Estalos de lembrança
* Por
Núbia Araujo Nonato do Amaral
- Mãe que letra é
essa?
- E essa?
- E essa daqui?
Caixa de sabão em pó,
lata de óleo (é, sou desse tempo), caixa de remédio, placas de rua. Tudo eu
queria ler e minha mãe vendo o meu descontentamento e fome por saber, me
alfabetizou.
Minha primeira
professora... lógico que quando fui para a escola tinha vários vícios, mas não
dei trabalho a professora. Não as chamávamos de tia, era dona fulana ou somente
professora.
Dona Maria
Auxiliadora, minha primeira professora oficial era grandona, alta, de cabelos
curtos; por debaixo daqueles óculos redondinhos eu a achava tão bonita! Sua voz
ressoava na sala e o silêncio era imediato.
Minha escola parecia o
mundo, com grandes árvores cujas raízes transgressoras rasgavam o chão pra
respirar. Na minha imaginação eu podia jurar que eram baobás.
A campainha tocava e
saltava criança de tudo que era canto; eu observava as lancheiras e o que saíam
delas, sucos, frutas biscoitos. Sentava-me em uma das raízes e abria o meu guardanapo,
por sorte o pão tinha recheio, mas nem sempre era assim, das vezes oferecia um
pedaço pra professora, mas ela nunca aceitava, nos deixava no recreio e ia pra
sala dos professores.
Eu era quase sempre a
primeira a copiar todo o dever, a fazer a redação, a colorir um mapa e o meu
caderno sempre em dia e sem orelhas servia de exemplo.
Na simplicidade do meu
dia a dia acumulei experiências, algumas bem dolorosas, como no dia em que
acordei muito mal, mas minha mãe não acreditou em mim. Voltei pra casa com o
casaco amarrado na cintura e um séquito de mosquitinhos a minha volta; tadinha,
ela ficou pior do que eu.
Ah! E mais e mais eu
escreveria! A memória é um prodígio, reacende a cada estalo de lembrança.
* Poetisa, contista, cronista e colunista do
Literário
As lembranças dolorosas ficam marcadas a ferro, enquanto as boas viram fumaça. Nossa memória não deveria ser assim.
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