A praça é do povo... e dos miseráveis
* Por
Marco Albertim
A calcinha vermelha que ela deixa ver sob a curta saia, não chama a
atenção de quem olha; há muito deixou de ser o invólucro atrativo do sexo
também carente de importância no corpo. A saia é preta; bem que podia combinar
com a negritude da pele, mas acentua, com os traços cinzas de sujeira, os
mesmos riscos nas pernas e coxas ainda roliças.
A blusa é vermelha, com um nó nas extremidades da frente, na altura do umbigo. Nenhum torcedor do Sport prodigaliza as cores da roupa de Teresa Coreana. Ela tem vinte e seis anos e um brilho morto nos olhos; não de restos de seiva, mas do crack sorvido na noite brumosa do Largo da Encruzilhada.
Não está só no mundo. Acomoda-se, junto com amigos da mesma fortuna, num
arremedo de colchão que fora amarelo e escurecera no contato com o chão de
cimento em volta dos bancos em círculo da praça. De seu lado, o sarará de sua
idade protege o corpo com uma bermuda nada esportiva, visto que é uma minúcia
sob a camisa de chita, sem cor, bem à moda dos miseráveis; Diocir tem nos olhos
a mesma amorfia da amiga. São nove horas do dia. Ele ainda não removeu as
remelas das pálpebras que insistem em se manter fechadas. Manter os olhos
fechados é o modo de não se crer deserdado, aparentar indiferença a quem não os
julga insofridos.
Já Amélia Tronca tem os peitos cambados. Não se incomoda que a vejam com
o bico da mama de fora, feito um cabide pontudo na boca pionga do filho de três
anos. O crioulinho de pernas mirradas senta-se numa das coxas da mãe; tira
proveito do regaço que a sorte ainda não tirou de si. Tem no corpo uma única
peça que lhe serve de camisa, de bermuda, visto que desce dos ombros ao meio
das canelinhas; uma camiseta esquecida por um cliente no ateliê de Rosa
Temprano, costureira num dos boxes do Mercado da Encruzilhada. A modista lida
com roupas de cor variada. Julgara, em seu juízo de camareira, que o tom róseo
da vestimenta emprestaria outra coreografia ao cenário cinzento sob a única
mangueira na praça. As mangas, diga-se, não têm o direito de se mostrar
maduras; a fome sob suas folhas sem viço devora-as antes que a natureza cumpra
com seu ofício. Já estás prenha!? – quis saber a costureira assim vira o
intumescimento no ventre de Amélia Tronca. Então com dezoito anos a primeira
inquilina do Largo. Como a curiosidade sumira depois de três anos, Amélia
Tronca tirou do juízo os urdumes de ver Rosa Temprano, madrinha de Rafael. O
pai fora levado pela polícia depois de flagrado num furto a um passageiro de
ônibus. Ela foi ao Distrito de Polícia, quis saber em que presídio o trancafiaram.
Turino saiu daqui! Ninguém sabe onde ele está, ouviu dos agentes. Turino já é
carne podre, disse-lhe Diocir, sem medo de o coração de Amélia Tronca afundar
na dor, porquanto a dor nunca lhes recusara encosto.
Às nove e meia Teresa Coreana e Diocir estão sentados num dos bancos,
sentados com a convicção do direito de posse. Ela tem na boca uma chupeta, a
mesma de Rafael. O moleque não se aborrece porque se entretém na mama da mãe.
Tampouco Amélia Tronca, acostumada ao uso da vasilha de plástico com alça de
arame. Do recinto, ali, ao sanitário do mercado, é mais que a busca da água, é
a chance de distinguir alguma prenda no chão ou uns restos de cuscuz que
Manoel, o português do boteco, lhes dá para que não o amolem com peditórios
chorosos. Cuscuz umedecido, brilhoso com o que sobrara do óleo que dera gosto
ao guisado.
Teresa Coreana e Diocir, com a troca de um arreganho de sorriso,
retorcem-se no pescoço. Ela ainda tem num canto da boca a chupeta de Rafael.
Convence-se de que o enfeite de menino esconde o cabritismo do sexo. Ele não se
incomoda. Da língua de Coreana desprende-se um chorume baboso, que servirá para
entreter o céu da boca ainda sorvendo o gosto da manga verde. Há muito estão
ali, sem reparos nem aros para consertar-lhes as pernas tortas. Os dois saem do
banco, juntam as espumas que chamam de camas. Sem tirar a roupa, cobrem-se num
lençol de trapos emendados; verde, preto, amarelo, vermelho, azul. A praça é do
povo… e dos miserável. Deitados, Teresa Coreana sobe com uma das mãos a bainha
da saia curta; não tira a calcinha, abaixa a frente, para o sexo ensebado de
Diocir dar-se conta do título de posse sem o constrangimento de papel passado.
A posse não se dá feito um cavalo em cima da égua, inda que os dois se traiam
no impulso feito dois canibais; a posse se dá em decúbito lateral, sem gemidos,
os olhos viajando com a ajuda do crack consumido à noite.
- Já estão se esfregando aí, não é…! – É Rosa Temprano, cronista dos
costumes. Atravessara o Largo para ir à padaria.
Amélia Tronca ri, por certo para manter vivos os resíduos de
solidariedade da modista.
Teresa Coreana trocou a calcinha por outra da mesma cor, sem se livrar
do lençol colorido. Em seguida, lavou a usada no balde ainda com água. Nos
troncos baixos da mangueira, estendeu-a junto às roupas de Amélia Tronca, de
Diocir, de Rafael e de um crioulo encorpado ainda dormindo ao lado dos dois.
À noite o Largo esvaziou-se. À meia-noite sequer os vultos sob a
mangueira são distinguidos.
- Vamos sair, vamos achar algum otário para tomar o relógio – balbuciou
Coreana no ouvido de Diocir.
*Jornalista e escritor.
Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife.
Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do
concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em
concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite,
integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”.
Tem três livros de contos e um romance.
O submundo dentro do outro. Um inferno em vida, zumbis atarantados, imitação de gente.
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