O
centroavante reserva
* Por Rodrigo
Ramazzini
No túnel de acesso ao gramado do
estádio, o Uésklei, centroavante reserva, reuniu os companheiros de equipe em
um círculo e proferiu as últimas palavras de incentivo antes do início da
partida de futebol:
- Vamú lá! Eu confio em vocês. Essa vitória é
nossa!
Era a oitava rodada do campeonato. O
centroavante Uésklei amargava mais uma vez a reserva. O titular, chamado
Thomas, só ostentava tal condição por ser um “alemão” de quase dois metros de
altura (o técnico achava isso excepcional) e porque viera da Europa, com status
de “estrela”, mas que até agora não fizera o esperado de um centroavante: gols.
Uésklei, apesar dos poucos minutos que jogava por partida, já possuía quatro.
Sentou-se no banco de reservas e proferiu,
em um pensar alto: “Tomara que esse alemão se machuque hoje”. O lateral reserva
Marcinho ouviu apenas uma parte, e questionou: “Quem se machuque?” Uésklei
redargüiu, fingindo não entender: “O que você falou? Oh! Vai começar...”
O jogo inicia. Com cinco minutos de
partida, Thomas perde um gol de cabeça de frente para o goleiro adversário. O
centroavante Uésklei, levantando-se do banco, juntamente com os demais
companheiros de reserva, faz gesto de “desespero”, não acreditando na
oportunidade desperdiçada. Quando retorna ao assento, não tarda em pensar: “É
hoje que vou arrebentar e virar titular!”.
A partida continua. Os minutos passam e
Thomas continua a perder oportunidades em cima de oportunidades de fazer a
alegria da sua torcida. Certa vaia vinda da geral do estádio já é ouvida quando
ele pega na bola. No banco de reservas, a cada gol perdido pelo “Alemão”,
Uésklei faz gestos e cenas como se sentisse o gol perdido. Mas, a bem da
verdade, no “fundinho”, comemora, pois sabe que a oportunidade almejada está
sendo facilitada com tantos erros. Quando o Thomas errou um pênalti, então, ele
não tem mais dúvidas. Entraria no segundo tempo.
A primeira etapa termina. Uésklei desce
para o vestiário já tirando o agasalho e acelerando o aquecimento, convicto que
entraria no jogo. O técnico chega cuspindo marimbondo. Reclama da atuação da
equipe, desde a parte tática até o emocional. Xinga veemente todos, do goleiro
ao camisa 11, exceto o “Alemão”, no qual passa a mão na cabeça e diz: “Ótimo
jogo até aqui!” Uésklei, presenciando tal atitude, indigna-se. Nem ficou os
quinze minutos de direito no vestiário. Subiu as escadarias e, sozinho, ficou à
beira do gramado, fazendo algumas embaixadinhas e falando sozinho, até o
restante do time retornar para a segunda etapa.
Na volta do intervalo, encontrando
Uésklei em tal situação, o técnico questiona-o se há alguma coisa errada. Ele
redargüiu, negando: “Não! Não! Tudo certo. Acho que vamos ganhar essa partida!”,
respondeu e voltou a sentar-se no banco de reservas.
Reinicia o jogo. E os trinta e oito
minutos seguintes são de dar sono a todos os expectadores da partida. Nem um
chute a gol é dado por ambas as equipes. Neste instante da partida, Uésklei
encontra-se aquecendo-se, juntamente com os demais companheiros de banco de
reservas, atrás da goleira adversária. Foi então que, aos quarenta e um minutos
do segundo tempo, em um lançamento preciso, vindo do meio de campo, “Alemão”
recebe a bola sozinho dentro da grande área, ficando frente a frente com o
goleiro adversário, e não perdoa: Gol!
Os reservas saem correndo para comemorar
com “Alemão”, exceto Uésklei, que se ajoelha, desesperado. Não acredita no que
vê. Então, em um olhar perdido para o gramado, ele enxerga o árbitro
assistente, que corre pela lateral direita, e o vê com a bandeirinha levantada.
“Alemão” estava impedido. O gol deveria ser anulado. Vendo tal situação,
Uésklei não titubeia e, emergindo toda a raiva interior, por amargar a reserva,
e esquecendo todo o espírito de equipe que um time deve possuir, levanta-se e
saí gritando e apontando em direção ao bandeirinha:
- Tava impedido! Tava impedido!
O contrato de Uésklei foi rescindido no
outro dia pela manhã.
*
Jornalista e cronista
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