A hora e a vez do sal grosso
* Por
Marcelo Sguassábia
"Enquanto eles
choram, eu vendo lenços", disse uma vez o ilustre Nizan Guanaes, com sua
obstinada verve empreendedora e seu otimismo desmedido. E no meio dessa
choradeira toda de milhões de brasileiros, que culpam a crise, o governo, o
patrão filho da mãe e sei lá mais o quê pela catástrofe em que estamos metidos,
o lenço que eu vendo é o desacreditado sal grosso. Isso mesmo: sal grosso,
aquele de botar atrás da porta para espantar visita ruim.
Não fosse eu o
cabeça-dura que sempre fui, acho que nem teria começado com essa história.
Quanta gente tentou, de todo jeito, me alertar de que o negócio não iria pra
frente. Principalmente a família e os amigos mais próximos. "Imagina, sal
grosso? Ainda se fosse batata, milho, açúcar, café ou outra commodity mercadologicamente
mais nobre e de consumo obrigatório..."
Pois fui em frente e
não me arrependi. Joguei um pouquinho do meu produto nas costas (até quem vende
sal grosso precisa de proteção), me benzi com o sinal da cruz e coloquei meu
destino nas mãos de Jorge, o santo guerreiro, e seu alazão lunático. Para me
sentir mais garantido, assegurei com mamãe uma provisão diária de cinco
rosários pedindo a intercessão da Virgem para o bom andamento da empreitada.
Quanto mais eu
pesquisava sobre o meu ganha-pão, mais eu ia vendo que lidava com algo mágico.
Mágico e de efeito científico comprovado. O sal, especialmente o sal grosso, é
capaz de neutralizar campos eletromagnéticos negativos. Entrando pelas searas
do misticismo e da religião, os poderes e as aplicações se multiplicam num sem
número de mandingas, simpatias e rituais que limpam corpo e alma, recarregam as
energias e afastam inveja e mau-olhado. Resumindo: tinha na mão um coringa,
aplicável perfeitamente a todo tipo de circunstância, sorte ingrata ou descaminho
a que o indivíduo fosse levado, por seus próprios erros ou maus fluídos dos
outros.
Tempos e ambientes de
desesperança, desemprego, lamentação e angústia são, para esse humilde filho de
Deus, a terra prometida. Encontrado nas boas casas do norte, mercadinhos de
bairro e até em lojas de ração e formicida, o sal grosso "Redentor"
(marca registrada) extermina qualquer quebrante e coisa feita. E para manter
bem forte o poder de ação, está lá na embalagem que é preciso trocá-lo de dois
em dois dias, já que os cristais se neutralizam em pouco tempo porque puxam a
negatividade do sujeito. Ou, como eu digo sempre, o sal fica cansado. Se não
ficar repondo frequentemente, não tenho como garantir o efeito esperado.
Temeroso, meu cliente deixa faltar o arroz e o feijão mas tem a despensa sempre
muito bem abastecida com quatro ou cinco sacos do "Redentor".
Se ganho na crise,
saio ganhando mais ainda na prosperidade. Em qualquer cidade desse país, o
primeiro e infalível sinal de que a recessão econômica está dando uma trégua é
o aumento da venda de picanha maturada
nos açougues. O brasileiro nasceu para queimar uma carne no fim de semana. E
não preciso nem falar qual é o único tempero que se usa para fazer um churrasco
que se preze, como manda a tradição gaúcha, certo?
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Na saúde ou na doença, sal grosso é a valência.
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