outros tempos. O que importa não ser mais rico que os outros se o mundo lhe proporciona magníficos caminhos, estradas de ferro, telégrafo, hotéis, segurança física e aspirina?

2.         Abandonada à sua própria inclinação, a massa, qualquer que seja, plebéia ou “aristocrática”, tende sempre, no afã de viver, a destruir as causas de sua vida. Sempre me pareceu uma caricatura muito engraçada sobre tendência a propter vitam, vivende perdere causas, o que aconteceu Níjar, cidade perto de Almeria, quando em 1759 Carlos III foi proclamado rei. A proclamação foi feita na praça da cidade. “Depois mandaram trazer de beber a todo aquele grande ajuntamento, que consumiu setenta e sete arrobas de Vinho e quatro odres de Aguardente, cujos espíritos os aqueceu de tal forma, que com repetidos vivas se dirigiram ao depósito, de cujas janelas jogaram o trigo que havia nele e 900 reais de suas Arcas. Dali foram para o Estanco do Tabaco e mandaram tirar o dinheiro da Mesada, e o tabaco. Fizeram a mesma coisa nas barracas, mandando derramar, para confirmar sua autoridade, todos os gêneros líquidos e comestíveis que havia nelas. O Estado eclesiástico concorreu com igual eficácia, pois, aos gritos, induziu as Mulheres a jogarem fora tudo quanto havia em suas casas, o que executaram com a maior despreocupação, pois nelas não restou pão, trigo, farinha, cevada, pratos, caçarolas, almofarizes, pilões, nem cadeiras, ficando a dita cidade destruída.” Segundo um documento da época em poder do senhor Sánchez de Toca, citado em Reinado de Carlos III, por don Manuel Danvila, vol. II, p. 10, nota 2. Essa cidade, para viver sua alegria monárquica, aniquila-se a si mesma. Admirável Níjar! O futuro é teu!

Tradução de Marylene Pinto Michael


* Filósofo, jornalista e ativista político espanhol.
O ser humano: porção consciente e inteligente da Terra

* Por Leonardo Boff

O ser humano consciente  não deve ser considerado à parte do processo da evolução. Ele representa um momento especialíssimo da complexidade das energias,  das informações e da matéria da Mãe Terra. Cosmólogos nos dizem que, atingindo certo nível de conexões a ponto de criar uma espécie de um uníssono de vibrações, a Terra faz irromper  a consciência e com ela a inteligência, a sensibilidade e o amor.

O ser humano é aquela porção da Mãe Terra que, num momento avançado de sua evolução, começou a sentir, a pensar, a amar, a cuidar e a venerar. Nasceu, então, o ser mais complexo que conhecemos: o homo sapiens sapiens. Por isso, segundo mito antigo do cuidado, de húmus (terra fecunda) se derivou homo/homem e de adamah, em hebraico (terra fértil), se originou Adam — Adão (o filho e a filha da Terra).

Em outras palavras, nós não estamos fora nem acima da Terra viva. Somos parte dela, junto com os demais seres que ela também gerou. Não podemos viver sem a Terra, embora ela possa continuar sua trajetória sem nós.

Por causa da consciência e da inteligência, somos seres com uma característica especial: a nós foi confiada a guarda e o cuidado da Casa Comum. Melhor ainda: a nós cabe viver e continuamente refazer  o contrato natural entre Terra e Humanidade, pois é de sua observância que se garantirá a sustentabilidade do todo.

Essa mutualidade Terra-Humanidade é melhor assegurada se articularmos a razão intelectual, instrumental-analítica, com a razão sensível e cordial. Damo-nos conta, mais e mais, de que somos seres impregnados de afeto e de capacidade de sentir, de afetar e de ser afetados. Tal dimensão possui uma história de milhões de anos, desde quando surgiu a vida há 3,8 bilhões de anos. Dela  nascem as paixões, os sonhos e as utopias que movem os seres humanos para a ação. Esta dimensão, também chamada de inteligência emocional, foi recalcada na modernidade em nome de uma pretensa objetividade da análise racional. Hoje sabemos que todos os conceitos, ideias e visões do mundo vêm impregnados de afeto e de sensibilidade (M. Maffesoli, Elogio da razão sensível, Vozes, Petrópolis, 1998).

A inclusão consciente e indispensável da inteligência emocional com a razão intelectual nos move mais facilmente ao cuidado e ao respeito da Mãe Terra e de seus seres.

Junto a esta inteligência intelectual e  emocional existe no ser humano também a inteligência espiritual . Ela não é um dado apenas do ser humano, mas, segundo renomados cosmólogos, uma das domensões do universo. O espírito e a consciência têm o seu lugar dentro do processo cosmogênico. Podemos dizer que eles estão primeiro no universo e depois na Terra e no ser humano. A distinção entre o espírito da Terra e do universo e o nosso espírito não é de princípio mas de grau.                       

