A alegria
* Por Rubem Alves
Pouco antes de morrer, Roland Barthers pronunciou a sua conferência
inaugural como professor do College de France. Sabia que estava ficando velho,
mas saudava a velhice como tempo de recomeço, o início de uma vita nuova. E ao terminar
sua fala fez uma confissão pessoal espantosa. Disse que havia chegado o momento
de entregar-se ao esquecimento de tudo o que aprendera. Tempo de desaprender.
As cobras, para continuar a viver, têm de abandonar a casca velha. Também ele
tinha de abandonar os saberes com que a tradição o envolvera. Somente assim a
vida poderia brotar de novo, fresca, do seu corpo, como a água brota das
profundezas onde estivera enterrada. E disse então que este era o sentido de
ficar sábio: “Nada de poder;/ um pouquinho de saber;/ e o máximo possível de
sabor...”
Sendo aquela a ocasião em que estava sendo inaugurado como professor,
ele dizia que era isto que pretendia ser, daquele momento para frente: um
mestre do prazer, aquele que se dedica a ensinar aos seus jovens alunos o gosto
bom das coisas! Quem toma uma decisão como esta está afirmando que o prazer é a
única coisa que vale a pena. Vivemos para o prazer. O que é espantoso é que tal
revelação lhe tenha sido feita quando ele já deixara para trás os anos da juventude.
Talvez que a sabedoria seja coisa crepuscular. Lembro-me das palavras de Hegel,
que disse isto de forma poética: “a coruja de Minerva só abre as suas asas
quando chega a penumbra que antecede o anoitecer...”
Jorge Luís Borges também só viu direito depois que a velhice o cegou.
“Se eu pudesse de novo viver a minha vida...”: é assim que ele inicia o seu
lindo texto-testamento, confessando que naquele momento deixava para trás tudo
aquilo que um dia soubera como sabedoria. Agora, na velhice, chegava o momento
de uma nova sabedoria. E ele descreve a vida que viveria, com os olhos de um
menino. Sua sabedoria crepuscular era a sabedoria da criança que a educação
desterrara e que, naquele momento, retornava. A sabedoria do crepúsculo é um
reencontro com a infância. “Se eu pudesse viver de novo a minha vida, na
próxima trataria de cometer mais erros. Relaxaria mais. Seria mais tolo ainda
do que tenho sido. Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério. Contemplaria
mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios, começaria a andar
descalço no começo da Primavera e continuaria assim até o fim do Outono.
Porque, se não o sabem, disto é feita a vida, só de momentos. Não percam o
agora.”
Palavras que não se espera da boca de um velho. Nenhuma advertência
solene. Nenhum conselho grave. Nenhuma palavra sombria. Somente o convite à
Ieveza. A vida lhe aparece com uma imensa simplicidade: encontros sucessivos e
inesperados com a alegria, que está sempre ao alcance da mão. Efêmera, em suas
cores crepusculares, mas deliciosa como uma taça de vinho ou um beijo... Daí o
seu conselho: “Não percam o agora. Ele nunca mais se repetirá.”
Fernando Pessoa diz a mesma coisa num dos seus poemas.
“Dia em que não gozaste não foi teu:/ Foi só durares nele.
Quanto vivas/ Sem que o gozes, não vives./ Não pesa que amas, bebas ou
sorrias: Basta o reflexo do sol ida na água/ De um charco, se te é grato./
Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas/ Seu prazer posto, nenhum dia nega/ A
natural ventura.”
É preciso muito pouco. Ela está muito próxima. Mora no momento. Perdemos
a alegria porque pensamos que ela virá no futuro, depois de algum evento
portentoso que mudará a nossa vida. Mas vida: o que é isto? Como diz o
Riobaldo, “vida é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei de
uma idéia falsa. Cada dia é um dia.” E a gente fica esperando que ela haverá de
chegar depois da formatura, do casamento, do nascimento, da viagem, da
promoção, da loteria, da eleição, da casa nova, da separação, da morte do
marido, da morte da mulher, da aposentadoria... E ela não chega porque a
alegria não mora no futuro mas só no agora.
Ela está lá ,modesta e fiel, no espaço da casa, no espaço da rua. Se não
a encontrarmos, não é culpa dela. É culpa nossa. Nossos pensamentos andam muito
longe dos lugares onde ela mora e, por isso, nossos olhos não podem ver. Como
dizia o Mário Quintana, “quantas vezes a gente, em busca da ventura, procede
tal e qual o avozinho infeliz: em vão, em toda parte, os óculos procura,
tendo-os na ponta do nariz!”.
Velhice é quando se percebe que não existe no futuro nenhum evento
portentoso por que esperar, como início da felicidade. Mas isto não será
verdadeiro da vida inteira? Por isso, talvez, os jovens devessem aprender com
os velhos que é preciso viver cada dia como se fosse o último. A alegria mora
muito perto. Basta esticar a mão para colhê-la, sem nenhum esforço. Mas, para
isto, seria necessário que os nossos olhos fossem iluminados pela luz do
crepúsculo.
* Escritor, teólogo e educador, membro da Academia Campinense de
Letras
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