Noturno
* Por Paulo José Cunha
Rush de faróis na chuva
Avenidas líquidas
Automóveis mergulham
rápidos
no cristalino dos teus olhos
Faíscas de luz estalam no asfalto
Tremo de medo no alto
deste trampolim noturno
entre nuvens e estrelas
Mesmo assim me atiro no vazio
Para a vertigem do mergulho
No cristalino dos teus olhos
Confiteor
Sou ator
e cada cena em que te amo
dura o tempo de um amor
Sou atriz
e quando faço a meretriz
sou a mais devassa puta
do país
Sou poeta
e quando escrevo
sou assim:
sem começo nem fim,
sem meta, sem mim
Tarde
agora é tarde
os pássaros
abandonaram os quintais
não sei se ainda te amo
ou se nem mais
agora é tarde
(foi por um triz)
mas passa da hora
e a última perdiz
já foi-se embora
é tarde, amiga
agora é tarde
já nem lembro mais
do verso daquela cantiga
e o pássaro de fogo
já não arde
é tarde
Galo
No estandarte da crista,
a imponência de um marechal-de-campo,
o olhar superior, as esporas de aço.
E assim,
imbuído dos mais alevantados propósitos,
o comandante-em-chefe dos quintais subordinados
ergue a voz de comando sobre o silêncio dos telhados,
estufa o peito recoberto de alamares e condecorações,
ordena o arquivamento da noite, revoga as disposições em contrário
e declara aberta a manhã
·
Poeta, jornalista, professor e documentarista
piauiense, autor dos livros “Salto sem trapézio”, “Perfume de resedá”,
“Vermelho, um pessoal garantido” e “Caprichoso, a terra do azul”.
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