Espectros
* Por
Alberto Cohen
De que me servem as
flores do tapete se não tenho um jardim? E as janelas com o mundo verdadeiro lá
fora fazem de mim um prisioneiro por livre opção?
O fato é que perdi o
jeito de viver, de ser mais um na multidão dos seres com múltiplas finalidades,
desejos humanos e um saber buscar.
Homens, mulheres e
crianças com um objetivo, seja ele qual for, penetram as ruas, correm, andam e
cantam com a vida a chamá-los para a farra diária do ter o que fazer. É o mundo
encantado do existir apenas para o dia de hoje que será hoje de novo amanhã.
Os espectros como eu
fazem parte de janelas espectadoras e de flores bordadas industrialmente, sem
cheiros e com mentirosas cores. Nada além de lembranças que quase nem lembram e
saudades verbais do que não aconteceu. Zumbis ainda de carne que se prenderam
em ambientes fechados e soturnos com olhos-mágicos nas portas.
Passar os dias sem
contar as horas. Esperar pela noite para o esquecimento do sono que pode não
vir. Medo das calçadas e dos imprevistos que elas podem ou não trazer.
A casa é o forte onde
as ameaças e esperanças já nem batem à porta e as flores do tapete sempre
estiveram lá e estarão para sempre.
*
Poeta paraense.
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