Abdominal terceirizado – a fronteira
* Por
Marta Barcellos
Elias é um senhorzinho
espontâneo. Sorridente, confiante, diz o que lhe passa pela cabeça. Uma vez
sentou-se ao meu lado e puxou conversa sobre a matéria de capa da revista Veja.
Se eu tinha visto a última do PT. Não, eu não tinha lido; não, eu não costumava
acreditar na Veja, informei-o. Ele não chegou a ficar contrariado, acho até que
gostou. Teria esfregado as mãos, se elas não estivessem agarradas ao apoio da
bicicleta ergométrica.
- Você é daquelas que
acreditam que as pessoas nascem boas? Pois saiba que é a competição que move a
humanidade. É cada um por si.
Faltavam uns cinco
minutos para chegar ao fim do meu treino, mas considerei encurtá-lo. Aliás,
como ele havia feito com aquele diálogo: aparentemente, pulara várias falas que
teriam sido necessárias, para poder chegar logo ao “desafio filosófico”, que
considerava o cerne da questão.
Não me lembro de como
saí da situação, mas o fato é que Elias continua a conversar comigo – ou com
qualquer outro na academia que lhe der um mínimo de trela. Mesmo depois do
impeachment, seu assunto preferido é fazer piadas sobre o PT. Deste nível:
- Sabe qual é a última
do PT? Eles agora querem igualar os QIs (quociente de inteligência) de todo
mundo. Se uma pessoa tiver QI zero e outra QI cem, as duas vão passar a ter QI
50.
Mas eu não estaria
aqui dando tanto espaço para este senhorzinho, se não fosse por um desses
“diálogos-piada” em especial, que ouvi entre ele e Carol.
Primeiro, apresentemos
Carol. Ela é, sobretudo, forte. Forte mesmo, não se trata de um eufemismo para
gorda. Na verdade, tem um corpão, provavelmente por causa da pouca idade e dos
pesos que levanta com braços, pernas e glúteos quando não está em seu turno na
academia. Dos professores, é a única que não fica de conversa fiada com os
alunos mais interessados em “fazer social” do quem em malhar. Os cabelos naturalmente
lisos, compridos e castanhos estão sempre soltos, escorridos sobre a camiseta
preta que a identifica, nas costas, em letras brancas, como “Profissional
Ed.Física”.
Pois foi justamente
quando estava ao lado de Carol, que Elias teve uma de suas ideias “engraçadas”.
Como se estivesse cansado dos exercícios, e como é um sujeito que se acostumou
a ser espontâneo, e como a sua espontaneidade é sempre muito bem recebida pelos
amigos, Elias disse:
- Tive uma ideia. A
gente poderia passar a terceirizar os exercícios físicos. Não seria ótimo? Eu
terceirizo meus abdominais, você os faz para mim, e eu fico com os efeitos
todos!
- Seria ótimo, se
funcionasse – se limitou a responder Carol, com a seriedade de sempre.
Elias, claro, é um
entusiasta de terceirização (isso posso afirmar, supondo que o assunto estaria
naquele diálogo “pulado”, em benefício da produtividade, entre a matéria da
Veja e teoria hobbesiana). O seu raciocínio é no mínimo curioso: para se evitar
um esforço, hoje em dia é possível terceirizar quase tudo. Contrata-se,
paga-se, distribui-se renda e trabalho – a partir desse contrato, é necessário
ao contratante (QI cem?) apenas comandar as pessoas subordinadas (QI zero?). Os
contratados cuidam da firma, as babás cuidam das crianças pequenas, os
professores das crianças grandes, os passeadores dos cachorros, os médicos da
saúde etc.
Mas aí entra o
problema dos corpos. É possível “terceirizá-lo” apenas parcialmente - ao
esteticista, ao massagista, ao cabeleireiro, ao fisioterapeuta, ao personal
trainer. O Profissional Ed.Física pode acordar o dorminhoco em casa, arrastá-lo
para correrem juntos no calçadão e ouvir sua conversa chata sobre o PT fingindo
interesse. Mas quando o Profissional Ed.Física fizer quinhentos abdominais, com
suor e determinação, a barriga tanquinho será só dele, não de Elias.
Elias gostaria de
pagar para ter a juventude, a determinação e quem sabe os glúteos de Carol. Mas
precisa se contentar que ela ria de suas piadas. Nem isso tem conseguido,
coitado.
*
Jornalista, trabalhou nos veículos “O Globo”, “Gazeta Mercantil” e “Valor
Econômico”, e hoje consegue conciliar realização no trabalho com qualidade de
vida. Já escreveu três livros jornalísticos, encomendados por empresas. Presta
serviços de conteúdo por meio da Contexto Final, é colaboradora do Valor
Econômico e mantém colunas fixas na revista Capital Aberto e no site Digestivo
Cultural, além de manter seu blog "Espuminha de Leite" http://blog.contextofinal.com.br/perfil/
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