quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Ler é viajar no pensamento do outro


* Por Mara Narciso


Uma vez me desentendi on-line com meu amigo escritor Luiz de Aquino Alves Neto, membro da Academia Goiana de Letras. Falei que as academias de letras alimentavam vaidades. Cedo voltamos às boas, e nossa amizade virtual, que nasceu em 2002, frutificada pelas nossas trocas literárias está a cada vez mais sólida.

Pertenço ao Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros e à Academia Feminina de Letras de Montes Claros, e na última, acabamos de eleger por unanimidade e dar posse a nova diretoria da qual faço parte. Mudei eu ou mudaram as academias? A disputa de egos acontece nas atividades intelectuais assim como em algumas outras, e isso não é um mal em si. O convívio é estimulante para que possamos melhorar.

As academias de letras costumam ter 40 cadeiras como a Academia Francesa de Letras, a primeira delas. A imortalidade acontece pela maneira como as entidades são organizadas. Cada cadeira tem um patrono, pessoa já falecida que contribuiu para a cultura. Por morte, as vagas surgem, e por indicação ou votação, as mesmas são reocupadas. Os membros são chamados acadêmicos e entre si confrades e confreiras. Quando indicado, ou ao chegar, uma apresentação é feita, a produção literária e a biografia são apreciadas. Na posse ou noutra oportunidade o novo integrante faz um elogio ao seu patrono, e, caso tenha tido predecessores em sua cadeira, fala de cada um que por lá passou. Assim, ao ser várias vezes lembrado e elogiado, a pessoa se imortaliza.

A Academia Feminina de Letras de Montes Claros não tem preconceito de gênero, mas engloba apenas mulheres para valorizar o trabalho intelectual feminino. Surgiu de uma vontade da nossa mestra Dona Yvonne Silveira, que foi presidente da Academia Montesclarense de Letras durante 30 anos. Ela partiu em 17 de abril deste ano, após fazer cem anos, e em franca atividade. Deixou imensas saudades e nos legou a Academia onde mulheres escritoras de várias profissões produzem textos e os publicam.

Fundada em setembro de 2009, a Academia está presente nos eventos culturais, firme e reconhecida, pois em conjunto temos maior visibilidade. Sob a batuta de Marta Verônica Vasconcelos, ex-presidente, a entidade já publicou cinco livros de antologia, abertos a toda acadêmica dentro de um tema votado. São eles: A Mulher e o Trabalho, Testemunhas da História, Universo Feminino, Caminhos de Montes Claros e A Mulher e a Música. No último dia 24 de novembro empossamos Ângela Vera Tupinambá Castro, que atuará como presidente nos anos 2016 e 2017. A importância do evento se deu pela casa cheia – Buffet Casabella-, e pela mesa de honra que contava com Itagiba de Castro Filho, ex-presidente e conselheiro do CRM-MG – Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais, Evany Calábria, presidente da Academia que deixava o cargo, Wanderlino Arruda, presidente da Academia Montesclarense de Letras, Itamaury Teles, presidente da Academia Maçônica de Letras, Jorge Patrício, presidente da Academia Corintiana de Letras e Carlos Muniz, Secretário Municipal de Cultura.

A nossa cor é lilás, representada em toalhas, banner, flores e pelerines, que dão um toque formal. A mestra de cerimônias foi Glorinha Mameluque, a nossa 1ª presidente. Quatro confreiras tomaram posse: Palmira Teles, Marlene Bandeira, Doris Araújo, e Alcione Vieira. Como foi lançado o livro A Mulher e a Música, a cerimônia foi acompanhada pela organista Lucinha Macedo e a cantora Maristela Cardoso. Os pontos altos da festa, para além dos discursos de praxe, foram a interpretação de um poema de nome “Veludo” por Palmira Teles, de 95 anos, numa vitalidade e memória admiráveis e uma gostosa apresentação músico-teatral, na verdade uma brincadeira com a memória musical das escritoras. Voluntários fizeram uma divertida performance, comportando-se de acordo com o tema indicado pela cantora/diretora. Com a ajuda de adereços o clima mudava de música infantil para lírica, romântica, regional, caipira, religiosa e de Natal numa festa incontida, deixando a platéia colada na cena. Ao trocar a música, o mesmo cenário, vestuário e pessoas se transformavam, como se um efeito especial tivesse acontecido, mas era “apenas” a mudança da música.

Sandra Fonseca é sócia correspondente e aproximou-se com a senhora sua mãe, dona Terezinha Batista Fonseca para me conhecer. Disse gostar do que escrevo, o que me deixou lisonjeada. Então, emocionar, modificando o interior e o exterior é o que o escritor pretende e em conjunto, nas Academias, faz melhor. Diante de uma tela em branco, os pensamentos levam os dedos a teclar, as frases vão surgindo e nem imaginamos quantos e de que forma levamos a viajar conosco. Assim como a boa música, o texto vai mudando o mundo onde quer que vá.

*Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”   



2 comentários:

  1. Bom conhecer um pouco dessa Academia exclusivamente feminina. Já tive 3 convites para ingressar em uma determinada Academia de Letras, mas declinei. A impressão que tenho é que, uma vez acadêmico, o autor é "investido" de uma seriedade e um zelo com a própria lavra que acaba tolhendo uma produção mais espontânea e descompromissada - como o humor, muito presente no meu trabalho. Enfim... um abraço pra você, Mara. Sucesso para a Academia.

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    1. Pode parecer que aconteça uma sisudez, mas não notei a minha mão amarrada. Sinto-me livre para errar. Agora mesmo fiquei imaginando se não seria melhor escrever "aonde quer que vá", como também "ao ser várias vezes lembrada e elogiada, a pessoa se imortaliza". O texto perfeito é difícil e raramente a gente consegue chegar na correção necessária, Marcelo. Agradeço a passagem e o comentário. Muito obrigada!

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