Este espírito  está em ação desde o primeiríssimo momento após o Big Bang.  Ele é aquela capacidade que o universo mostra de fazer de todas as relações e interdependências uma unidade sinfônica. Sua obra é realizar aquilo que alguns físicos quânticos (Zohar, Swimme e outros) chamam de holismo relacional: articular todos os fatores, fazer convergir todas as energias, coordenar  todas as informações e todos os impulsos para cima e para a frente de forma que se forme um Todo e o cosmos apareça de fato como cosmos (algo ordenado) e não simplesmente a justaposição de entidades  ou o caos.

É neste sentido que não poucos cientistas (A. Goswami, D. Bohm, B. Swimme e outros) falam do universo autoconsciente e de um propósito que é perseguido pelo conjuntos das energias em ação. Não há como negar esse percurso: das energias primordiais passamos à matéria, da matéria à complexidade, da complexidade à vida, e da vida à consciência que nos seres humanos se realiza como autoconsciência individual, e da autoconsciência passamos à noosfera (Teilhard de Chardin),  pela qual nos sentimos uma mente coletiva.

Todos os seres participam de alguma forma do  espírito, por mais “inertes” que se nos apresentem, como uma montanha ou um rochedo. Eles também estão envolvidos numa incontável rede de relações, relações estas que são a manifestação do espírito. Formalizando, poderíamos dizer: o espírito em nós é aquele momento da consciência em que ela sabe de si mesma, se sente parte de um todo maior e percebe que um Elo misterioroso liga e re-liga todos os seres, fazendo que haja um cosmos e não um caos.

Esta compreensão desperta em nós um sentimento de pertença a este Todo, de parentesco com os demais seres da criação, de apreço por seu valor intrínseco pelo simples fato de existirem e revelarem algo do mistério do universo.

Ao falarmos de sustentabilidade em seu sentido mais global, precisamos incorporar este momento de espiritualidade cósmica, terrenal e humana, para ser  completa, integral e potenciar sua força de sustentação.

* Leonardo Boff é teólogo e autor de “Tempo de Transcendência: o ser humano como projeto infinito”, “Cuidar da Terra-Proteger a vida” (Record, 2010) e “A oração de São Francisco”, Vozes (2009 e 2010), entre outros tantos livros de sucesso. Escreveu, com Mark Hathway, “The Tao of Liberation exploring the ecology on transformation”, “Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz” (Vozes, 2009). Foi observador na COP-16, realizada recentemente em Cancun, no México.

O destino late antes da hora

* Por Cida Pedrosa

Joly foi amarrado ao meio-dia. Só olhos e sede. O pé de juazeiro era pouco para a impaciência e o silêncio. A tarde era castanha e corria em um abril sereno, desses sem nuvens e de brisa rasteira a balançar as saias.

Joly foi amarrado ao meio-dia. A menina se aproximou da corda e foi puxada bruscamente pelo pai. Sem entenderem nada, o encontro de quatro olhos aflitos, partido apenas por um leve grunhido e um suave balançar de rabo.

Joly foi amarrado ao meio-dia. Olhos vidrados, baba na boca. Não quis o pão embebido em leite, nem o almoço tirado da mesa e longe das sobras.

Joly foi executado ao meio-dia. Um pai uma única mão um único tiro misericórdia nos olhos. Duas cabeças dois corações. Um destino que parou. A menina não tinha palavras na boca e correu estrada afora. Tarde sem dentes, água entre as pernas e um latido encravado no ouvido.

A mulher parou no sinal ao meio-dia. Só olhos e cansaço. A sombra da alameda era pouca para a impaciência e o barulho. A tarde era castanha e corria em um abril apressado, cheio de nuvens e de um vento ligeiro.

A mulher parou no sinal ao meio-dia. O menino se aproximou do carro e puxou bruscamente a arma contra o vidro. Sem entenderem nada, se repete o encontro de quatro olhos aflitos, partido apenas pelo suave levantar do cão.

A mulher parou no sinal ao meio-dia. Estava com fome e na mesa posta pratos e filhos à sua espera.

A mulher foi executada ao meio-dia. Um menino duas mãos vários tiros uma bolsa. Duas cabeças dois corações dois destinos. O menino não tinha misericórdia nos olhos vidrados e correu rua afora sem amarras. Tarde sem dentes, baba na boca, água entre as pernas e um barulho de sirene no ouvido.



(Ilustração: Oswaldo Sagastegui)

* Poetisa e vereadora no Recife