O ideal abolicionista
* Por
Joaquim Nabuco
Compare-se com o
Brasil atual da escravidão o ideal de Pátria que nós, Abolicionistas,
sustentamos: um país onde todos sejam livres; onde, atraída pela franqueza das
nossas instituições e pela liberdade do nosso regímen, a imigração européia
traga, sem cessar, para os trópicos uma corrente de sangue caucásico vivaz,
enérgico e sadio, que possamos absorver sem perigo, em vez dessa onda chinesa,
com que a grande propriedade aspira a viciar e corromper ainda mais a nossa
raça; um país que de alguma forma trabalhe originalmente para a obra da
humanidade e para o adiantamento da América do Sul.
Essa é a justificação
do movimento Abolicionista. Entre os que têm contribuído para ele e cedo ainda
para distribuir menções honrosas, e o desejo de todos deve ser que o número dos
operários da undécima hora seja tal que se torne impossível, mais tarde, fazer
distinções pessoais. Os nossos adversários precisam, para combater a idéia
nova, de encará-la em indivíduos, cujas qualidades nada têm que ver com o
problema que eles discutem. Por isso mesmo, nós devemos combater em toda a
parte tendo princípios, e não nomes, inscritos em nossa bandeira. Nenhum de nós
pode aspirar à glória pessoal, porque não há glória no fim do século XIX em
homens educados nas idéias e na cultura intelectual de uma época tão adiantada
como a nossa, pedirem a emancipação de escravos. Se alguns dentre nós tiverem o
poder de tocar a imaginação e o sentimento do povo de forma a despertá-lo da
sua letargia, esses devem lembrar-se de que não subiram à posição notória que
ocupam senão pela escada de simpatias da mocidade, dos operários, dos escravos
mesmos, e que foram impelidos pela vergonha nacional, a destacarem-se, ou como
oradores, ou como jornalistas, ou como libertadores, sobre o fundo negro do seu
próprio país mergulhado na escravidão. Por isso eles devem desejar que essa
distinção cesse de sê-lo quanto antes. O que nos torna hoje salientes é
tão-somente o luto da pátria: por mais talento, dedicação, entusiasmo e
sacrifícios que os Abolicionistas estejam atualmente consumindo, o nosso mais
ardente desejo deve ser que não fique sinal de tudo isso, e que a anistia do
passado elimine até mesmo a recordação da luta em que estamos empenhados.
A anistia, o esquecimento
da escravidão; a reconciliação de todas as classes; a moralização de todos os
interesses; a garantia da liberdade dos contratos; a ordem nascendo da
cooperação voluntária de todos os membros da sociedade brasileira: essa é a
base necessária para reformas que alteiam o terreno político em que esta
existiu até hoje. O povo brasileiro necessita de outro ambiente, de
desenvolver-se e crescer em meio inteiramente diverso.
Nenhuma das grandes
causas nacionais que produziram, como seus advogados, os maiores espíritos da
humanidade, teve nunca melhores fundamentos do que a nossa. Torne-se cada
brasileiro de coração um instrumento dela; aceitem os moços, desde que entrarem
na vida civil, o compromisso de não negociar em carne humana; prefiram uma
carreira obscura de trabalho honesto a acumular riqueza fazendo ouro dos
sofrimentos inexprimíveis de outros homens; eduquem os seus filhos, eduquem-se
a si mesmos, no amor da liberdade alheia, único meio de não ser a sua própria
liberdade uma doação gratuita do Destino, e de adquirirem a consciência do que
ela vale, e coragem para defendê-la. As posições entre nós desceram abaixo do
nível do caráter; a maior utilidade que pode ter hoje o brasileiro, de valor
intelectual e moral, é educar a opinião (feliz do que chega a poder guiá-la),
dando um exemplo de indiferença diante de honras, distinções e títulos
rebaixados, de cargos sem poder efetivo. Abandonem assim os que se sentem com
força, inteligência e honradez bastante para servir à pátria do modo mais útil,
essa mesquinha vereda da ambição política; entreguem-se de corpo e alma à
tarefa de vulgarizar, por meio do jornal, do livro, da associação, da palavra,
da escola, os princípios que tornam as nações modernas fortes, felizes e
respeitadas; espalhem as sementes novas da liberdade por todo o território
coberto das sementes do dragão; e logo esse passado, a cujo esboroamento
assistimos, abrirá espaço a uma ordem de coisas fundadas sobre uma concepção
completamente diversa dos deveres, quanto à vida, à propriedade, à pessoa, à
família, à honra, aos direitos dos seus semelhantes, do indivíduo para com a
nação, quanto à liberdade individual, à civilização, à igual proteção a todos,
ao adiantamento social realizado, para com a humanidade que lhe dá o interesse
e participação - e de fato o entrega tacitamente à guarda de cada um - em todo
esse patrimônio da nossa espécie.
Abolicionistas são
todos os que confiam num Brasil sem escravos; os que predizem os milagres do
trabalho livre, os que sofrem a escravidão como uma vassalagem odiosa imposta
por alguns, e no interesse de alguns, à nação toda, os que já sufocaram nesse
ar mefítico, que escravos e senhores respiram livremente; os que não acreditam
que o brasileiro, perdida a escravidão, se deite para morrer, como o romano do
tempo dos Césares, porque perdera a liberdade.
Isso quer dizer que nós vamos ao encontro dos
supremos interesses da nossa pátria, da sua civilização, do futuro a que ela
tem direito, da missão a que a chama o seu lugar na América; mas, entre nós e
os que se acham atravessados no seu caminho, quem há de vencer? É esse o
próprio enigma do destino nacional do Brasil. A escravidão infiltrou-lhe o
fanatismo nas veias, e, por isso, ele nada faz para arrancar a direção daquele
destino às forças cegas e indiferentes que o estão, silenciosamente,
encaminhando.
(O Abolicionismo, 1883).
*
Escritor e diplomata, membro da Academia Brasileira de Letras.
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